Quando uma potência autoritária avança sobre um país soberano enquanto o mundo hesita, a história não está apenas a ser observada — está a ser repetida. Em 2022, a invasão russa da Ucrânia evoca com perturbadora precisão os passos que levaram à Segunda Guerra Mundial: a indiferença das democracias perante um ditador que avança, território a território, convicto de que a fraqueza alheia é o seu maior aliado. A questão que se coloca não é apenas o destino da Ucrânia, mas a capacidade do mundo livre de aprender com os seus próprios erros antes que o custo se torne, uma vez mais, incalculável.
Salvar a Ucrânia é salvar o mundo livre
Um ditador só acredita na violência, não no diálogo
Porque é que o autor compara Putin a Hitler? Não são contextos completamente diferentes?
O paralelo não é sobre as personalidades, mas sobre o padrão: um ditador que testa os limites, vê que não há resposta efetiva, e continua. Hitler começou pequeno, com a Áustria. Ninguém fez nada. Depois foi mais longe. E mais longe ainda.
Mas o autor está a dizer que as sanções não funcionam. Isso é verdade? A Alemanha nazi tinha acesso a recursos dos territórios ocupados, mas a Rússia de hoje está muito mais isolada economicamente.
É um ponto justo. As sanções de hoje são mais abrangentes. Mas o argumento é que sanções sozinhas não detêm um ditador que está disposto a sofrer economicamente para expandir o seu poder.
E se a Ucrânia cair? O autor diz que vêm os Bálticos, a Moldávia, a Roménia. Mas esses países têm defesas diferentes, não têm?
Sim, alguns são membros da NATO. Isso muda completamente o cálculo. O autor não aborda isso claramente.
Verdade. Mas o ponto subjacente é que a inação tem consequências. Se o mundo permitir que um ditador conquiste um país sem custos significativos, ele aprende que pode continuar.
O poema do Eduardo Alves da Costa é poderoso. Mas é também uma profecia ou um aviso?
É um aviso. O autor está a dizer: isto já aconteceu antes, e nós não aprendemos. Se não agirmos agora, pagaremos um preço muito mais alto depois.
O que significa "agir"? O autor não é específico. Intervenção militar? Mais armas? Até onde vai a responsabilidade do Ocidente?
El Pulso
- A invasão russa da Ucrânia não é um evento isolado — é o elo mais recente de uma cadeia expansionista que, segundo os paralelos históricos, não se interrompe por si mesma.
- As sanções económicas ocidentais, embora significativas, reproduzem a lógica das respostas diplomáticas de 1938: suficientes para sinalizar desconforto, insuficientes para travar um regime disposto a saquear o que lhe falta.
- A condenação quase unânime da ONU ressoa vazia enquanto Putin, como Estaline antes dele, pergunta quantas divisões têm as instituições internacionais.
- Se a Ucrânia cair sem resistência efetiva, os países Bálticos, a Moldávia e a Roménia surgem como próximos alvos num dominó que o Ocidente já viu cair uma vez — e que custou cinquenta milhões de vidas.
- O poema de Eduardo Alves da Costa paira sobre o argumento como um aviso: o silêncio perante cada pequena violação prepara o terreno para a violação que já não pode ser contestada.
Quando uma potência autoritária avança sobre um país soberano enquanto o mundo hesita, a história não está apenas a ser observada — está a ser repetida. Em 2022, a invasão russa da Ucrânia evoca com perturbadora precisão os passos que levaram à Segunda Guerra Mundial: a indiferença das democracias perante um ditador que avança, território a território, convicto de que a fraqueza alheia é o seu maior aliado. A questão que se coloca não é apenas o destino da Ucrânia, mas a capacidade do mundo livre de aprender com os seus próprios erros antes que o custo se torne, uma vez mais, incalculável.
A história oferece lições que o mundo parece determinado a ignorar. Entre 1938 e 1939, Hitler anexou a Áustria, ocupou os Sudetos e invadiu a Polónia enquanto as potências europeias respondiam com diplomacia e esperança de que o ditador se contentasse. Não se contentou. Quando a guerra terminou, cinquenta milhões de pessoas estavam mortas.
Hoje, a invasão russa da Ucrânia replica essa geometria com inquietante fidelidade. Putin avançou não porque existia uma ameaça real — não havia exércitos ucranianos a mobilizar-se, não havia armas da NATO no território — mas porque acreditou ter esse direito e porque calculou que a resposta ocidental seria insuficiente para o deter.
