A civilização poética chegou ao fim, mas as redes sociais fingem discuti-la

A poesia não descrevia a civilização. A poesia a criava.
Reflexão sobre como os poemas homéricos foram fundadores, não apenas reflexos, da civilização que os produziu.
Mark

Por que você acha que as pessoas nas redes sociais se sentem tão compelidas a discutir "A Odisseia" agora, se a poesia já não é central em nossas vidas?

Mimi

Porque "A Odisseia" virou um símbolo de algo que perdemos, mesmo que não saibamos bem o quê. É mais fácil brigar sobre uma tradução ou um elenco do que admitir que a própria civilização que criava significado através da poesia desapareceu.

Mark

Mas você está dizendo que os poemas homéricos não apenas refletiam a civilização grega, mas a criavam. Como exatamente um poema cria uma civilização?

Mimi

Quando Virgílio escreveu "A Eneida", não estava descrevendo Roma — estava dizendo aos romanos quem eles eram, de onde vinham, por que importavam. O poema virou a verdade compartilhada. Séculos depois, Dante fez o mesmo para a Itália. Camões para Portugal. A poesia era o espelho e a bússola ao mesmo tempo.

Mark

Então o que substituiu a poesia nesse papel? O que cria identidade coletiva agora?

Mimi

Essa é a pergunta que ninguém quer fazer. Talvez sejam as redes sociais, mas elas criam fragmentação, não unidade. Talvez seja o cinema, a música, a tecnologia. Mas nenhuma dessas coisas tem a mesma força de memória que a poesia tinha. Nenhuma delas nos eleva para além de nós mesmos da mesma forma.

Mark

Você acha que é possível voltar a uma civilização poética, ou isso é irreversível?

Mimi

Irreversível, provavelmente. Mas talvez o mais importante seja reconhecer o que perdemos, em vez de fingir que ainda estamos discutindo "A Odisseia" por razões que importam.

  • As guerras culturais em torno de 'A Odisseia' — a tradução de Emily Wilson, o filme de Nolan — expõem menos um debate literário do que a ansiedade de sociedades que perderam seu eixo simbólico.
  • A extrema direita anglo-saxônica instrumentaliza Homero como bandeira civilizacional, mas raramente se pergunta se a Grécia Antiga sequer se reconhecia como 'Ocidente' — a pergunta honesta que ninguém quer fazer.
  • Durante dois milênios, a poesia foi o meio pelo qual impérios se justificavam, nações se inventavam e gerações se reconheciam umas nas outras — de Virgílio a Camões, de Dante às independências americanas.
  • Hoje a poesia existe, mas não é mais decorada, declamada nem proclamada como força coletiva; ela sobrevive à margem, enquanto o centro permanece vago e sem nome.
  • A verdadeira inquietação não está nas batalhas ruidosas das redes, mas na pergunta que elas encobrem: o que, afinal, substituirá o papel civilizador que a poesia exerceu por tanto tempo?

Por milênios, a poesia não foi ornamento, mas fundação: ela criou civilizações, consolidou identidades e transmitiu o que havia de mais essencial na experiência humana. Hoje, enquanto multidões debatem 'A Odisseia' nas redes sociais com fervor superficial, o que se revela não é amor pela obra, mas o rastro de um mundo que se foi — o da civilização poética. A questão que permanece, silenciosa e urgente, é o que ocupará esse lugar central que a poesia deixou vazio.

Há anos, o colunista observa as batalhas culturais que explodem nas redes sociais em torno de 'A Odisseia' — a tradução de Emily Wilson, o filme de Christopher Nolan — e o que mais o intriga é ver multidões discutindo, em linguagem frequentemente grosseira, um mundo que praticamente desapareceu: aquele em que a poesia era o centro da vida civilizada.

Durante cerca de dois mil anos, quando a humanidade precisava comunicar algo verdadeiramente essencial, recorria à poesia. Ela não era adorno nem luxo, mas estava ligada à memória — pessoal e coletiva — sobre a qual se construíram religiões, reinos, impérios e revoluções. Os poemas homéricos não descreveram uma civilização: a criaram. Não foi em uma civilização pré-existente que a Ilíada e a Odisseia se formaram — foram elas que formaram sua própria civilização, aquela em que ser culto significava citar, imitar ou reinventar seus versos.

