Durante milhares de anos, a esperança de vida manteve-se entre 20-35 anos, não porque os humanos envelheçam mais cedo, mas pela mortalidade infantil catastrófica. Vacinas, antibióticos e água potável foram revolucionários: a vacinação evitou 154 milhões de mortes entre 1974-2024, incluindo 146 milhões de crianças menores de cinco anos.
Como a ciência duplicou a esperança de vida humana em 150 anos
Não foi sorte, foi ciência que evitou milhões de mortes prematuras
Como é que a esperança de vida pode ter permanecido praticamente igual durante milhares de anos, se o corpo humano tinha capacidade para envelhecer?
Porque o problema nunca foi o envelhecimento. Era a mortalidade infantil catastrófica. Quando metade das crianças morriam antes dos cinco anos, a média descia dramaticamente, mesmo que alguns adultos chegassem aos 70.
Mas como sabemos isto? Não existem registos demográficos de há trezentos mil anos.
Verdade. Os investigadores usam restos arqueológicos, esqueletos e comparações com populações tradicionais de caçadores-recolectores para reconstruir os padrões de mortalidade.
E quando é que tudo começou a mudar?
No século XVIII, com a vacinação moderna. Mas a verdadeira aceleração foi no século XX, quando tivemos antibióticos, água potável, saneamento e sistemas de saúde pública organizados.
Mas qual foi o factor mais importante? Vacinas? Antibióticos? Água potável?
Não houve um único factor. Foi a combinação de tudo. A OMS destaca o papel das melhorias na higiene e nos cuidados de saúde, juntamente com a vacinação.
E quanto aos números? Quanto é que a vacinação realmente salvou?
Entre 1974 e 2024, a vacinação evitou cerca de 154 milhões de mortes. Dessas, 146 milhões eram crianças com menos de cinco anos.
Essas são estimativas de um programa específico da OMS. Mas representam realmente o impacto global da vacinação desde o século XVIII?
Não, são números apenas para esse período e esse programa. O impacto histórico total é muito maior, mas mais difícil de quantificar com precisão.
Então, em Portugal, uma criança nascida hoje vive realmente três vezes mais do que no passado?
Sim. Em Portugal, a esperança de vida é agora 81,49 anos. Há milhares de anos era 20 a 35 anos. É uma transformação radical.
O Pulso
- Esperança de vida em 1900: 32 anos; em 2023: 73 anos globalmente; em Portugal (2022-2024): 81,49 anos
- Vacinação evitou 154 milhões de mortes entre 1974-2024, incluindo 146 milhões de crianças menores de cinco anos
- Durante milhares de anos, esperança de vida manteve-se entre 20-35 anos, principalmente devido à mortalidade infantil catastrófica
- Penicilina descoberta em 1928 por Alexander Fleming; utilizada em larga escala a partir da década de 1940
Durante milhares de anos, a esperança de vida manteve-se entre 20-35 anos, não porque os humanos envelheçam mais cedo, mas pela mortalidade infantil catastrófica. Vacinas, antibióticos e água potável foram revolucionários: a vacinação evitou 154 milhões de mortes entre 1974-2024, incluindo 146 milhões de crianças menores de cinco anos.
A esperança de vida humana aumentou de cerca de 30 anos para mais de 80 anos em Portugal, não por evolução biológica mas pela ciência: vacinas, antibióticos, saneamento e saúde pública transformaram a longevidade.
Não foi sorte. Durante praticamente toda a existência do Homo sapiens, a vida humana terminou cedo — não porque o corpo envelhecesse depressa, mas porque as crianças morriam. Há trezentos mil anos, quando o Homo sapiens surgiu em África, a esperança de vida à nascença rondava os 20 a 35 anos. Dois mil anos depois, no tempo do Império Romano, com cidades, aquedutos e médicos, continuava entre os 20 e os 30 anos. Mil anos mais tarde, durante os Descobrimentos portugueses, ainda não tinha mudado significativamente. Até 1770, a humanidade inteira vivia, em média, apenas 28,5 anos. Isto não significa que um romano de 25 anos estivesse à beira da morte. Significa que quando muitas crianças morriam antes dos cinco anos — de infeções, água contaminada, subnutrição — a média descia dramaticamente, mesmo que alguns adultos chegassem aos 60 ou 70 anos. O corpo humano já tinha capacidade biológica para envelhecer. O problema era conseguir sobreviver tempo suficiente.
A transformação começou no século XVIII, quando Edward Jenner demonstrou em 1796 que a inoculação com material da varíola bovina protegia contra a varíola humana. Nascia a vacinação moderna. Mas a verdadeira revolução acelerou no século XIX, quando Louis Pasteur e Robert Koch ajudaram a demonstrar que microrganismos causavam muitas doenças, e Joseph Lister introduziu princípios antissépticos na cirurgia. As cidades começaram a melhorar os sistemas de água, esgotos e recolha de resíduos. Passámos a compreender que água contaminada, mãos sujas e instrumentos cirúrgicos contaminados transmitiam doenças. Esta transformação foi fundamental porque grande parte do aumento inicial da esperança de vida não veio de medicamentos sofisticados — veio da saúde pública.
