Cinco anos após retomar o poder, o Talibã consolidou no Afeganistão um dos sistemas mais abrangentes de controle sobre mulheres já documentados na era contemporânea — mais de 160 decretos que apagam progressivamente vinte milhões de pessoas da vida pública, educacional e econômica do país. O que emerge não é apenas uma crise humanitária de proporções históricas, mas uma pergunta dirigida à consciência global: até onde o silêncio do mundo pode ser confundido com aceitação?
Talibã aprofunda repressão e apaga sistematicamente mulheres da vida pública afegã
O mundo está aprendendo a conviver com isso
Por que cinco anos depois o Talibã está intensificando essas restrições em vez de estabilizá-las?
Porque consolidação de poder funciona assim. Quanto mais tempo as mulheres ficam fora das escolas e do trabalho, mais normalizado fica. Menos pessoas lembram de como era antes. A próxima geração não terá referências de mulheres em posições de autoridade.
A pesquisa da ONU mostra que homens e mulheres têm razões completamente diferentes para estar infelizes. O que isso diz?
Que o regime está criando duas crises diferentes. Os homens sofrem economicamente. As mulheres sofrem existencialmente — educação, autonomia, identidade. É mais fácil resolver uma crise econômica do que reconstruir uma geração de pessoas que foram apagadas.
Quarenta por cento das mulheres sentem mais pressão comunitária agora do que antes. Por quê?
O Talibã transformou as normas patriarcais em lei. Agora vizinhos e parentes não estão apenas julgando — estão policiando. Há risco real de denúncia. A vigilância vem de dentro das comunidades, não apenas do estado.
A Unesco pediu a restauração do direito à educação. Qual é a chance disso acontecer?
Baixa. Cada ano que passa, fica mais enraizado. Uma menina que perdeu cinco anos de educação não recupera isso. E sem professoras, sem modelos, sem instituições, como você reconstrói?
O que Ahmadi quer dizer quando escreve que o mundo está aprendendo a conviver com isso?
Que a indiferença internacional é o verdadeiro perigo. Não é apenas a repressão. É que ninguém está gritando suficientemente alto para impedir que isso se torne normal.
Le Pouls
- Vinte milhões de mulheres e meninas afegãs vivem sob um regime de restrições sem paralelo no mundo moderno, impedidas de estudar, trabalhar e circular livremente.
- Pesquisa da ONU revela que 90% das mulheres precisam de autorização masculina para sair de casa, enquanto mais de 95% dos homens saem diariamente — uma assimetria que expõe a profundidade do isolamento imposto.
- O controle transcende o espaço público: quase 40% das mulheres relatam pressão crescente dentro das próprias comunidades e famílias para cumprir as normas do regime, transformando vizinhos e parentes em agentes de vigilância.
- Uma geração inteira de meninas cresce sem acesso à educação, ameaçando criar um vácuo irreversível de professoras, médicas e líderes — e tornando o sistema cada vez mais difícil de desmantelar.
- A comunidade internacional permanece em grande parte silenciosa, e especialistas alertam que a indiferença prolongada equivale a uma forma de cumplicidade com o apagamento sistemático de metade da população afegã.
Cinco anos após retomar o poder, o Talibã consolidou no Afeganistão um dos sistemas mais abrangentes de controle sobre mulheres já documentados na era contemporânea — mais de 160 decretos que apagam progressivamente vinte milhões de pessoas da vida pública, educacional e econômica do país. O que emerge não é apenas uma crise humanitária de proporções históricas, mas uma pergunta dirigida à consciência global: até onde o silêncio do mundo pode ser confundido com aceitação?
Cinco anos depois de retomar o poder, o Talibã construiu no Afeganistão um aparato de controle sobre mulheres sem equivalente no mundo contemporâneo. Mais de 160 decretos fecharam as portas das escolas secundárias e universidades, restringiram o acesso ao trabalho, regularam a vestimenta e limitaram a própria capacidade de sair de casa. Vinte milhões de mulheres e meninas foram progressivamente excluídas da vida pública — um processo que especialistas em direitos humanos descrevem como sem paralelo nos tempos modernos.
Uma pesquisa da ONU Mulheres com cerca de cinco mil afegãos revelou a dimensão cotidiana dessa crise. Noventa por cento das mulheres entrevistadas disseram precisar de permissão masculina para deixar o lar; mais da metade sai apenas uma ou duas vezes por mês. Os homens saem diariamente em mais de noventa e cinco por cento dos casos. Quando perguntadas sobre suas expectativas, sessenta e cinco por cento das mulheres disseram que a vida piorou além do que imaginavam antes de agosto de 2021. Elas falam de educação negada, trabalho perdido e um isolamento que não é apenas físico — é psicológico, manifesto em estresse crescente e sinais silenciosos de colapso emocional.
