Pela primeira vez de forma sistemática, a inteligência brasileira reconhece o que as fronteiras já sabiam: o Brasil não é apenas destino ou origem de migrantes irregulares, mas um eixo vivo por onde o mundo em movimento passa, é explorado e segue adiante. O relatório da Abin, produzido com a OIM, revela redes criminosas enraizadas em 14 estados que transformam a esperança humana em mercadoria — e aponta que enquanto houver pessoas buscando uma vida melhor e estruturas dispostas a lucrar com esse desejo, o contrabando encontrará caminho.
Relatório inédito da Abin mapeia Brasil como eixo do contrabando de migrantes em 14 estados
Estrutura descentralizada que dificulta identificação e desmantelamento
Por que o Brasil se tornou tão central nessas redes? Não é apenas uma questão de fronteiras longas?
As fronteiras longas importam, mas é mais que isso. O Brasil é geograficamente posicionado entre a América do Sul e o norte do continente, tem uma política migratória que não criminaliza o migrante em si, e oferece mercados de trabalho que atraem pessoas. Tudo junto cria as condições perfeitas.
E essas redes — elas são organizadas como máfias tradicionais, com hierarquia clara?
Não. Justamente o oposto. São descentralizadas e flexíveis. Um recrutador aqui, um transportador ali, um falsificador em outro lugar. Isso as torna mais difíceis de combater porque não há uma estrutura única para desmantelar.
Como alguém que quer migrar descobre essas redes?
Começa com confiança — um amigo que fez, um parente que conhece alguém. Mas agora é TikTok, é Instagram. Veem um vídeo que parece uma agência de viagem legítima, mandam mensagem no WhatsApp, e está feito. A tecnologia democratizou o acesso a essas redes.
E quanto aos migrantes? Eles sabem os riscos?
Alguns sim, muitos não. Mas mesmo quem sabe frequentemente não tem alternativa. A vulnerabilidade econômica é real. E uma vez dentro, dependem financeiramente dos contrabandistas. Não podem denunciar porque têm medo de deportação.
O relatório muda algo na prática?
Teoricamente, sim. Fornece dados para ações coordenadas entre órgãos e países. Mas a verdade é que enquanto houver pessoas desesperadas e redes dispostas a lucrar, isso continua. O relatório é um diagnóstico. A cura é mais complexa.
O Pulso
- O Brasil emerge como nó triplo no tráfico de migrantes: ao mesmo tempo destino, origem e corredor de passagem — uma posição que o torna excepcionalmente atrativo para redes criminosas descentralizadas e difíceis de desmantelar.
- TikTok e Kwai viraram vitrines de operações criminosas disfarçadas de agências de viagem, enquanto WhatsApp e Telegram coordenam travessias que podem custar até 20 mil dólares por pessoa.
- Migrantes enfrentam violência, exploração e ausência de assistência médica ao longo das rotas — e muitos não denunciam por medo de deportação, tornando o crime invisível e as redes, intocáveis.
- O relatório distingue claramente: migrar de forma irregular não é crime no Brasil, mas organizar e lucrar com a travessia clandestina é — uma distinção que orienta a resposta do Estado.
- A expectativa é que o estudo fundamente ações coordenadas entre agências governamentais e parceiros internacionais, combinando repressão às redes com proteção efetiva dos direitos dos migrantes.
Pela primeira vez de forma sistemática, a inteligência brasileira reconhece o que as fronteiras já sabiam: o Brasil não é apenas destino ou origem de migrantes irregulares, mas um eixo vivo por onde o mundo em movimento passa, é explorado e segue adiante. O relatório da Abin, produzido com a OIM, revela redes criminosas enraizadas em 14 estados que transformam a esperança humana em mercadoria — e aponta que enquanto houver pessoas buscando uma vida melhor e estruturas dispostas a lucrar com esse desejo, o contrabando encontrará caminho.
A Agência Brasileira de Inteligência divulgou esta semana, em parceria com a Organização Internacional para as Migrações, o primeiro mapeamento sistemático do papel do Brasil nas redes internacionais de contrabando de migrantes. O documento identifica estruturas criminosas em pelo menos 14 estados, que exploram a extensão das fronteiras brasileiras, sua posição geográfica privilegiada e as brechas na política migratória do país.
O Brasil ocupa três papéis simultâneos nessas rotas: é destino para quem busca trabalho e permanência, origem para brasileiros que tentam chegar aos Estados Unidos e à Europa, e corredor de passagem para migrantes de outras nacionalidades em direção ao norte do continente. Essa multiplicidade torna o país estratégico para redes que operam de forma descentralizada — recrutadores, intermediários financeiros, falsificadores de documentos, transportadores e coiotes formam uma cadeia fragmentada que, paradoxalmente, dificulta o combate por não ter uma liderança única.
O recrutamento começa em círculos de confiança, mas a tecnologia expandiu dramaticamente seu alcance. Plataformas de vídeo curto como TikTok e Kwai tornaram-se os principais vetores de atração, disfarçando operações criminosas como agências de viagem ou consultorias migratórias. Os serviços — transporte, hospedagem, documentação falsa — são vendidos como pacotes integrados, frequentemente conectados a corrupção, lavagem de dinheiro e exploração laboral.
