No coração de Goiás, onde a terra guarda um quinto das reservas mundiais de terras raras, um pré-candidato à Presidência ergue a voz contra o que chama de dilapidação silenciosa do patrimônio nacional. Renan Santos, pelo partido Missão, propõe transformar a abundância mineral do Brasil em alavanca de soberania: nenhum acordo internacional sobre esses minerais estratégicos avançaria sem que tecnologia estrangeira e produção de componentes ficassem em solo brasileiro. É uma aposta antiga — a de que riqueza bruta só se converte em poder quando processada por mãos próprias.
Renan Santos promete barrar acordos sobre terras raras e exigir produção no Brasil
Aqui é a única oportunidade que vocês têm de ter acesso a isso
Por que terras raras importam tanto em uma campanha presidencial? Parecem um assunto técnico, distante da vida das pessoas.
Porque controlam o futuro da energia limpa e da tecnologia. Quem controla terras raras controla quem faz carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas. É geopolítica pura, disfarçada de mineração.
E por que Santos acha que pode "brecar" acordos que já estão acontecendo?
Porque o Brasil tem 20% das reservas globais. Ele acredita que isso é moeda de troca suficiente para impor condições. Se você é o único fornecedor confiável fora da Ásia, você tem poder.
Mas a Serra Verde já foi vendida para uma empresa americana. Não é tarde demais?
Tecnicamente sim, mas Santos fala em acordos futuros. Há outras reservas em Goiás. Ele quer estabelecer um precedente: nada sai do Brasil sem tecnologia vindo para cá em troca.
Isso não afastaria investimento estrangeiro?
Talvez. Ou talvez atraia investimento diferente — empresas que querem produzir aqui, não apenas extrair. É um risco calculado, uma aposta de que o Brasil é tão estratégico que ninguém pode ignorá-lo.
E se ninguém aceitar essas condições?
Aí o Brasil fica com suas reservas no chão. Mas Santos acredita que a escassez global de terras raras é tão aguda que alguém vai aceitar. É uma estratégia de poker geopolítico.
El Pulso
- Santos quer 'brecar absolutamente tudo' nos acordos internacionais sobre terras raras, sinalizando ruptura com a lógica atual de exportação de matéria-prima sem contrapartida industrial.
- O pré-candidato acusa 'grupos econômicos ligados a grandes bancos e políticos' de negociar as reservas brasileiras sem considerar o interesse nacional, criando tensão direta com o establishment econômico.
- O Brasil detém 20% das reservas globais e abriga em Minaçu a única mineradora fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais para veículos elétricos e turbinas eólicas.
- A proposta condiciona o acesso às reservas à transferência de tecnologia e à produção local de componentes, tentando converter dependência geopolítica alheia em industrialização brasileira.
- O projeto caminha sobre terreno técnico exigente: isolar terras raras em forma pura é complexo, e a ambição de Santos exigiria investimentos massivos em refino e cadeia produtiva ainda incipiente no país.
No coração de Goiás, onde a terra guarda um quinto das reservas mundiais de terras raras, um pré-candidato à Presidência ergue a voz contra o que chama de dilapidação silenciosa do patrimônio nacional. Renan Santos, pelo partido Missão, propõe transformar a abundância mineral do Brasil em alavanca de soberania: nenhum acordo internacional sobre esses minerais estratégicos avançaria sem que tecnologia estrangeira e produção de componentes ficassem em solo brasileiro. É uma aposta antiga — a de que riqueza bruta só se converte em poder quando processada por mãos próprias.
No domingo, em um pub no Setor Bela Vista de Goiânia, Renan Santos subiu ao palco para falar a apoiadores sobre terras raras — tema incomum em palanques de campanha. Sua mensagem foi sem rodeios: se eleito presidente pelo partido Missão, pretende bloquear acordos internacionais sobre esses minerais e condicionar qualquer acesso às reservas brasileiras à transferência de tecnologia e à produção de componentes no Brasil, recusando o papel de mero exportador de matéria-prima bruta.
O peso geopolítico da proposta se apoia em números concretos. O Brasil controla cerca de 20% das reservas globais de terras raras, e Santos enxerga nisso uma alavanca de negociação que o país ainda não soube usar. Em sua visão, Estados Unidos, Japão e Europa precisam dessas reservas para sustentar a transição energética — e essa dependência deveria ser convertida em condição: tecnologia e industrialização em troca de acesso.
