Moscovo testou míssil de combustível sólido lançado do Cosmódromo de Plesetsk, viajando 6 mil quilómetros até atingir alvo em Kamchatka. Porta-voz do Kremlin declarou que processo de negociações promovidas por Washington está suspenso e acusou liderança ucraniana de rejeitar discussão pacífica.
Rússia testa míssil intercontinental enquanto admite negociações de paz com Ucrânia "completamente paradas"
As negociações estão completamente paradas, sem novas ideias
Porque é que a Rússia testa um míssil intercontinental precisamente no dia em que admite que as negociações estão paradas? Parece uma mensagem.
Sim, é uma mensagem — mas não necessariamente uma de ruptura iminente. O teste foi notificado aos EUA com 24 horas de antecedência, o que é protocolo. O que é significativo é o timing político: Moscovo está a dizer que não há caminho diplomático e que vai prosseguir com a sua estratégia militar.
Mas cuidado — o porta-voz Peskov disse que as negociações estão "paradas", não que foram encerradas. E a Rússia continua a dizer que tem condições para a paz. Isso não é o mesmo que dizer que quer guerra indefinida.
Verdade. Peskov acusou Kiev de rejeitar a discussão pacífica. Mas também reivindicou avanços militares, o que sugere que Moscovo está confortável com a situação atual no terreno.
E quanto à visita do diretor da CIA? Isso muda algo?
A visita é real, mas o significado é disputado. Trump disse que era "quase de rotina" e relacionada com a Ucrânia. Mas não sabemos exatamente o que foi discutido ou se houve qualquer acordo.
O que sabemos é que o Kremlin negou ter planos para atacar a NATO. Tajani, da Itália, também não acredita que Putin vá fazer isso. Mas ambos advertem contra subestimar Moscovo — particularmente em ataques cibernéticos.
Então o teste do míssil é apenas rotina militar?
Não é apenas rotina. Putin anunciou há um ano um reforço nuclear. Este teste é parte dessa estratégia. Mas não é necessariamente um sinal de que está prestes a atacar a NATO.
O que é novo é o compromisso do Ocidente em aprofundar o apoio militar a Kiev — defesas aéreas, tecnologia de mísseis. Isso é uma resposta clara ao que Moscovo está a fazer.
Portanto, estamos a ver uma escalada militar de ambos os lados, mas sem negociações?
Exatamente. As negociações estão paradas. Ambos os lados estão a reforçar as suas posições militares. O que vem a seguir depende de decisões políticas que ainda não foram tomadas.
Le Pouls
- Míssil balístico lançado de Plesetsk, viajou 6 mil quilómetros até Kamchatka
- Porta-voz Peskov: negociações promovidas por Washington estão suspensas
- Coligação de 30 países comprometida com reforço de defesas aéreas ucranianas
- Reino Unido anuncia partilha de tecnologia para fabricação de mísseis Storm Shadow
Moscovo testou míssil de combustível sólido lançado do Cosmódromo de Plesetsk, viajando 6 mil quilómetros até atingir alvo em Kamchatka. Porta-voz do Kremlin declarou que processo de negociações promovidas por Washington está suspenso e acusou liderança ucraniana de rejeitar discussão pacífica.
Rússia testou míssil balístico intercontinental enquanto o Kremlin reconhece que as negociações de paz com a Ucrânia estão completamente paralisadas, sem novas ideias para resolver o conflito.
A Rússia lançou um míssil balístico intercontinental nesta sexta-feira, confirmou o Ministério da Defesa de Moscovo, no mesmo dia em que o porta-voz do Kremlin declarou que as negociações de paz com a Ucrânia estão completamente paralisadas. O projétil de combustível sólido foi disparado do Cosmódromo de Plesetsk, no noroeste russo, e percorreu aproximadamente seis mil quilómetros até atingir o alvo no campo de testes de Kura, na península de Kamchatka, no Oceano Pacífico. O teste visava verificar as características táticas, técnicas e de voo do míssil, e Moscovo notificou os Estados Unidos com mais de 24 horas de antecedência.
