Por milênios, a poesia não foi ornamento, mas fundação: ela criou civilizações, consolidou identidades e transmitiu o que havia de mais essencial na experiência humana. Hoje, enquanto multidões debatem 'A Odisseia' nas redes sociais com fervor superficial, o que se revela não é amor pela obra, mas o rastro de um mundo que se foi — o da civilização poética. A questão que permanece, silenciosa e urgente, é o que ocupará esse lugar central que a poesia deixou vazio.
A civilização poética chegou ao fim, mas as redes sociais fingem discuti-la
A poesia não descrevia a civilização. A poesia a criava.
Por que você acha que as pessoas nas redes sociais se sentem tão compelidas a discutir "A Odisseia" agora, se a poesia já não é central em nossas vidas?
Porque "A Odisseia" virou um símbolo de algo que perdemos, mesmo que não saibamos bem o quê. É mais fácil brigar sobre uma tradução ou um elenco do que admitir que a própria civilização que criava significado através da poesia desapareceu.
Mas você está dizendo que os poemas homéricos não apenas refletiam a civilização grega, mas a criavam. Como exatamente um poema cria uma civilização?
Quando Virgílio escreveu "A Eneida", não estava descrevendo Roma — estava dizendo aos romanos quem eles eram, de onde vinham, por que importavam. O poema virou a verdade compartilhada. Séculos depois, Dante fez o mesmo para a Itália. Camões para Portugal. A poesia era o espelho e a bússola ao mesmo tempo.
Então o que substituiu a poesia nesse papel? O que cria identidade coletiva agora?
Essa é a pergunta que ninguém quer fazer. Talvez sejam as redes sociais, mas elas criam fragmentação, não unidade. Talvez seja o cinema, a música, a tecnologia. Mas nenhuma dessas coisas tem a mesma força de memória que a poesia tinha. Nenhuma delas nos eleva para além de nós mesmos da mesma forma.
Você acha que é possível voltar a uma civilização poética, ou isso é irreversível?
Irreversível, provavelmente. Mas talvez o mais importante seja reconhecer o que perdemos, em vez de fingir que ainda estamos discutindo "A Odisseia" por razões que importam.
The Pulse
- As guerras culturais em torno de 'A Odisseia' — a tradução de Emily Wilson, o filme de Nolan — expõem menos um debate literário do que a ansiedade de sociedades que perderam seu eixo simbólico.
- A extrema direita anglo-saxônica instrumentaliza Homero como bandeira civilizacional, mas raramente se pergunta se a Grécia Antiga sequer se reconhecia como 'Ocidente' — a pergunta honesta que ninguém quer fazer.
- Durante dois milênios, a poesia foi o meio pelo qual impérios se justificavam, nações se inventavam e gerações se reconheciam umas nas outras — de Virgílio a Camões, de Dante às independências americanas.
- Hoje a poesia existe, mas não é mais decorada, declamada nem proclamada como força coletiva; ela sobrevive à margem, enquanto o centro permanece vago e sem nome.
- A verdadeira inquietação não está nas batalhas ruidosas das redes, mas na pergunta que elas encobrem: o que, afinal, substituirá o papel civilizador que a poesia exerceu por tanto tempo?
Por milênios, a poesia não foi ornamento, mas fundação: ela criou civilizações, consolidou identidades e transmitiu o que havia de mais essencial na experiência humana. Hoje, enquanto multidões debatem 'A Odisseia' nas redes sociais com fervor superficial, o que se revela não é amor pela obra, mas o rastro de um mundo que se foi — o da civilização poética. A questão que permanece, silenciosa e urgente, é o que ocupará esse lugar central que a poesia deixou vazio.
Há anos, o colunista observa as batalhas culturais que explodem nas redes sociais em torno de 'A Odisseia' — a tradução de Emily Wilson, o filme de Christopher Nolan — e o que mais o intriga é ver multidões discutindo, em linguagem frequentemente grosseira, um mundo que praticamente desapareceu: aquele em que a poesia era o centro da vida civilizada.
Durante cerca de dois mil anos, quando a humanidade precisava comunicar algo verdadeiramente essencial, recorria à poesia. Ela não era adorno nem luxo, mas estava ligada à memória — pessoal e coletiva — sobre a qual se construíram religiões, reinos, impérios e revoluções. Os poemas homéricos não descreveram uma civilização: a criaram. Não foi em uma civilização pré-existente que a Ilíada e a Odisseia se formaram — foram elas que formaram sua própria civilização, aquela em que ser culto significava citar, imitar ou reinventar seus versos.
