Rochas porosas em profundidade podem armazenar energia para abastecer cidades

As rochas funcionariam como uma bateria gigante enterrada sob os nossos pés
Ricardo Pereira descreve o conceito central do armazenamento de energia em rochas porosas profundas.
Mark

Então isto é apenas teoria, ou há algo de concreto aqui que possamos usar?

Mimi

É teoria fundamentada em dados reais. Os investigadores usaram modelos baseados em propriedades geológicas e termodinâmicas conhecidas. Mas tens razão — ainda não foi testado em Portugal.

Luke

Exatamente. O estudo diz que rochas entre mil e dois mil e quinhentos metros podem armazenar um terawatt-hora. Mas é um modelo. Ninguém sabe ainda se funciona na prática aqui.

Mimi

Verdade. Por isso é que o próximo passo é recolher amostras de rocha e testá-las em laboratório. Precisam de dados mais sólidos.

Mark

E quanto aos custos? Quanto custa construir um destes reservatórios?

Luke

O artigo não menciona custos. Diz que estudos futuros precisam avaliar o impacto económico. Isso é um vazio importante.

Mimi

É. Mas a ideia é que, uma vez construído, um reservatório pode armazenar energia de forma contínua, ao contrário das baterias que se degradam.

Mark

E Portugal tem as rochas certas para isto?

Mimi

Sim, entre Torres Vedras e Aveiro. Rochas sedimentares com areias porosas. Mas há um problema: a lei não permite nem testar a tecnologia.

Luke

Esse é talvez o maior obstáculo agora. Não é a geologia, é a política e a regulação.

Mark

Então quando é que isto pode começar?

Mimi

Depende de quando Portugal regulamentar o setor. Sem lei, não há testes. Sem testes, não há implementação.

Luke

E enquanto isso, outros países — EUA, China, Alemanha — já estão a usar a tecnologia, embora com cavernas de sal que armazenam menos energia.

  • A dependência de combustíveis fósseis para equilibrar redes elétricas persiste mesmo quando o sol brilha e o vento sopra — o problema não é produzir energia renovável, mas guardá-la.
  • O apagão que paralisou Portugal e Espanha em abril de 2025 tornou urgente a questão do armazenamento de longa duração e da resiliência das redes elétricas.
  • A tecnologia de ar comprimido subterrâneo elimina os riscos de gases combustíveis ou tóxicos, mas Portugal não tem sequer legislação que permita testá-la no seu próprio território.
  • A faixa costeira entre Torres Vedras e Aveiro já foi identificada como geologicamente adequada, mas o próximo passo — recolha de amostras e modelos mais detalhados — exige um quadro legal que ainda não existe.
  • Países como os Estados Unidos, China e Alemanha já operam sistemas semelhantes em cavernas de sal, com menor capacidade; Portugal chega tarde, mas com geologia potencialmente superior.

Sob os pés das cidades, a Terra guarda silenciosamente o que a humanidade ainda não aprendeu a usar: o espaço vazio das rochas profundas. Investigadores portugueses demonstraram, em estudo teórico publicado esta semana, que reservatórios geológicos porosos entre mil e dois mil e quinhentos metros de profundidade podem armazenar até um terawatt-hora de energia — o suficiente para abastecer uma pequena cidade — usando apenas ar comprimido proveniente de fontes renováveis. A proposta não é apenas técnica; é também um convite a repensar o que consideramos infraestrutura, regulação e soberania energética.

Investigadores do GeoBioTec da Universidade Nova de Lisboa e do Instituto Dom Luiz da Universidade de Lisboa publicaram esta semana, na revista Geoenergy, um estudo teórico que propõe uma solução inesperada para o armazenamento de energia em larga escala: as rochas porosas enterradas a profundidades entre mil e dois mil e quinhentos metros podem funcionar como baterias gigantes. O geólogo Ricardo Pereira, coordenador da investigação, resume o conceito com clareza — o subsolo pode guardar o excesso de eletricidade produzida por fontes renováveis e devolvê-la quando necessário.

O mecanismo baseia-se na compressão de ar atmosférico com energia eólica, solar ou hídrica excedente. Esse ar é injetado em reservatórios geológicos profundos e, quando a rede precisa de eletricidade, é libertado para acionar turbinas. Ao contrário de alternativas como o hidrogénio ou o dióxido de carbono, o ar comprimido não apresenta riscos de combustão ou toxicidade. Os modelos teóricos construídos pela equipa, com base em dados geológicos e termodinâmicos, indicam que um único reservatório na faixa de profundidade ideal pode atingir um terawatt-hora de capacidade — energia suficiente para uma pequena cidade. Em grandes centros urbanos, cinco a dez reservatórios poderiam reduzir significativamente o consumo de fósseis.

