Steinbruch deixa presidência da CSN; Schvartsman, ex-Vale, assume como CEO

A passagem de Schvartsman pela Vale ficou marcada pela tragédia de Brumadinho em janeiro de 2019, quando o rompimento de uma barragem deixou mais de 270 mortos e provocou graves danos ambientais.
Um executivo brilhante com capacidade de trabalho incomum
Steinbruch descreve Schvartsman, seu sucessor na CSN, apesar do processo criminal pendente sobre Brumadinho.
Mark

Por que Steinbruch sai agora, depois de 25 anos? Parece uma mudança abrupta.

Mimi

Ele diz que era planejado há três anos. Mas o timing coincide com a CSN precisando desalavancar — a dívida líquida subiu 18% em um ano. Talvez um novo CEO de fora traga mais disposição para vender ativos.

Luke

Mas Steinbruch é conhecido por não vender. Então por que confiar que Schvartsman vai fazer diferente?

Mimi

Porque Schvartsman não tem a mesma ligação emocional com os negócios. Steinbruch chamou a CSN Cimentos de "filho mais novo". É difícil desfazer-se de filhos.

Mark

E quanto ao elefante na sala — Schvartsman é réu em processo sobre Brumadinho?

Luke

Exatamente. Mais de 270 mortos. Ele é acusado de homicídio duplamente qualificado. Em 2024 a Justiça encerrou a ação contra ele, mas em abril deste ano o STJ voltou a implicá-lo entre os réus. Isso ainda está aberto.

Mimi

Steinbruch disse que confia nele, que é honesto e que provará sua inocência. Mas é uma aposta arriscada para uma companhia que já está sob pressão.

Mark

A filha Victoria não era candidata?

Mimi

Havia expectativa no mercado de que fosse. Ela trabalha nos negócios, assessora o pai, voltou ao conselho da CSN Mineração em abril. Mas Steinbruch escolheu alguém de fora.

Luke

Isso pode ser positivo — traz perspectiva nova. Ou pode ser sinal de que Victoria não estava pronta, ou que Steinbruch quer distância da sucessão familiar.

Mark

Qual é o tamanho dos ativos que precisam ser vendidos?

Mimi

A CSN Cimentos foi avaliada em R$ 12 bilhões. Eles querem vender entre 20% e 30% da infraestrutura. Ofertas vinculantes devem chegar esta semana.

Luke

Mas ofertas vinculantes não são venda fechada. E Steinbruch já cancelou vendas antes. Schvartsman vai conseguir levar isso adiante?

Mimi

Essa é a aposta. Que um CEO de fora, sem ligação emocional com os ativos, consiga fazer o que Steinbruch não fez.

  • A dívida líquida da CSN chegou a R$ 42,1 bilhões no segundo trimestre, alta de 18% em um ano, pressionando a empresa a desfazer-se de ativos que Steinbruch historicamente relutou em vender.
  • A escolha de Schvartsman surpreendeu o mercado, que esperava a ascensão de Victoria Steinbruch, filha do fundador, já inserida nas estruturas do grupo.
  • Schvartsman responde criminalmente por homicídio duplamente qualificado e crimes ambientais ligados ao rompimento da barragem de Brumadinho — condição processual reafirmada pelo STJ em agosto passado.
  • As ações da CSN subiram 4,18% na semana com expectativa de avanço na venda da divisão de cimentos, avaliada em R$ 12 bilhões, mas ainda acumulam queda de 31,26% no ano.
  • Steinbruch migra para a presidência do conselho com agenda pessoal clara: mais tempo com os cinco netos nascidos em 14 meses e uma aproximação com o agronegócio que abandonou décadas atrás.

Após quase 25 anos à frente da Companhia Siderúrgica Nacional, Benjamin Steinbruch passa o comando a Fabio Schvartsman — executivo experiente, mas cuja trajetória carrega o peso irreversível da tragédia de Brumadinho, que ceifou mais de 270 vidas em 2019. A transição, planejada em silêncio por anos, revela tanto a inevitabilidade da sucessão quanto a disposição da CSN de apostar em pragmatismo externo para enfrentar um endividamento crescente e uma agenda urgente de venda de ativos. É o momento em que uma era industrial se encerra e outra, ainda indefinida em seus contornos morais e financeiros, começa.

Benjamin Steinbruch, aos 73 anos, encerrou nesta semana sua passagem de quase um quarto de século como presidente executivo da Companhia Siderúrgica Nacional. Seu sucessor é Fabio Schvartsman, engenheiro formado pela Politécnica da USP com trajetória que inclui 22 anos no grupo Ultra, seis na Klabin e a presidência da Vale entre 2017 e 2019. É justamente esse último capítulo que torna a escolha controversa: Schvartsman é réu em processo criminal por homicídio duplamente qualificado e crimes ambientais relacionados ao rompimento da barragem de Brumadinho, em janeiro de 2019, que matou mais de 270 pessoas. Em agosto, o STJ indeferiu recurso da defesa para retirá-lo da lista de réus.

A transição, segundo Steinbruch, foi planejada há pelo menos três anos. Ele conversou com Schvartsman cinco meses antes do anúncio e o descreveu como uma das pessoas mais bem preparadas que conhece — honesto, franco e com capacidade de trabalho incomum. O mercado, no entanto, esperava outro desfecho: Victoria, filha de Steinbruch, já atuou como diretora adjunta da CSN e retornou ao conselho da CSN Mineração em abril. Seu irmão Felipe comanda a CSN Inova, braço de venture capital do grupo.