O timing do lançamento coincide com uma declaração do porta-voz presidencial Dmitri Peskov, que afirmou estar o processo de negociações promovidas por Washington "completamente parado" e sem novas ideias para encontrar uma solução para o conflito iniciado em fevereiro de 2022. Peskov acusou a liderança ucraniana de rejeitar a discussão "por meios pacíficos" e reivindicou o avanço militar russo no terreno, alegando que as forças de Moscovo estão a destruir o complexo militar-industrial ucraniano. O porta-voz insistiu que a Rússia tem uma série de condições para o fim da guerra, mas que Kiev recusa discuti-las.
Este teste de míssil insere-se numa estratégia mais ampla de reforço nuclear anunciada há um ano pelo Presidente Vladimir Putin, que culpou a NATO de provocar uma corrida ao armamento global. Putin comprometeu-se então a modernizar o sistema estratégico nuclear com bombardeiros Tu-160M e mísseis balísticos intercontinentais RS-24 Yars. Segundo a agência Bloomberg, o líder do Kremlin pretende intensificar os ataques contra o território ucraniano com mísseis balísticos convencionais.
O contexto geopolítico tornou-se mais tenso após a visita do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscovo na terça-feira. Segundo o The Wall Street Journal e a CBS, a missão incluía alertar a Rússia sobre uma eventual ação de provocação contra um país da NATO. O Presidente norte-americano Donald Trump confirmou a viagem mas a classificou como "quase de rotina", embora tenha sugerido estar relacionada com a guerra na Ucrânia. O Kremlin negou na quinta-feira ter planos para atacar um membro da NATO, acusando simultaneamente os países europeus aliados de Kiev de seguirem uma política agressiva em relação a Moscovo.
O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, afirmou não acreditar que Putin tenha intenção de atacar a NATO, mas aconselhou a não subestimar Moscovo. "Não creio que a Rússia vá atacar a NATO e, certamente, o que estão a fazer em Moscovo não deve ser subestimado: estou a pensar em ataques cibernéticos", declarou Tajani, membro da aliança atlântica e aliado de Kiev. O ministro italiano sublinhou que os membros da NATO estão organizados e a repelir ataques diariamente, rejeitando a criação de um clima de agitação e medo, e argumentou que a Rússia sairia "perdedora" de um conflito com o Ocidente.
No lado oposto, a coligação da boa vontade para a Ucrânia — uma aliança de cerca de 30 países, maioritariamente europeus — comprometeu-se com o reforço urgente das defesas aéreas ucranianas. A reunião coincidiu com a celebração do 35.º aniversário da independência ucraniana na segunda-feira. Segundo um comunicado conjunto dos governos da Alemanha, Reino Unido e França, que copresidiram o encontro, os parceiros de Kiev "expressaram a sua determinação em aumentar o apoio militar à Ucrânia, reforçar urgentemente as suas defesas aéreas, intensificar a cooperação com a sua indústria de defesa e partilhar tecnologias relevantes".
O Reino Unido anunciou que a empresa de defesa MBDA vai partilhar os elementos necessários para que Kiev possa fabricar os seus próprios mísseis de longo alcance Storm Shadow, sistemas que Londres já fornece às forças ucranianas. O primeiro-ministro britânico instou a França a juntar-se a esta iniciativa. Em resposta, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, condenou a "postura agressiva de Londres em relação a Moscovo", advertindo que "poderá conduzir a um aumento da violência e a uma intensificação do conflito, levando-o a um novo nível". O padrão é claro: enquanto Moscovo testa capacidades nucleares e declara as negociações suspensas, o Ocidente aprofunda o seu compromisso militar com Kiev.
Citations marquantes
Este assunto está atualmente suspenso. Não há novas ideias.— Dmitri Peskov, porta-voz da presidência russa
Não creio que a Rússia vá atacar a NATO e, certamente, o que estão a fazer em Moscovo não deve ser subestimado: estou a pensar em ataques cibernéticos.— Antonio Tajani, ministro dos Negócios Estrangeiros italiano