O relatório detalha a dinâmica por estado. Em Minas Gerais, especialmente no Vale do Rio Doce, origina-se 60% da migração irregular de brasileiros para os Estados Unidos, com rotas que podem custar até 20 mil dólares. Em Mato Grosso do Sul, Corumbá concentra fluxos de bolivianos rumo a São Paulo, muitos destinados à indústria têxtil em condições análogas à escravidão. Em Roraima, cubanos chegam pela fronteira com a Guiana enquanto venezuelanos continuam entrando. O Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, funciona como principal hub logístico do sistema.
Os migrantes que recorrem a essas redes enfrentam violência, exploração e ausência de assistência médica. A maioria não denuncia por medo de deportação ou represálias, tornando o crime invisível e permitindo que as redes continuem operando. O relatório reforça que migrar irregularmente não é crime no Brasil — a responsabilidade recai sobre quem organiza e lucra com a travessia. A expectativa é que o estudo fundamente ações coordenadas entre órgãos governamentais e parceiros internacionais, unindo repressão às redes e proteção dos direitos dos migrantes.
A Agência Brasileira de Inteligência divulgou nesta semana um relatório que mapeia, pela primeira vez de forma sistemática, como o Brasil se tornou um eixo central nas redes internacionais de contrabando de migrantes. O documento, produzido em parceria com a Organização Internacional para as Migrações, identifica estruturas criminosas operando em pelo menos 14 estados, explorando a extensão das fronteiras brasileiras, sua posição geográfica e as brechas na política migratória do país.
O Brasil não funciona de um único modo nessas rotas. Ele é simultaneamente destino — para quem busca trabalho e permanência — origem para brasileiros que tentam chegar aos Estados Unidos e Europa, e corredor de passagem para migrantes de outras nacionalidades que seguem para o norte do continente. Essa multiplicidade de papéis torna o país particularmente atrativo para as redes criminosas. As operações são descentralizadas e flexíveis, envolvendo recrutadores que capturam migrantes, intermediários financeiros, falsificadores de documentos, transportadores e os chamados coiotes que conduzem as travessias. Essa estrutura fragmentada, paradoxalmente, dificulta o combate porque não há uma cabeça única a ser desmantelada.
O recrutamento começa frequentemente dentro de círculos de confiança — amigos, parentes, conhecidos que já fizeram a travessia. Mas a tecnologia expandiu dramaticamente esse alcance. Aplicativos de mensagem como WhatsApp, Telegram e Signal servem à coordenação. Redes sociais como Facebook e Instagram ampliam o alcance. São as plataformas de vídeo curto, porém — TikTok e Kwai — que se tornaram os principais veículos de atração, disfarçando operações criminosas como agências de viagem legítimas ou consultorias migratórias. Os serviços oferecidos variam conforme o perfil do migrante e a complexidade da rota: transporte terrestre e aéreo, hospedagem, orientação nas travessias, documentação falsa. Frequentemente são vendidos como pacotes integrados que elevam o custo total. A operação é altamente lucrativa e costuma estar conectada a outros crimes — corrupção, lavagem de dinheiro, exploração laboral.
O relatório detalha como cada estado funciona dentro dessa dinâmica. Em Minas Gerais, especialmente no Vale do Rio Doce, origina-se 60% da migração irregular de brasileiros para os Estados Unidos, com rotas que podem custar até 20 mil dólares e envolvem trajetos aéreos complexos até a fronteira mexicana. No Mato Grosso do Sul, a região de Corumbá concentra fluxos de bolivianos rumo a São Paulo, frequentemente para trabalho na indústria têxtil em condições análogas à escravidão. Em Roraima, cubanos chegam em números crescentes pela fronteira com a Guiana, enquanto venezuelanos continuam entrando, muitos absorvidos pela Operação Acolhida. Em São Paulo, o Aeroporto de Guarulhos funciona como principal hub logístico, concentrando tanto entradas de migrantes de diversas nacionalidades quanto saídas de brasileiros.
Os migrantes que recorrem a essas redes enfrentam riscos substanciais ao longo do trajeto. Violência, exploração, condições precárias de deslocamento, ausência de assistência médica — tudo isso é comum. A vulnerabilidade é agravada pela dependência financeira em relação aos contrabandistas e pelo desconhecimento das rotas, das leis locais e dos direitos que possuem. Muitos não se reconhecem como vítimas ou evitam denunciar por medo de deportação ou represálias. Essa subnotificação torna o crime invisível aos olhos das autoridades e contribui para que as redes continuem operando.
O relatório ressalta um ponto importante: migrar de forma irregular não é crime no Brasil. A legislação adota o princípio da não criminalização do migrante. A responsabilidade recai sobre quem organiza, financia e lucra com a travessia clandestina. O contrabando de migrantes é definido como facilitação da entrada irregular com fins de lucro — um crime contra o Estado e uma ameaça aos direitos dos migrantes, frequentemente conectado a outras práticas ilícitas que comprometem a segurança regional.
A expectativa é que este estudo sirva como base para ações coordenadas entre órgãos governamentais e cooperação internacional. O objetivo declarado combina repressão às redes criminosas com proteção dos direitos dos migrantes e promoção de rotas seguras e regulares. Sem isso, as estruturas continuarão se adaptando, mudando de forma, encontrando novos canais — porque enquanto houver demanda de pessoas buscando melhores condições de vida e redes dispostas a lucrar com essa esperança, o contrabando persistirá.
Citações Notáveis
O contrabando de migrantes envolve a facilitação da entrada irregular com fim de obter benefícios financeiros, representando um crime contra o Estado e uma ameaça aos direitos dos migrantes— Relatório da Abin
A natureza descentralizada dessas operações gera obstáculos à identificação e ao desmantelamento de redes inteiras— Documento da Abin