Em dois meses, Portugal viveu uma das maiores ondas de contágio da pandemia — quase um milhão de infetados — e, no entanto, a mortalidade ficou muito aquém do que os números brutos sugeriam. A variante BA.5, mais transmissível, aliada ao fim da máscara obrigatória, reescreveu o ritmo da sexta vaga sem reescrever, na mesma proporção, o peso nos cemitérios. É a história de uma pandemia que mudou de rosto: mais ubíqua, menos letal por infeção, mas ainda capaz de pressionar hospitais e enlutear famílias.
Sexta vaga: quase um milhão de casos em dois meses, mas apenas 6% das mortes totais
Quase um milhão de casos, mas apenas 6% das mortes totais
Porque é que uma vaga com quase um milhão de casos representa apenas 6% das mortes totais? Isso não parece contraditório?
Não é contraditório — é o reflexo da vacinação e da imunidade acumulada. Estes quase um milhão de casos ocorreram numa população maioritariamente vacinada, enquanto os 23 mil óbitos totais incluem períodos em que não havia vacinas. A proteção não é perfeita, mas muda fundamentalmente a proporção entre infeções e mortes.
Mas em maio morreram 27,8 pessoas por dia. Isso não é um número elevado?
É elevado em termos absolutos, sim. Mas o ponto é que em maio de 2021, com menos infeções, morreram apenas 51 pessoas no mês inteiro. Agora temos 17 vezes mais mortes num mês com muito mais casos. A variante BA.5 é mais transmissível, mas menos letal — pelo menos para quem está vacinado.
E quanto aos 200 mil infetados que o matemático menciona? Isso significa que a vaga ainda tinha muito para correr?
Exatamente. Mesmo com o índice de transmissibilidade a descer, havia 200 mil pessoas ativas com o vírus. Os hospitais iam continuar sob pressão até meados de junho, mesmo que os novos casos começassem a cair. É o desfasamento entre infeções e consequências graves.
Os 30 milhões de horas de trabalho perdidas — como é que se mede isso?
São isolamentos obrigatórios e baixas médicas. Cada pessoa infetada que fica em casa, cada contacto próximo que se isola preventivamente, cada morte que deixa uma família de luto. Multiplica por 200 mil pessoas infetadas e vês o impacto económico real, não apenas nos números de saúde pública.
A BA.5 domina 87% das infeções. Isso significa que a BA.2 desapareceu?
Não desapareceu, mas perdeu competição. A BA.5 é mais transmissível, então naturalmente toma conta. É evolução viral — não é que a BA.2 seja perigosa, é que a BA.5 é mais eficiente em espalhar-se. Num mês ou dois, pode haver outra variante a fazer o mesmo.
El Pulso
- Em apenas dois meses, Portugal acumulou 21% de todas as infeções da pandemia, com maio a registar um aumento de 143% face a abril — uma aceleração que apanhou o país em modo de reabertura.
- A variante BA.5, responsável por 87% das infeções, e o fim da obrigatoriedade da máscara em abril criaram as condições para uma disseminação sem precedentes em velocidade.
- Os hospitais sentiram o peso: 1.842 internados e 99 doentes em cuidados intensivos a 23 de maio, com uma média de 27,8 mortes diárias ao longo do mês.
- O matemático Henrique Oliveira projeta uma queda acentuada de casos a partir de meados de junho, mas avisa que internamentos e óbitos permanecerão elevados até 25 de junho.
- O impacto estende-se à economia: estima-se a perda de 30 milhões de horas de trabalho devido a isolamentos e baixas médicas por covid-19.
Em dois meses, Portugal viveu uma das maiores ondas de contágio da pandemia — quase um milhão de infetados — e, no entanto, a mortalidade ficou muito aquém do que os números brutos sugeriam. A variante BA.5, mais transmissível, aliada ao fim da máscara obrigatória, reescreveu o ritmo da sexta vaga sem reescrever, na mesma proporção, o peso nos cemitérios. É a história de uma pandemia que mudou de rosto: mais ubíqua, menos letal por infeção, mas ainda capaz de pressionar hospitais e enlutear famílias.
Entre abril e maio de 2022, Portugal registou quase 990 mil casos confirmados de covid-19 — 21% de todas as infeções desde o início da pandemia. As 1.455 mortes no mesmo período, porém, representaram apenas 6% do total acumulado de óbitos, revelando uma vaga de contornos distintos das anteriores: massiva em contágios, mais contida em letalidade proporcional.
Maio foi o mês mais pesado. Os casos dispararam 143% face a abril, e as mortes subiram de 592 para 863. A pressão hospitalar acompanhou: a 23 de maio, 1.842 pessoas estavam internadas e 99 em cuidados intensivos. Dois fatores explicam a aceleração — o fim da obrigatoriedade do uso de máscara, decretado a 21 de abril, e a chegada da variante BA.5 da ómicron, mais transmissível que a BA.2, que passou a dominar 87% das infeções em poucas semanas.