O que torna a repressão particularmente insidiosa é sua penetração no interior das casas. Quase quarenta por cento das mulheres relataram sentir mais pressão do que antes para se conformar às regras — não apenas por medo do regime, mas por medo de serem denunciadas por vizinhos ou familiares. O Talibã converteu normas patriarcais em lei e recrutou as próprias comunidades para fiscalizá-las.
Especialistas alertam que o Afeganistão chegou a um ponto de inflexão. O país é hoje o único no mundo a proibir formalmente o acesso de meninas à educação após o ensino primário. Quanto mais essa exclusão se prolonga, mais enraizado o sistema se torna: sem professoras formadas hoje, não haverá quem ensine amanhã. A advogada de direitos humanos Belquis Ahmadi resume o paradoxo mais perturbador: o maior perigo não é apenas o apagamento de vinte milhões de mulheres — é o fato de o mundo estar, gradualmente, aprendendo a conviver com isso.
Cinco anos atrás, o Talibã voltou ao poder no Afeganistão e trouxe consigo um sistema de controle que não havia sido visto em escala global desde então. Mais de 160 decretos foram emitidos para restringir sistematicamente as mulheres — fechando-as fora das escolas secundárias e universidades, limitando onde podem trabalhar, como podem se vestir, o que podem dizer e até mesmo se podem sair de casa. O resultado é que vinte milhões de mulheres e meninas foram progressivamente apagadas da vida pública do país, um processo que especialistas em direitos humanos descrevem como sem paralelo nos tempos modernos.
Uma pesquisa realizada pela ONU Mulheres com aproximadamente cinco mil afegãos em comunidades rurais e urbanas ao longo do ano passado e no primeiro semestre deste ano revelou a profundidade dessa crise. Noventa por cento das mulheres entrevistadas disseram que precisam de permissão de um homem da família para sair de casa. Mais da metade sai apenas uma ou duas vezes por mês. Entre os homens, mais de noventa e cinco por cento relataram sair diariamente. A diferença não poderia ser mais clara.
Quando perguntadas sobre suas vidas, sessenta e cinco por cento das mulheres disseram que as coisas estavam piores do que esperavam antes de agosto de 2021, em comparação com cinquenta e cinco por cento dos homens. Mas as razões divergem radicalmente. Os homens apontam a falta de oportunidades econômicas. As mulheres falam sobre educação negada — tanto para si mesmas quanto para seus filhos — e sobre trabalho que lhes foi tirado. O isolamento que descrevem não é apenas físico. É psicológico. Muitas relataram aumento do estresse, da preocupação e da pressão, sinais de uma crise de saúde mental que cresce silenciosamente.
O que torna essa repressão particularmente insidiosa é como ela se estende para dentro das casas e das comunidades. Quase quarenta por cento das mulheres entrevistadas este ano disseram sentir mais pressão do que antes para se conformar com as regras — não apenas por medo do regime, mas por medo de que vizinhos e parentes as denunciem por vestimenta inadequada, fala ou comportamento. O Talibã transformou normas patriarcais em leis e recrutou as famílias para fazer cumprir sua ideologia. O controle estatal penetrou a esfera privada.
Especialistas alertam que o Afeganistão chegou a um ponto crítico. É o único país do mundo que proíbe formalmente o acesso de meninas e mulheres à educação após o ensino primário. Quanto mais tempo essa exclusão continuar, mais profundamente enraizado se tornará o sistema. Uma geração inteira de meninas está crescendo sem acesso à educação. Não haverá professoras para ensinar as próximas. Não haverá médicas, juízas, empresárias ou líderes comunitárias. A Unesco pediu a restauração plena do direito à educação, mas o tempo está passando.
Por trás de cada decreto há histórias humanas: uma universitária guardando seus livros, uma professora afastada da profissão que amava, uma juíza forçada a se esconder, uma médica impedida de atender pacientes, uma empreendedora fechando seu negócio. Belquis Ahmadi, advogada de direitos humanos e especialista em Afeganistão, escreve que o maior perigo que o país enfrenta não é apenas o fato de vinte milhões de mulheres e meninas estarem sendo sistematicamente apagadas. É o fato de o mundo estar, aos poucos, aprendendo a conviver com isso. A comunidade internacional permanece em grande parte silenciosa enquanto uma metade inteira da população desaparece da vida pública.
Citations marquantes
Nenhum outro país, nos tempos modernos, desmantelou de forma tão ampla os direitos de metade de sua população por meio de leis, políticas e práticas— Agência da ONU para as Mulheres
O maior perigo que o Afeganistão enfrenta hoje não é apenas o fato de 20 milhões de mulheres e meninas estarem sendo sistematicamente apagadas da vida pública. É o fato de o mundo estar, aos poucos, aprendendo a conviver com isso— Belquis Ahmadi, advogada de direitos humanos