Selton Mello se emociona ao receber Kikito de Cristal em Gramado

Selton Mello perdeu seus pais em 2024, sendo sua mãe vítima de complicações do Alzheimer.
Cinema guarda memórias, e prêmios são continuidade
Selton Mello reflete sobre o significado de ser reconhecido na ausência de seus pais.
Mark

Por que você acha que a ausência dos pais neste momento específico o afetou tanto?

Mimi

Porque prêmios são marcos. São momentos em que você olha para trás e vê quem estava com você. Meus pais viram tudo — os fracassos, os primeiros papéis, o sonho de fazer cinema. Receber isso sem eles é receber uma coisa incompleta.

Mark

Você mencionou que ganhar um prêmio é continuidade, não algo pessoal. O que você quis dizer?

Mimi

Que nenhum ator chega sozinho a lugar nenhum. Há gerações de artistas antes de você, mestres que você aprendeu observando. Quando você ganha, está reconhecendo tudo aquilo que veio antes. É por isso que homenagear Paulo José, Luiz Carlos Barreto — isso importa.

Mark

E a crítica sobre a profissão privilegiar o novo?

Mimi

É uma profissão que esquece rápido. Você faz um filme importante, e no ano seguinte ninguém quer saber. A indústria sempre quer o rosto novo, o nome novo. Mas cinema é memória. Deveria ser um lugar onde a continuidade importasse mais.

Mark

"O Palhaço" parece ser diferente para você.

Mimi

É o filme onde coloquei mais de mim mesmo. Quando você abre um festival com algo assim, você está dizendo: isto é o que eu sou, isto é o que eu acredito. Não é um papel. É você na tela.

Mark

Você voltou a Gramado muitas vezes desde 1990?

Mimi

Sim, mas desta vez era diferente. Não era só voltar. Era ser reconhecido aqui, neste lugar que significa tanto para o cinema que eu amo. E estar sozinho nesse reconhecimento — isso muda tudo.

  • Pela primeira vez em sua carreira, Selton Mello subiu a um palco de premiação sem que seus pais estivessem vivos para vê-lo — uma ausência que ele não conseguiu conter durante o discurso.
  • A morte de Dalton e Selva em 2024, incluindo a mãe vítima de complicações do Alzheimer, transformou um momento de celebração em luto público e confissão íntima.
  • Mello conectou sua dor pessoal à morte recente de Laura Cardoso e Glória Menezes, ampliando o luto individual para uma reflexão sobre o apagamento sistemático de quem já construiu o cinema brasileiro.
  • Com crítica direta, o ator denunciou uma indústria que privilegia sempre o novo em detrimento da continuidade, defendendo a memória como ato político e não apenas sentimental.
  • O Kikito de Cristal chega como reconhecimento de uma trajetória que inclui 'O Palhaço', filme com o qual abriu o próprio Festival de Gramado em 2011 e que considera seu trabalho mais pessoal até hoje.

No palco do Palácio dos Festivais em Gramado, Selton Mello recebeu o Kikito de Cristal carregando uma ausência que nenhum troféu pode preencher: pela primeira vez, seus pais não estavam na plateia para testemunhar o reconhecimento, ambos falecidos em 2024. O ator transformou o luto em reflexão, lembrando que o cinema existe precisamente para guardar o que o tempo insiste em levar — memórias, rostos, gerações inteiras de artistas. Num gesto que vai além da celebração individual, Mello situou o prêmio não como conquista pessoal, mas como elo numa corrente maior que atravessa o tempo e as pessoas que nos formaram.

Na quarta-feira à noite, Selton Mello subiu ao palco do Palácio dos Festivais em Gramado para receber o Kikito de Cristal — e não conseguiu conter a emoção. Era a primeira vez que recebia um prêmio sem seus pais na plateia. Dalton e Selva morreram em 2024; a mãe, vítima de complicações do Alzheimer. "Cinema guarda memórias", disse ele, conectando a essência da profissão à ausência daqueles que o formaram.