Quando Roma precisou de justificativa, Virgílio escreveu 'A Eneida'. Dante conduziu a Itália tardo-medieval ao Renascimento. Camões cristalizou uma ideia específica de Portugal como nação. No século XIX, as independências americanas tinham poetas; as revoltas europeias também. A poesia permaneceu como força civilizadora até bem dentro do século XX.

Mas as redes sociais não debatem 'A Odisseia' por amor à obra. Debatem porque fingem discutir a civilização ocidental — e desde Spengler, proclamar simultaneamente a superioridade e a decadência do Ocidente tornou-se combustível de projetos autoritários. A extrema direita que se indignou com uma tradutora mulher ou com atores não-brancos não quer saber de Homero: se quisesse, poderia começar perguntando se a Grécia Antiga sequer se considerava parte do Ocidente.

Poesia ainda existe. Mas não vivemos mais em uma civilização poética — ela não é decorada, não é declamada, não é proclamada como era. O que virá em seu lugar permanece uma questão aberta, e talvez seja essa incerteza o que mais deveria nos preocupar.

Há alguns anos acompanho as batalhas culturais que explodem nas redes sociais em torno de "A Odisseia" — a tradução para o inglês de Emily Wilson, o filme de Christopher Nolan — e o que mais me intriga é observar multidões discutindo, frequentemente em linguagem grosseira e superficial, um mundo que praticamente desapareceu: aquele em que a poesia era o centro da vida civilizada.

Durante aproximadamente dois mil anos, quando a humanidade precisava comunicar algo verdadeiramente essencial, recorria à poesia. Não era um adorno, não era luxo. A poesia era especificamente humana — os pássaros cantam, mas não fazem o que fazemos — porque estava ligada à memória, tanto pessoal quanto coletiva. Essa memória é o alicerce sobre o qual construímos religiões, cosmogonias, reinos, dinastias, estilos, estados, impérios e revoluções. Ao mesmo tempo, a poesia nos elevava para além de nós mesmos, para algo maior.

Mas as redes sociais não discutem "A Odisseia" por causa de "A Odisseia". Discutem porque fingem estar debatendo a civilização ocidental. E desde Oswald Spengler, proclamar simultaneamente a superioridade e a decadência do Ocidente tornou-se o combustível principal de projetos autoritários. Primeiro postula-se que existe um único tipo de Ocidente verdadeiro; depois, que ele está sob ameaça de inimigos identificáveis. As redes sociais da extrema direita anglo-saxônica que se rasgaram de indignação com uma tradução feita por uma mulher ou com atores não-brancos em uma adaptação cinematográfica não querem realmente saber nada sobre "A Odisseia". Se quisessem, poderiam começar questionando se a Grécia Antiga sequer se considerava parte do Ocidente — uma discussão legítima que poderia durar madrugadas. O que é indiscutível, porém, é que o mundo de Ulisses pertencia à Civilização Poética.

Os poemas homéricos não eram meramente descritores de uma civilização. Eram seus criadores. O mundo que Aquiles e Ulisses legaram não foi apenas um conjunto de alimentos compartilhados, roupas, hábitos e dialetos. Pouco a pouco, as pessoas começaram a compartilhar os próprios versos, personagens e histórias dos poemas. Não foi em uma civilização pré-existente que a Odisseia e a Ilíada se formaram — foram a Odisseia e a Ilíada que formaram sua própria civilização. Aquela em que ser civilizado significava citar os poemas, imitá-los ou roubar a ideia de criar algo semelhante.

Quando Roma precisou de justificativa, Virgílio escreveu "A Eneida". Dante e "A Divina Comédia" criaram a Itália tardo-medieval e a conduziram até o Renascimento. Portugal já existia antes de Camões, mas foi através de Camões que uma ideia específica dos "lusíadas" enquanto nação se cristalizou. E assim continuou. No século dezenove, as independências americanas tinham poetas e poesia. As revoltas europeias também. Durante o século vinte, a poesia permaneceu como força civilizadora.

E agora? Poesia ainda existe, é verdade. Mas não somos mais uma civilização da poesia. Ela não é decorada, não é declamada, não é proclamada como era. O que virá em seu lugar permanece uma questão aberta, e talvez seja essa incerteza o que mais deveria nos preocupar.

Foram a Odisseia e a Ilíada que formaram sua própria civilização, não o contrário
— Análise do colunista sobre o papel criador dos poemas homéricos
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