Em julho de 2021, o Piauí ergueu sua voz contra um silêncio perigoso: o das hepatites virais, doenças que atacam o fígado sem avisar. A Secretaria de Saúde do Estado lançou a campanha 'Julho Amarelo' num momento em que a pandemia de COVID-19 havia reduzido em mais de 40% a procura por testes, deixando milhares de portadores sem diagnóstico e sem tratamento. É o paradoxo das crises sobrepostas — enquanto o mundo se concentrava num vírus visível, outros, mais silenciosos, continuavam seu trabalho às escondidas.
Sesapi lança campanha 'Julho Amarelo' para alertar sobre hepatites virais
Sem saber que estão doentes, continuam transmitindo
Por que a pandemia afetou tanto a testagem de hepatites se elas não são transmitidas pelo coronavírus?
O isolamento social fez as pessoas evitarem unidades de saúde. Muitos centros de testagem funcionaram com redução de capacidade. E a atenção — da mídia, dos gestores, das pessoas — virou completamente para COVID. Hepatite é silenciosa; COVID era barulhenta.
Se a hepatite A é transmitida por água contaminada, por que não é mais comum em cidades com saneamento?
Exatamente por isso. Hepatite A está ligada a más condições de higiene. Em lugares com saneamento básico adequado, ela é rara. As que preocupam mais agora são B e C, que não têm a ver com saneamento — têm a ver com contato com sangue ou relações sexuais.
A hepatite C tem cura com eficácia de 100%, mas hepatite B não. Por que a diferença?
São vírus diferentes. O C, quando tratado cedo, o medicamento consegue eliminar completamente. O B é mais persistente — quando vira crônico, geralmente fica. Mas os medicamentos modernos conseguem controlar, impedir que destrua o fígado.
Se alguém tem mais de 40 anos e nunca fez o teste, o que deveria fazer?
Procurar um Centro de Testagem e Aconselhamento. Para B e C, não precisa de receita médica. É simples, rápido. Se der positivo, há tratamento. Se der negativo, a pessoa fica tranquila. O problema é quando ninguém sabe que está doente.
A queda de 40% em testes durante a pandemia — isso significa 40% menos pessoas diagnosticadas ou 40% menos testes realizados?
Menos testes realizados. O que significa que muitas pessoas que poderiam ter sido diagnosticadas não foram. Estão circulando, potencialmente transmitindo, sem saber que têm a doença.
The Pulse
- A pandemia desviou olhares e esvaziou unidades de saúde, fazendo cair mais de 40% os testes de hepatites e quase 50% os novos tratamentos iniciados no Piauí.
- Sem diagnóstico, portadores continuam transmitindo os vírus sem saber — e o risco de cirrose e câncer de fígado cresce silenciosamente nos anos seguintes.
- Cinco tipos de hepatites virais circulam por caminhos distintos — água contaminada, sexo desprotegido, sangue sem esterilização — mas todas compartilham a mesma ausência de sintomas iniciais.
- A boa notícia existe: hepatites A e B têm vacinas, e a hepatite C tem cura com eficácia próxima a 100% nos tratamentos disponíveis.
- A campanha 'Julho Amarelo' convoca especialmente maiores de 40 anos a se testarem, com acesso gratuito nos Centros de Testagem e Aconselhamento do estado, sem necessidade de requisição médica para hepatites B e C.
Em julho de 2021, o Piauí ergueu sua voz contra um silêncio perigoso: o das hepatites virais, doenças que atacam o fígado sem avisar. A Secretaria de Saúde do Estado lançou a campanha 'Julho Amarelo' num momento em que a pandemia de COVID-19 havia reduzido em mais de 40% a procura por testes, deixando milhares de portadores sem diagnóstico e sem tratamento. É o paradoxo das crises sobrepostas — enquanto o mundo se concentrava num vírus visível, outros, mais silenciosos, continuavam seu trabalho às escondidas.
O fígado trabalha em silêncio — e quando cinco vírus diferentes decidem atacá-lo, raramente avisam. Foi para romper esse silêncio que a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí lançou, em julho de 2021, a campanha 'Julho Amarelo', convocando a população a se testar para hepatites virais.
O momento era urgente. A pandemia de COVID-19 havia provocado uma queda de mais de 40% na procura por testes de hepatites e de quase 50% no número de pessoas iniciando tratamento. Para Amélia Costa, coordenadora de Epidemiologia da Sesapi, o problema era grave: quem não sabe que é portador continua transmitindo, e quem não recebe tratamento corre risco crescente de cirrose e câncer de fígado nos anos seguintes.