Mas foi no século XX que a curva histórica da longevidade humana praticamente disparou. Em 1900, a esperança média de vida mundial era apenas 32 anos. A penicilina, descoberta por Alexander Fleming em 1928 e utilizada em larga escala a partir da década de 1940, transformou doenças anteriormente fatais em doenças tratáveis. Os dados históricos mostram quedas extremamente rápidas da mortalidade por pneumonia depois da introdução das sulfonamidas e dos antibióticos. A mortalidade materna caiu rapidamente graças a antibióticos, transfusões de sangue, melhores técnicas cirúrgicas e maior acompanhamento médico do parto. As redes de água potável e saneamento expandiram-se. A alimentação melhorou. Os cuidados durante a gravidez e o parto tornaram-se mais seguros. Surgiram novas vacinas. Em 1950, a esperança média de vida mundial tinha subido para 46,4 anos — mas as diferenças eram gigantescas. Na Europa chegava aos 62 anos e na América do Norte rondava os 68 anos, enquanto em África permanecia perto dos 37 anos. O genoma humano era essencialmente o mesmo. O que mudava era o acesso a água potável, alimentação, vacinação, antibióticos, hospitais e sistemas organizados de saúde pública.
As vacinas tiveram um impacto particularmente extraordinário. Uma análise conduzida para assinalar os 50 anos do Programa Alargado de Vacinação da Organização Mundial de Saúde estimou que a vacinação evitou cerca de 154 milhões de mortes entre 1974 e 2024. Dessas vidas salvas, aproximadamente 146 milhões eram crianças com menos de cinco anos e cerca de 101 milhões eram bebés. Os investigadores estimam ainda que a vacinação foi responsável por cerca de 40% da redução da mortalidade infantil observada globalmente durante esse período. Varíola, poliomielite, difteria, tétano, sarampo, rubéola e várias formas de meningite deixaram de ter a mortalidade que tiveram durante praticamente toda a história humana. A varíola, que durante séculos matou centenas de milhões de pessoas, foi completamente erradicada — em 1980, a Organização Mundial de Saúde declarou oficialmente a erradicação mundial.
Depois de controladas muitas doenças infecciosas, a medicina começou a atacar outras grandes causas de mortalidade. A cirurgia tornou-se progressivamente mais segura graças à anestesia, assepsia, antibióticos e transfusões. A hipertensão começou a ser tratada. Surgiram unidades de cuidados intensivos. Os enfartes passaram a ser tratados rapidamente. A cirurgia cardíaca tornou possível reparar ou substituir válvulas e fazer bypass coronário. Statinas, anticoagulantes e medicamentos anti-hipertensores reduziram o risco cardiovascular. O tratamento do cancro avançou com cirurgia, radioterapia, quimioterapia e, mais recentemente, terapias alvo e imunoterapia. Os cuidados neonatais permitiram salvar bebés que anteriormente dificilmente sobreviveriam.
Em 2023, a esperança média de vida mundial atingia aproximadamente 73 anos. Portugal encontra-se bastante acima desse valor. Segundo as Tábuas de Mortalidade do Instituto Nacional de Estatística relativas ao período 2022 a 2024, a esperança de vida à nascença em Portugal atingiu 81,49 anos — 78,73 anos nos homens e 83,96 anos nas mulheres. Uma criança que nasce atualmente em Portugal tem, estatisticamente, uma esperança de vida cerca de três vezes superior à que seria habitual numa grande parte da história humana. Não houve uma única descoberta responsável pelo enorme aumento da longevidade. Foi a combinação de água potável, saneamento, vacinas, antibióticos, hospitais, cirurgia e melhores condições de vida que permitiu evitar milhões de mortes prematuras. Mais tarde, os avanços no tratamento das doenças cardiovasculares, do cancro e de outras doenças crónicas permitiram prolongar também a vida em idades mais avançadas. Durante centenas de milhares de anos, uma infeção, uma pneumonia, um parto complicado ou simplesmente água contaminada podiam terminar uma vida. A grande mudança não foi biológica — o Homo sapiens já tinha capacidade para viver 80 anos — mas poucos conseguiam lá chegar. Hoje, a ciência, as vacinas, a medicina e a saúde pública não nos tornaram imortais, mas impediram que milhões de pessoas morressem demasiado cedo.
Citações Notáveis
Não nos tornaram imortais, mas impediram que milhões de pessoas morressem demasiado cedo— Análise do impacto da ciência e medicina na longevidade humana
O corpo humano já tinha capacidade para viver 80 anos, mas poucos conseguiam lá chegar— Reflexão sobre a capacidade biológica humana versus a realidade histórica