Quando Roma precisou de justificativa, Virgílio escreveu 'A Eneida'. Dante conduziu a Itália tardo-medieval ao Renascimento. Camões cristalizou uma ideia específica de Portugal como nação. No século XIX, as independências americanas tinham poetas; as revoltas europeias também. A poesia permaneceu como força civilizadora até bem dentro do século XX.
Mas as redes sociais não debatem 'A Odisseia' por amor à obra. Debatem porque fingem discutir a civilização ocidental — e desde Spengler, proclamar simultaneamente a superioridade e a decadência do Ocidente tornou-se combustível de projetos autoritários. A extrema direita que se indignou com uma tradutora mulher ou com atores não-brancos não quer saber de Homero: se quisesse, poderia começar perguntando se a Grécia Antiga sequer se considerava parte do Ocidente.
Poesia ainda existe. Mas não vivemos mais em uma civilização poética — ela não é decorada, não é declamada, não é proclamada como era. O que virá em seu lugar permanece uma questão aberta, e talvez seja essa incerteza o que mais deveria nos preocupar.
Há alguns anos acompanho as batalhas culturais que explodem nas redes sociais em torno de "A Odisseia" — a tradução para o inglês de Emily Wilson, o filme de Christopher Nolan — e o que mais me intriga é observar multidões discutindo, frequentemente em linguagem grosseira e superficial, um mundo que praticamente desapareceu: aquele em que a poesia era o centro da vida civilizada.
Durante aproximadamente dois mil anos, quando a humanidade precisava comunicar algo verdadeiramente essencial, recorria à poesia. Não era um adorno, não era luxo. A poesia era especificamente humana — os pássaros cantam, mas não fazem o que fazemos — porque estava ligada à memória, tanto pessoal quanto coletiva. Essa memória é o alicerce sobre o qual construímos religiões, cosmogonias, reinos, dinastias, estilos, estados, impérios e revoluções. Ao mesmo tempo, a poesia nos elevava para além de nós mesmos, para algo maior.
Mas as redes sociais não discutem "A Odisseia" por causa de "A Odisseia". Discutem porque fingem estar debatendo a civilização ocidental. E desde Oswald Spengler, proclamar simultaneamente a superioridade e a decadência do Ocidente tornou-se o combustível principal de projetos autoritários. Primeiro postula-se que existe um único tipo de Ocidente verdadeiro; depois, que ele está sob ameaça de inimigos identificáveis. As redes sociais da extrema direita anglo-saxônica que se rasgaram de indignação com uma tradução feita por uma mulher ou com atores não-brancos em uma adaptação cinematográfica não querem realmente saber nada sobre "A Odisseia". Se quisessem, poderiam começar questionando se a Grécia Antiga sequer se considerava parte do Ocidente — uma discussão legítima que poderia durar madrugadas. O que é indiscutível, porém, é que o mundo de Ulisses pertencia à Civilização Poética.
Os poemas homéricos não eram meramente descritores de uma civilização. Eram seus criadores. O mundo que Aquiles e Ulisses legaram não foi apenas um conjunto de alimentos compartilhados, roupas, hábitos e dialetos. Pouco a pouco, as pessoas começaram a compartilhar os próprios versos, personagens e histórias dos poemas. Não foi em uma civilização pré-existente que a Odisseia e a Ilíada se formaram — foram a Odisseia e a Ilíada que formaram sua própria civilização. Aquela em que ser civilizado significava citar os poemas, imitá-los ou roubar a ideia de criar algo semelhante.
Quando Roma precisou de justificativa, Virgílio escreveu "A Eneida". Dante e "A Divina Comédia" criaram a Itália tardo-medieval e a conduziram até o Renascimento. Portugal já existia antes de Camões, mas foi através de Camões que uma ideia específica dos "lusíadas" enquanto nação se cristalizou. E assim continuou. No século dezenove, as independências americanas tinham poetas e poesia. As revoltas europeias também. Durante o século vinte, a poesia permaneceu como força civilizadora.
E agora? Poesia ainda existe, é verdade. Mas não somos mais uma civilização da poesia. Ela não é decorada, não é declamada, não é proclamada como era. O que virá em seu lugar permanece uma questão aberta, e talvez seja essa incerteza o que mais deveria nos preocupar.
Notable Quotes
Foram a Odisseia e a Ilíada que formaram sua própria civilização, não o contrário— Análise do colunista sobre o papel criador dos poemas homéricos