As sanções económicas aplicadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia são um instrumento real, mas limitado. A Alemanha nazi também enfrentou boicotes internacionais e respondeu saqueando os territórios que ocupava. A condenação da ONU, por mais ampla que seja, não substitui divisões militares — e um ditador que governa o seu próprio povo pelo medo sabe disso melhor do que ninguém.
O argumento central é simples e sombrio: se a Ucrânia cair sem uma resposta internacional efetiva, o dominó seguinte já tem nome — os Bálticos, a Moldávia, a Roménia. O mundo livre abandonou a Polónia em 1939 e pagou um preço devastador. Está, segundo este olhar, a repetir o mesmo erro.
Um poema de Eduardo Alves da Costa encerra o raciocínio: o roubo começa por uma flor, avança para o cão, e termina quando nos arrancam a voz da garganta — e já não podemos dizer nada. A história, adverte o artigo, nem sempre se repete como farsa. Muitas vezes regressa como tragédia.
A história oferece uma lição que o mundo parece condenado a repetir. Em Março de 1938, Hitler anexou a Áustria enquanto as potências europeias observavam em silêncio. Seis meses depois, ocupou os Sudetos, território checoslovaco. No primeiro dia de Setembro de 1939, invadiu a Polónia. A Inglaterra e a França, apesar de terem acordos que as obrigavam a defender a Polónia pela força, preferiram acreditar que o ditador se contentaria e limitaram-se a respostas diplomáticas. Essa hesitação custou caro: Hitler conquistou a Dinamarca, a Noruega, a Hungria, a Holanda, a Bélgica, a Grécia, a Lituânia, a Letónia, o Luxemburgo, a Estónia, a Roménia, a Ucrânia e muitos outros territórios. A França capitulou em Setembro de 1939. Quando tudo terminou, cinquenta milhões de pessoas estavam mortas.
Hoje, ouve-se dizer que isso não pode voltar a acontecer. Mas aconteceu há pouco mais de setenta anos, numa época em que a Alemanha era considerada um dos países mais civilizados do mundo. Ainda existem testemunhas vivas daquele período. A questão que se coloca agora é simples: o que sabemos realmente sobre Putin e sobre as pessoas que o rodeiam? Um ditador que controla o seu próprio povo com mão de ferro não hesita em relação aos outros povos. Para ele, apenas o poder e a expansão do seu império importam. Invadiu a Ucrânia porque acreditou que tinha esse direito, criando falsas narrativas sobre ameaças inexistentes à soberania russa. Não havia exército ucraniano a preparar-se, não havia armas da NATO no território. Invadiu porque quis.
As sanções económicas que os Estados Unidos e a União Europeia aplicaram ajudam, mas não salvam a Ucrânia nem impedem a Rússia de prosseguir com os seus planos expansionistas. A Alemanha nazi também sofreu boicotes internacionais, mas simplesmente saqueou os territórios ocupados para obter o que lhe faltava: aço, petróleo, alimentos, até mesmo mão-de-obra escravizada. Quase todos os países da ONU condenaram a invasão russa, mas Putin pode ter feito a mesma pergunta que Estaline fez a Pierre Laval quando este ofereceu o apoio do Papa: quantas divisões tem a ONU?
Se a Ucrânia cair sem uma resposta internacional efetiva, o que virá a seguir é previsível. Os países Bálticos estarão na mira. Depois a Moldávia, a Roménia, a Hungria. O dominó começará a cair. O mundo livre abandonou a Polónia em 1939 e pagou um preço elevado por isso. Agora, está a repetir o mesmo erro com a Ucrânia. Um ditador que acredita apenas na violência e não no diálogo, que controla o seu próprio povo através do medo, não se contentará com uma única conquista. Continuará a inventar mentiras para justificar a sua expansão, trazendo a Rússia de volta aos tempos dos czares ou da União Soviética.
O poeta Eduardo Alves da Costa captou esta dinâmica de forma perturbadora: na primeira noite, roubam uma flor do jardim e nada se diz. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o cão, e ainda assim nada se diz. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em casa, rouba a luz, e conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E então já não podemos dizer nada. A história repete-se. Nem sempre como farsa. Muitas vezes como tragédia.
Citas Notables
Um ditador que controla o seu próprio povo com mão de ferro não tem o menor escrúpulo para com os outros povos— Artigo de opinião
A História repete-se, nem sempre como farsa, muitas vezes como tragédia— Artigo de opinião