O cenário real que embasa o discurso está em Minaçu, interior de Goiás. A mineradora Serra Verde é a única empresa fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos essenciais para motores elétricos e turbinas eólicas — neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. Adquirida pela USA Rare Earth por 2,8 bilhões de dólares, a operação entrou em fase comercial em janeiro de 2024, explorando um depósito de argila iônica que permite extração mais sustentável.
Santos reconhece o desafio técnico: terras raras são abundantes na crosta terrestre, mas difíceis de isolar porque aparecem misturadas a outros minerais. Sua ambição vai além da mineração — quer forçar, via poder de negociação, a instalação de toda uma cadeia produtiva no Brasil. Se a proposta avança ou esbarra na realidade do mercado global, dependerá, antes de tudo, de uma eleição.
Renan Santos, pré-candidato à Presidência pelo partido Missão, subiu ao palco de um pub no Setor Bela Vista de Goiânia no domingo para falar a apoiadores sobre um tema que raramente domina conversas de campanha: terras raras. Sua mensagem foi direta e sem nuances. Se eleito, disse, ele pretende "brecar absolutamente tudo" nos acordos internacionais que envolvem esses minerais estratégicos. Não apenas isso: ele quer condicionar o acesso às reservas brasileiras à transferência de tecnologia estrangeira e à produção de componentes no Brasil, em vez de simplesmente exportar a matéria-prima bruta.
O Brasil controla cerca de 20% das reservas globais de terras raras, uma proporção que Santos vê como alavanca geopolítica. Ele não especificou quais acordos pretende bloquear, mas sua retórica sugeria frustração com o que chamou de "grupos econômicos dos mais baixos, ligados a grandes bancos e a políticos" que, em sua visão, correm para fazer negócios com estrangeiros sem pensar no interesse nacional. "O plano nacional de terras raras tem que passar necessariamente por um plano geopolítico que passe pela industrialização do Brasil", afirmou.
O contexto que dá peso a essa fala é real e concreto. A mineradora Serra Verde, que opera em Minaçu, no interior de Goiás, é a única empresa fora da Ásia a produzir em escala comercial os quatro elementos magnéticos de terras raras essenciais para tecnologias limpas — neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. Esses componentes são fundamentais para motores de veículos elétricos e turbinas eólicas. A empresa foi adquirida pela USA Rare Earth por 2,8 bilhões de dólares, aproximadamente 14 bilhões de reais. O projeto entrou em fase comercial em janeiro de 2024, aproveitando um depósito raro de argila iônica que permite extração mais sustentável do que os métodos convencionais.
Santos argumenta que o mundo inteiro virá ao Brasil disputar essas reservas, e que o país tem uma oportunidade única de negociar a partir de uma posição de força. "Tendo 20% das reservas globais, boa parte delas aqui em Goiás, nós temos que olhar para os Estados Unidos, para o Japão, para a Europa e avisar: aqui é a única oportunidade que vocês têm de ter acesso a isso. Só que eu quero a tecnologia e produzir esses componentes aqui", completou. Sua visão é transformar o Brasil de fornecedor de matéria-prima em produtor de tecnologia, criando uma cadeia de suprimentos diversificada e segura que atraia investimento em refino e industrialização.
O desafio técnico por trás dessa ambição é real. As terras raras compreendem 17 elementos químicos que, apesar de abundantes na crosta terrestre, recebem esse nome justamente porque sua extração é complexa. Isolar esses componentes em forma pura é difícil porque costumam aparecer misturados a outros minerais. A operação em Minaçu representa um passo importante nessa direção, mas a proposta de Santos vai além: ele quer usar o poder de negociação do Brasil para forçar transferência de tecnologia e produção local como condição para qualquer acordo futuro. Se eleito, essa será uma das suas prioridades geopolíticas.
Citas Notables
O plano nacional de terras raras tem que passar necessariamente por um plano geopolítico que passe pela industrialização do Brasil— Renan Santos
Eu, como presidente, vou brecar absolutamente tudo— Renan Santos