A três dias das eleições brasileiras de 2022, analistas observavam que o mercado já havia digerido, com semanas de antecedência, a maior parte da incerteza eleitoral. O que verdadeiramente pesava sobre a bolsa era o cenário externo — inflação persistente, juros em alta e o espectro de recessão global. No interior desse quadro, as estatais como Petrobras e Banco do Brasil carregavam um risco adicional e mais imediato: o de que propostas de intervenção dos candidatos reescrevessem as regras do jogo antes mesmo de qualquer posse.
Risco eleitoral já precificado, mas estatais podem sofrer, alertam analistas
O mercado já está posicionado há algum tempo
Se o mercado já precificou o risco eleitoral há semanas, por que as estatais ainda sofrem pressão?
Porque o mercado precifica probabilidades, não certezas. Quando Lula fala em intervir na política de preços da Petrobras, isso muda o cálculo de risco específico daquela empresa. Não é sobre a eleição em si, é sobre o que cada candidato fará com aquele ativo.
Mas Lula estava à frente nas pesquisas. Isso não deveria já estar nos preços?
Deveria, e em parte está. Mas há diferença entre "Lula pode ganhar" e "Lula está dizendo exatamente o que fará com a Petrobras". A segunda informação é mais concreta, mais ameaçadora para quem tem ações.
E se Bolsonaro vencer? As estatais sofrem menos?
Não necessariamente. Beck menciona que ambos os candidatos trazem riscos diferentes. O ponto é que qualquer um deles terá dificuldade no Congresso para implementar sua agenda fiscal. Isso afeta todas as estatais.
Então o verdadeiro problema não é a eleição, é o que vem depois?
Exatamente. A eleição é um evento. O que importa é a governança, a política de preços, a capacidade de negociar com o Parlamento. E ninguém sabe como isso vai funcionar até que aconteça.
Por que o mercado não espera pelo resultado antes de vender?
Porque vender antes é mais seguro. Se você espera e o resultado é ruim para seu ativo, você vende junto com todos os outros — e o preço cai mais. Melhor sair antes, mesmo que o risco não se concretize.
The Pulse
- Investidores institucionais já vinham reduzindo posições em estatais há duas semanas, antecipando o risco de descontinuidade nas políticas de governança.
- A declaração de Lula sobre precificação da Petrobras em reais provocou queda imediata nas ações ordinárias e preferenciais da companhia, revelando a sensibilidade do mercado a sinalizações políticas.
- O cenário externo — com o Ibovespa recuando mais de 3% na semana anterior acompanhando mercados globais — pesava tanto ou mais do que a disputa presidencial interna.
- A incerteza sobre qual âncora fiscal substituiria o teto de gastos mantinha o mercado em postura defensiva, independentemente de quem vencesse.
- Analistas convergiam: o resultado eleitoral importava, mas o ambiente global de juros elevados e aversão ao risco era o fator dominante no horizonte.
A três dias das eleições brasileiras de 2022, analistas observavam que o mercado já havia digerido, com semanas de antecedência, a maior parte da incerteza eleitoral. O que verdadeiramente pesava sobre a bolsa era o cenário externo — inflação persistente, juros em alta e o espectro de recessão global. No interior desse quadro, as estatais como Petrobras e Banco do Brasil carregavam um risco adicional e mais imediato: o de que propostas de intervenção dos candidatos reescrevessem as regras do jogo antes mesmo de qualquer posse.
A três dias do primeiro turno, a bolsa brasileira vivia sob atenção política intensa — cada sondagem e cada promessa de campanha era dissecada por investidores. Mas analistas como Ricardo Campos, da Reach Capital, eram categóricos: a maior parte da incerteza eleitoral já havia sido incorporada aos preços há semanas. O que realmente pressionava o mercado era a deterioração do cenário global, com inflação acima das metas dos principais bancos centrais, juros em alta e temores de recessão. Na semana anterior, o Ibovespa havia recuado mais de 3%, acompanhando a queda de ativos ao redor do mundo.
Campos destacava que ninguém realiza grandes movimentos de posicionamento nos últimos dias antes de uma eleição. Com o Datafolha apontando Lula com 47% contra 33% de Bolsonaro, o segundo turno parecia provável — mas o analista lembrava que qualquer eleito teria de negociar com um Congresso mais forte do que em gestões anteriores, e que aumentos de impostos no ano seguinte eram cenário plausível para ambos.