Portugal tem condições geológicas favoráveis: a costa entre Torres Vedras e Aveiro possui rochas sedimentares com areias porosas adequadas, identificadas em estudo anterior da mesma equipa. O obstáculo é regulatório — a legislação atual não permite sequer testar a tecnologia em território nacional. Enquanto os Estados Unidos, a China e a Alemanha já operam sistemas semelhantes em cavernas de sal, Portugal permanece impedido de avançar por ausência de um quadro legal.

O contexto torna a urgência concreta: o apagão que afetou a Península Ibérica em abril de 2025 expôs a fragilidade das redes elétricas e a necessidade de soluções de armazenamento de longa duração. O próximo passo da investigação passa pela análise laboratorial de amostras de rocha para construir modelos mais sólidos — mas transformar potencial teórico em realidade prática exige, antes de qualquer engenharia, uma decisão política.

Investigadores portugueses publicaram esta semana um estudo teórico que aponta para uma solução subterrânea para o armazenamento de energia em larga escala: rochas porosas a profundidades entre mil e dois mil e quinhentos metros podem guardar eletricidade suficiente para abastecer uma pequena cidade, oferecendo uma saída à dependência de combustíveis fósseis como o gás natural.

O trabalho, divulgado no periódico especializado Geoenergy, resulta de uma colaboração entre o centro GeoBioTec da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e o Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Ricardo Pereira, geólogo e coordenador da investigação, descreve o conceito de forma simples: as rochas funcionariam como uma bateria gigante enterrada sob os nossos pés. O estudo é o primeiro a analisar sistematicamente como a profundidade influencia as condições de armazenamento subterrâneo, considerando como a pressão e a temperatura variam com a profundidade e como essas variações afetam a quantidade de energia que pode ser guardada.

O mecanismo é distinto das baterias convencionais. A tecnologia de ar comprimido aproveita o excesso de eletricidade produzida por fontes renováveis — energia eólica, solar ou hídrica — para comprimir ar atmosférico, que é depois injetado em reservatórios geológicos profundos. Quando há necessidade de gerar eletricidade, esse ar é libertado e utilizado para acionar turbinas. Uma vantagem significativa é que, ao usar apenas ar atmosférico, evita muitos dos riscos associados ao armazenamento subterrâneo de gases combustíveis ou tóxicos, como o hidrogénio ou dióxido de carbono.

Os investigadores construíram modelos teóricos baseados em dados geológicos e termodinâmicos, considerando diversas variáveis: propriedades da rocha, condições de armazenamento, injeção de ar comprimido, pressão e volume de energia armazenada em diferentes profundidades. As conclusões indicam que um único reservatório geológico poroso na faixa de profundidade ideal pode atingir uma capacidade de armazenamento de um terawatt-hora — energia suficiente para abastecer uma pequena cidade. Em grandes centros urbanos, onde uma única unidade não garantiria autossuficiência energética, cinco a dez reservatórios poderiam reduzir significativamente o consumo de combustíveis fósseis.

Portugal possui condições geológicas favoráveis. Um estudo anterior de Pereira e colegas identificou que a faixa costeira entre Torres Vedras e Aveiro contém rochas sedimentares com areias porosas adequadas para este tipo de armazenamento em profundidade. Contudo, o país enfrenta um obstáculo regulatório: a legislação atual não permite nem sequer testar a tecnologia. Pereira sublinha que é necessário regulamentar o setor.

A tecnologia já é utilizada noutros países — Estados Unidos, China e Alemanha — mas a partir de cavernas de sal, que armazenam volumes mais baixos de energia do que os reservatórios porosos estudados. O próximo passo da investigação portuguesa passa por análises mais detalhadas das rochas, incluindo recolha de amostras para análise laboratorial, de modo a construir modelos mais sólidos. A viabilidade técnica e económica destes sistemas depende de fatores como a dimensão do reservatório, a porosidade, a permeabilidade, os limites de pressão e as condições geotérmicas.

O contexto de urgência é real. Tecnologias de armazenamento de longa duração são consideradas fundamentais para reduzir desperdícios de produção renovável, aumentar a estabilidade das redes elétricas e garantir serviços críticos, como o restabelecimento da rede após falhas generalizadas — como o apagão que afetou Portugal e Espanha em abril de 2025. O desafio agora é transformar o potencial teórico em realidade prática, o que exige não apenas soluções de engenharia, mas também uma caracterização geológica rigorosa e, crucialmente, um quadro legal que permita avançar.

As rochas irão funcionar como uma gigante bateria debaixo dos nossos pés
— Ricardo Pereira, geólogo coordenador do estudo
É preciso regulamentá-lo
— Ricardo Pereira, sobre a necessidade de lei em Portugal
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