A mudança de liderança ocorre em momento crítico. A dívida líquida da companhia chegou a R$ 42,1 bilhões no segundo trimestre, com alavancagem de 3,49 vezes o Ebitda. A CSN aguarda ofertas vinculantes por fatia de 20% a 30% do negócio de infraestrutura e recebeu propostas em agosto pela divisão de cimentos, avaliada em R$ 12 bilhões. As ações subiram 4,18% na semana, mas ainda recuam 31,26% no ano. A expectativa do mercado é que Schvartsman, visto como mais pragmático, acelere negociações que Steinbruch historicamente postergou.

Ao deixar a presidência executiva, Steinbruch assume a presidência do conselho com foco em estratégia e novos negócios. Fora do grupo, quer se dedicar ao agronegócio — carreira que cogitou antes de migrar para a indústria — e estar mais presente para a família. Sobre o processo criminal do sucessor, afirmou ser solidário às famílias de Brumadinho e confiar que Schvartsman provará sua inocência.

Benjamin Steinbruch, aos 73 anos, deixou a presidência executiva da Companhia Siderúrgica Nacional nesta semana após quase um quarto de século no comando. Seu sucessor é Fabio Schvartsman, executivo que presidiu a Vale entre 2017 e 2019. A transição marca o fim de uma era na siderúrgica e o início de um capítulo marcado por incerteza no mercado — não apenas pela mudança de liderança, mas pela bagagem que Schvartsman carrega consigo.

A passagem de Schvartsman pela mineradora ficou indelevelmente ligada à tragédia de Brumadinho. Em janeiro de 2019, o rompimento de uma barragem em Minas Gerais matou mais de 270 pessoas e causou danos ambientais graves. Schvartsman é réu em processo criminal acusado de homicídio duplamente qualificado e crimes ambientais. Em agosto passado, o Superior Tribunal de Justiça indeferiu um recurso da defesa para removê-lo da lista de réus, reafirmando sua condição processual.

Antes de chegar à Vale, Schvartsman construiu carreira sólida. Engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP, passou 22 anos em cargos executivos no grupo Ultra, que atua em energia, infraestrutura logística e mobilidade. Depois dirigiu a Klabin, empresa de papel e celulose, por seis anos. Após deixar a Vale, integrou o conselho da Vibra, distribuidora de combustíveis.

Steinbruch afirma que a sucessão era planejada há pelo menos três anos. Conversou com Schvartsman cinco meses antes do anúncio e o considerou a pessoa indicada, citando sua experiência, vivência e consistência executiva. No entanto, a escolha surpreendeu o mercado. Havia expectativa de que Victoria, filha de Steinbruch, fosse preparada para suceder o pai. Ela já atuou como diretora adjunta da CSN, assessora seu pai nos negócios e retornou ao conselho de administração da CSN Mineração em abril. Seu irmão Felipe comanda o braço de venture capital do grupo, a CSN Inova.

A mudança de comando coincide com um momento crítico para a companhia. A CSN está em processo de desalavancagem através da venda de ativos. A empresa deve receber ainda esta semana ofertas vinculantes para uma fatia do negócio de infraestrutura — Steinbruch afirmou que as propostas devem surpreender em número e qualidade. O plano é vender entre 20% e 30% do segmento. Além disso, a CSN Cimentos recebeu propostas em agosto, seguindo o cronograma esperado. O negócio de cimento foi avaliado em R$ 12 bilhões. As ações da companhia subiram nesta semana com a expectativa de avanço da venda da divisão de cimentos, fechando a R$ 5,98 com alta de 4,18%, embora ainda recuem 31,26% no ano.

O endividamento da companhia é preocupante. No segundo trimestre, a dívida líquida chegou a R$ 42,1 bilhões, alta de 18% em um ano. A alavancagem, medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda, ficou em 3,49 vezes, ante 3,24 vezes no mesmo período de 2025. Analistas apontam indicadores operacionais positivos, mas flagelam o endividamento como principal ponto de atenção. Steinbruch é conhecido no mercado por relutância em desfazer-se de ativos e por cancelar vendas na última hora. A expectativa é que Schvartsman acelere as negociações.

Steinbruch avalia que sua saída será vista com surpresa, mas de forma positiva. Afirmou que a empresa passa por momento de mudança importante em seus negócios, rentabilidade, investimentos e liquidez, e que um executivo de fora do grupo traz visão mais pragmática. No conselho de administração, pretende dedicar-se à estratégia e desenvolvimento de novos negócios. Fora do grupo, quer trabalhar mais seriamente com agronegócio, carreira que pensava seguir antes de migrar para a indústria. Outro motivo para sua saída é estar mais próximo da família — teve cinco netos em 14 meses e deseja convivência mais calma do que teve com seus filhos.

Quanto ao processo criminal de Schvartsman, Steinbruch disse confiar no executivo, descrevendo-o como uma das pessoas mais bem preparadas que conhece, homem honesto, franco e correto, com capacidade de trabalho incomum. Afirmou também entender a dor de quem perdeu alguém em Brumadinho e ser solidário a todos eles, expressando certeza de que Schvartsman provará sua inocência. Em 2024, a Justiça havia encerrado a ação contra ele, mas em abril deste ano uma decisão do STJ voltou a implicá-lo entre os réus.

Tive a oportunidade de conversar com o Fabio há uns cinco meses e achei que era a pessoa indicada para assumir essa posição
— Benjamin Steinbruch, ex-presidente da CSN
É uma das pessoas mais bem preparadas que conheço, um homem honesto, franco e correto. Um executivo brilhante com uma capacidade de trabalho incomum
— Benjamin Steinbruch, sobre Fabio Schvartsman
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