O ponto de maior tensão estava nas estatais. Petrobras e Banco do Brasil eram os papéis mais sensíveis ao quadro político. A defesa de Lula por uma intervenção na política de preços da Petrobras — argumentando que a empresa opera em reais e deveria precificar em reais — impactou imediatamente as ações da companhia. João Beck, da BRA, observava que investidores institucionais vinham reduzindo posições em empresas com maior ligação ao governo, incluindo Eletrobras, BB Seguridade e Copel.
O risco central era a possível descontinuidade nas políticas de governança das estatais. No caso do Banco do Brasil, Lula já sinalizara buscar uma "visão social" além dos lucros. Beck alertava ainda para a incerteza sobre a nova âncora fiscal que substituiria o teto de gastos — e como o governo financiaria sua agenda de investimentos. Essas dúvidas mantinham o mercado avesso ao risco. Os especialistas concordavam: a eleição era importante, mas o ambiente externo de incerteza era, naquele momento, o fator que mais pesava.
Três dias antes do pleito, a bolsa brasileira fervia de atenção política. Cada fala de candidato, cada sondagem, cada promessa de campanha era dissecada por investidores em busca de sinais sobre o que viria. Mas segundo analistas que acompanham o mercado de perto, a maior parte dessa incerteza eleitoral já havia sido incorporada aos preços das ações há semanas. O que realmente pressionava a bolsa naquele momento era outra coisa: a deterioração do cenário global, com inflação acima das metas dos principais bancos centrais e juros em alta, alimentando temores de recessão mundial. Na semana anterior, o índice havia caído mais de 3%, acompanhando a queda em outros ativos ao redor do mundo.
Ricardo Campos, diretor executivo da Reach Capital, explicava que ninguém deixa grandes movimentos de posicionamento para os últimos dias de uma eleição. "O mercado já está posicionado há algum tempo", afirmava. Ele apontava que a expectativa mais provável era que a disputa presidencial fosse para o segundo turno — a última pesquisa Datafolha mostrava Lula com 47% das intenções de voto contra 33% de Bolsonaro. Mas havia um detalhe importante que transcendia a simples escolha entre dois nomes: o Congresso. Campos ressaltava que qualquer que fosse o eleito teria de lidar com um parlamento muito mais forte do que em gestões anteriores, e que ambos os candidatos provavelmente precisariam trabalhar com aumentos de impostos no ano seguinte, embora sem "grandes exageros".
O que preocupava mais os analistas, porém, era o comportamento das ações de empresas estatais. Petrobras e Banco do Brasil eram as mais sensíveis ao quadro político. Dias antes, Lula havia defendido em entrevista televisiva uma intervenção na política de preços da Petrobras, argumentando que a companhia fazia prospecção e refino em reais, portanto deveria precificar em reais. A declaração impactou imediatamente as ações ordinárias e preferenciais da estatal. João Beck, economista e sócio da BRA, observava que investidores institucionais vinham reduzindo suas posições em papéis de empresas com maior ligação ao governo há duas semanas. Além da Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil, BB Seguridade e Copel sofriam pressão de venda.
O risco era concreto: uma mudança presidencial aumentaria a possibilidade de descontinuidade nas políticas de governança que vinham sendo implementadas nas estatais. O Partido dos Trabalhadores tinha histórico de gestão questionável nessa área. No caso da Petrobras, além da questão de preços, havia a questão ideológica. Quanto ao Banco do Brasil, Lula já havia sinalizado que buscaria uma "visão social" além dos lucros. Beck alertava que qualquer presidente eleito enfrentaria dificuldades de negociação com o Congresso em temas fiscais, dada a alta rejeição de ambos os candidatos. Havia ainda incerteza sobre qual seria a nova "âncora fiscal" que substituiria o teto de gastos — e como o governo financiaria sua agenda de investimentos. Essas incertezas deixavam o mercado mais avesso ao risco.
Os especialistas concordavam que parte do mercado aguardava o resultado das eleições para fazer realocações de portfólio. Mas ambos enfatizavam que, mais importante que o resultado brasileiro, era preciso considerar o ambiente externo de incerteza e as taxas de juros ainda elevadas. A eleição era importante, sim, mas não era tudo.
Notable Quotes
A Petrobras faz prospecção de petróleo em real, ela refina em real. Ela precisa, então, que o preço seja em real— Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista televisiva
Qualquer que seja o presidente eleito terá dificuldade de negociação com o congresso na pauta fiscal— João Beck, economista e sócio da BRA