Mello não ficou apenas no luto pessoal. Observou que o prêmio chegou num momento marcado também pela morte de duas atrizes que admirava profundamente, Laura Cardoso e Glória Menezes, e afirmou que ganhar um reconhecimento não é um ato individual — é continuidade. Cada prêmio, para ele, é um elo numa corrente que atravessa gerações de artistas.

No discurso, homenageou nomes que marcaram sua formação, como Paulo José e Luiz Carlos Barreto, e fez uma crítica direta: a profissão de ator é cruel, sempre inclinada a privilegiar o novo em detrimento do que já foi construído. Lembrar dos que vieram antes, disse, é um ato político.

Essa perspectiva vem de alguém que viveu a transição entre gerações do cinema brasileiro. Nos anos 1990, Mello chegou a Gramado ainda fazendo televisão e sonhando com filmes. Em 2011, abriu o próprio festival com 'O Palhaço', o trabalho que considera até hoje o mais pessoal de sua carreira. O Kikito de Cristal recebido agora é, portanto, mais que um troféu — é o reconhecimento de uma trajetória inteira, recebido na ausência de quem o conheceu desde antes de ser ator.

Na noite de quarta-feira, Selton Mello subiu ao palco do Palácio dos Festivais em Gramado para receber o Kikito de Cristal, uma das principais honrarias do festival. O momento, porém, carregava um peso que o ator não conseguiu conter. Pela primeira vez em sua carreira, ele recebia um prêmio sem seus pais na plateia para testemunhar o reconhecimento.

Dalton e Selva, seus pais, morreram em 2024. A mãe sucumbiu a complicações do Alzheimer, uma perda que Mello trouxe à tona durante seu discurso no palco. "Cinema guarda memórias", disse ele, conectando a natureza da profissão que o define à ausência daqueles que o formaram. A emoção não era apenas pessoal — era também uma reflexão sobre o que significa criar e ser reconhecido quando aqueles que nos conhecem desde o início já não estão lá.

Mas Mello transformou o luto em perspectiva. Ele observou que o timing do prêmio coincidiu com a morte recente de duas atrizes que admirava profundamente: Laura Cardoso e Glória Menezes. "Ganhar um prêmio não é pessoal, é continuidade", afirmou, sugerindo que cada reconhecimento é menos sobre o indivíduo e mais sobre a corrente que se estende através do tempo e das gerações de artistas.

Durante o discurso, Mello homenageou nomes que marcaram sua formação — Paulo José, Luiz Carlos Barreto, entre outros diretores, atores e produtores que ele admira. Lembrar desses profissionais, disse ele, é um ato político. Sua crítica foi direta: a profissão de ator é cruel, sempre inclinada a privilegiar o novo em detrimento da continuidade, da memória, daquilo que já foi construído.

Essa perspectiva vem de alguém que viveu a transição entre gerações do cinema brasileiro. Nos anos 1990, quando Mello veio a Gramado pela primeira vez, ainda fazia televisão e sonhava em trabalhar em filmes. "Minha turma é do cinema. É onde eu gosto de estar", disse, marcando sua lealdade a um meio que o moldou. Quinze anos depois, em 2011, ele abriria o próprio Festival de Gramado com "O Palhaço", um filme que ele considera até hoje seu trabalho mais pessoal — aquele em que colocou mais de si mesmo na tela.

O Kikito de Cristal que recebeu na quarta-feira é, portanto, mais que um troféu. É um reconhecimento de uma trajetória construída dentro de um cinema que valoriza a continuidade, mesmo quando a indústria insiste em olhar apenas para frente. E é também um prêmio recebido na ausência daqueles que o conheceram desde antes de ser ator, transformando o momento em algo que transcende a celebração pessoal.

Cinema guarda memórias
— Selton Mello, ao receber o prêmio
Ganhar um prêmio não é pessoal, é continuidade
— Selton Mello
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