As hepatites não são todas iguais. A tipo A se transmite por água e alimentos contaminados. As mais preocupantes, B e C, chegam por relações sexuais desprotegidas ou por contato com sangue sem esterilização adequada — e podem se tornar infecções crônicas, permanecendo invisíveis por anos. Já as hepatites D e E completam o grupo dos cinco vírus, cada um com sua própria rota de entrada.
Há, porém, ferramentas disponíveis. Vacinas protegem contra A e B. Para a hepatite C, não há imunizante, mas os tratamentos existentes chegam a quase 100% de eficácia na cura. Para a B crônica, medicamentos conseguem inibir o vírus e reduzir complicações graves. O desafio permanece o mesmo: encontrar quem está doente antes que o dano se instale.
Nos Centros de Testagem e Aconselhamento do Piauí, qualquer pessoa pode acessar testes para hepatites B e C sem precisar de requisição médica. A recomendação da coordenadora era direta: todo indivíduo acima de 40 anos deveria se testar ao menos uma vez. A campanha era, no fundo, um pedido para que a hepatite viral não se tornasse o problema invisível de uma época em que o mundo já tinha olhos demais voltados para outro lado.
O fígado é um órgão que trabalha em silêncio. Quando algo dá errado, muitas vezes a pessoa não sabe. Cinco vírus diferentes — A, B, C, D e E — podem atacá-lo, cada um por um caminho distinto, mas todos com a mesma característica perturbadora: não avisam que estão lá. A Secretaria de Estado da Saúde do Piauí lançou em julho de 2021 a campanha "Julho Amarelo" justamente para quebrar esse silêncio, alertando a população sobre a necessidade de se testar para hepatites virais.
O timing da campanha não era casual. A pandemia de COVID-19 havia provocado isolamento social em todo o país, e com isso veio uma consequência pouco discutida: a procura por testes de hepatites caiu mais de 40% nas unidades de saúde. O número de pessoas iniciando tratamento despencou quase 50%. Amélia Costa, coordenadora de Epidemiologia da Sesapi, explicava na época que essa redução era preocupante porque muitas pessoas não sabem que são portadoras. Sem saber, continuam transmitindo. Sem diagnóstico, não recebem tratamento. E sem tratamento, o risco de cirrose e câncer de fígado aumenta nos anos seguintes.
As hepatites virais não são todas iguais. A hepatite A é a mais conhecida — transmitida por água ou alimentos contaminados com fezes de uma pessoa infectada, está ligada a más condições de higiene e saneamento. As mais graves são B e C, que podem ser transmitidas por relações sexuais desprotegidas ou por procedimentos envolvendo sangue sem esterilização adequada. Ambas podem virar infecções crônicas, permanecendo silenciosas por anos.
O que torna a situação um pouco menos desesperadora é que existem ferramentas. Para hepatite A e B há vacinas. Para C não há imunizante, mas há cura — os tratamentos disponíveis têm eficácia próxima a 100%. Para hepatite B crônica, a cura é rara, mas os medicamentos conseguem inibir a replicação do vírus, reduzindo as chances de complicações graves. O desafio, porém, é encontrar quem está doente.
Nos Centros de Testagem e Aconselhamento espalhados pelo Piauí, a população pode acessar testes para hepatites B e C sem necessidade de requisição médica. Para os outros tipos, é preciso passar por um médico. A recomendação de Costa era clara: todo indivíduo acima de 40 anos deveria fazer o teste ao menos uma vez na vida. Qualquer incômodo no fígado era motivo para procurar um médico e pedir investigação.
O que preocupava os epidemiologistas era simples de enunciar mas difícil de resolver: sem testagem, não há detecção. Sem detecção, não há tratamento. E sem tratamento, durante uma pandemia que desviou a atenção de outras doenças, o número de pessoas desenvolvendo complicações silenciosamente aumentava. A campanha "Julho Amarelo" era um chamado para não deixar que a hepatite viral virasse um problema invisível enquanto o mundo olhava para outro lado.
Notable Quotes
A falta de testagem, mesmo durante a pandemia, pode elevar o número de casos de cirrose e de câncer de fígado nos próximos anos— Amélia Costa, coordenadora de Epidemiologia da Sesapi
Hoje possuímos medicamentos altamente eficazes, seja na cura ou controle dos vírus, e o desafio é encontrar esses portadores para que sejam tratados— Amélia Costa, coordenadora de Epidemiologia da Sesapi