O matemático Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico, descreveu o momento como um "planalto" com Rt de 0,96, antecipando uma queda acentuada de casos a partir de meados de junho. Ainda assim, alertou que internamentos e óbitos se manteriam elevados até 25 de junho, com cerca de 200 mil pessoas ainda infetadas. A vaga deixaria também marca na economia: 30 milhões de horas de trabalho perdidas por isolamentos e baixas médicas.
A comparação com maio de 2021 é elucidativa: nesse mês, com vacinação ainda incipiente, Portugal registou 12.600 casos e 51 mortes. Um ano depois, vários dias isolados superavam esse total mensal, e morreram 17 vezes mais pessoas. As autoridades de saúde recomendaram vigilância reforçada, proteção individual e vacinação de reforço, enquanto a contabilização passou a incluir reinfeções a partir de 18 de maio — sinal de que a imunidade prévia já não garantia proteção plena contra as novas variantes.
Em apenas dois meses, Portugal enfrentou uma explosão de contágios que redefiniria a trajetória da sexta vaga. Entre abril e maio de 2022, o país registou quase 990 mil casos confirmados de covid-19 — um número que, à primeira vista, parecia catastrófico. Mas os números revelam uma história mais matizada: esses quase um milhão de infeções representavam 21% de todas as infeções desde o início da pandemia, em março de 2020, enquanto as 1.455 mortes no mesmo período constituíram apenas 6% do total de óbitos acumulados.
O crescimento foi particularmente acentuado em maio. Nesse mês, Portugal registou 700.248 casos — um aumento de 143% em relação aos 288.059 confirmados em abril. As mortes também subiram: 592 pessoas morreram em abril, uma média de 19,7 óbitos diários, enquanto maio trouxe 863 mortes, elevando a média para 27,8 por dia. A pressão nos hospitais acompanhou essa trajetória, com 1.842 internados e 99 doentes em cuidados intensivos a 23 de maio.
Os especialistas apontam duas causas principais para essa aceleração. A primeira foi o fim da obrigatoriedade generalizada do uso de máscara, decretado a 21 de abril, numa altura em que a incidência estava nos 556 casos por 100 mil habitantes. A segunda foi o surgimento e rápida disseminação da variante BA.5 da ómicron, detetada entre o final de março e o início de abril. Com uma capacidade de transmissão superior à sua antecessora BA.2, a BA.5 conquistou terreno rapidamente: na semana em que este relatório foi publicado, era responsável por cerca de 87% das infeções confirmadas no país, segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.
Henrique Oliveira, matemático do Instituto Superior Técnico e membro do grupo de trabalho de acompanhamento da pandemia, ofereceu uma perspetiva sobre o que viria a seguir. Com um índice de transmissibilidade (Rt) de 0,96, Portugal estava numa "situação de planalto" que se manteria ao longo daquela semana, mas Oliveira projetava uma "queda acentuada de casos a partir de meados de junho". No entanto, alertou que apesar dessa redução esperada, os internamentos em enfermaria e cuidados intensivos, bem como os óbitos, permaneceriam elevados até 25 de junho, uma vez que o país tinha aproximadamente 200 mil pessoas infetadas naquele momento. A sexta vaga também deixaria marcas económicas: Oliveira estimou que os isolamentos e as baixas médicas por covid-19 resultariam na perda de 30 milhões de horas de trabalho em Portugal.
A comparação com maio de 2021 sublinha a mudança no padrão da pandemia. Um ano antes, com apenas cerca de dois milhões de pessoas com vacinação completa, Portugal havia registado 12.600 contágios e 51 mortes em todo o mês. Em maio de 2022, a maioria dos dias isoladamente apresentava mais casos do que o total do mês anterior, e morreram 17 vezes mais pessoas. A pressão hospitalar também era incomparavelmente maior: a 23 de maio de 2022, havia 1.842 internados contra 220 no mesmo dia de 2021.
Apesar do índice de transmissibilidade a baixar, a Direção-Geral da Saúde e o INSA emitiram um alerta na última sexta-feira antes da publicação deste relatório. A epidemia mantinha uma incidência muito elevada, com tendência crescente, e era expectável um aumento da procura de cuidados de saúde e da mortalidade, especialmente entre os grupos mais vulneráveis. As autoridades recomendaram fortemente a manutenção da vigilância epidemiológica, o reforço das medidas de proteção individual e a vacinação de reforço. A partir de 18 de maio, a contabilização passou a incluir as reinfeções, atualizando retrospetivamente os números acumulados — uma mudança que refletia a realidade de uma população onde a imunidade anterior não oferecia proteção completa contra as novas variantes.
Citas Notables
Portugal está numa situação de planalto que se deve manter ao longo desta semana, sendo expectável uma queda acentuada de casos a partir de meados de junho— Henrique Oliveira, matemático do Instituto Superior Técnico
Os internamentos em enfermaria e cuidados intensivos e os óbitos vão manter-se elevados até 25 de junho— Henrique Oliveira, Instituto Superior Técnico