Em meio à queda de um líder que um dia pareceu inabalável, o regime venezuelano atravessa uma transição silenciosa e pragmática: Nicolás Maduro, preso nos Estados Unidos desde janeiro, foi gradualmente apagado do discurso oficial de seus próprios aliados. Delcy Rodríguez, que herdou o poder e o respaldo americano, escolheu a sobrevivência política sobre a lealdade — e essa escolha, feita sem cerimônia, revela como o poder raramente honra aqueles que o constroem.
Regime venezuelano abandona plano para libertar Maduro preso nos EUA
O destino dele já está selado. Eles deixarão o processo seguir seu curso.
Por que Delcy Rodríguez mudou de posição tão drasticamente em relação a Maduro?
Porque o apoio americano era mais valioso do que a lealdade ao antigo chefe. Ela precisava consolidar poder, e Washington oferecia exatamente isso — legitimidade internacional e acesso a recursos.
Mas ela havia prometido publicamente que não descansaria até libertá-lo. Como explica essa reversão?
Promessas feitas sob pressão, quando você está consolidando controle, são frequentemente descartadas quando a situação muda. Uma vez que ela tinha o apoio dos EUA e havia substituído os líderes militares por aliados próprios, Maduro deixou de ser útil.
E quanto aos chavistas que ainda apoiam Maduro? Como eles veem isso?
Como uma traição fundamental. Para eles, Maduro não era apenas um líder — era o herdeiro do projeto revolucionário de Chávez. Abandoná-lo significa abandonar aquela visão inteira. Alguns acreditam que ele foi literalmente entregue aos americanos por pessoas próximas.
Os cartazes pedindo libertação foram retirados. Quem os retirou?
O texto não especifica, mas a implicação é clara: o regime permitiu ou ordenou sua remoção. É um apagamento simbólico — primeiro das ruas, depois da memória pública.
E a oposição? Eles estão satisfeitos com essas negociações?
Não. Estão divididos e frustrados. Sua líder mais popular, María Corina Machado, foi deixada de fora das conversas. A oposição também está questionando se está negociando com legitimidade.
Então Maduro fica preso indefinidamente?
Aparentemente, sim. O regime decidiu deixar o processo judicial americano seguir seu curso. Para Delcy, a prioridade agora é apenas uma: sobreviver politicamente.
O Pulso
- O regime que prometeu lutar pela libertação de Maduro passou cinco rodadas de negociação sem mencionar seu nome uma única vez.
- Delcy Rodríguez consolidou seu poder abrindo as reservas de petróleo da Venezuela a investidores estrangeiros em troca do apoio direto de Washington.
- Chavistas fiéis acusam o círculo íntimo de Maduro de tê-lo traído e entregue aos americanos, criando uma fratura interna no movimento.
- As negociações produziram resultados modestos — libertação parcialmente confirmada de presos políticos e conversas sobre ouro e reforma judicial — enquanto a oposição protestou pela exclusão de María Corina Machado.
- Maduro permanece preso no Brooklyn, sua esposa detida, e os murais que pediam sua libertação foram apagados das ruas de Caracas.
Em meio à queda de um líder que um dia pareceu inabalável, o regime venezuelano atravessa uma transição silenciosa e pragmática: Nicolás Maduro, preso nos Estados Unidos desde janeiro, foi gradualmente apagado do discurso oficial de seus próprios aliados. Delcy Rodríguez, que herdou o poder e o respaldo americano, escolheu a sobrevivência política sobre a lealdade — e essa escolha, feita sem cerimônia, revela como o poder raramente honra aqueles que o constroem.
Quando militares americanos capturaram Nicolás Maduro em janeiro, os líderes do regime venezuelano prometeram não descansar até libertá-lo. Jorge Rodríguez foi categórico. Delcy Rodríguez chamou a prisão de Maduro e de sua esposa Cilia Flores de "agressão vil". Cartazes e murais tomaram as cidades venezuelanas.
Mas durante quase duas semanas de negociações com a oposição, encerradas na semana passada, o regime não mencionou Maduro uma única vez. Para os observadores presentes nas cinco rodadas, a mensagem era clara: o ex-ditador havia sido abandonado à Justiça americana.
A lógica foi transacional. Após a captura de Maduro, Washington decidiu apoiar Delcy como nova liderança. Em troca, ela abriu as vastas reservas de petróleo do país a investidores estrangeiros, garantindo respaldo americano para consolidar seu poder. Substituiu líderes militares por aliados próprios e passou a falar de forma sucinta, sem o tom inflamado de seu antecessor — e sem mencioná-lo.
As negociações em si produziram pouco: discussões sobre a reconstrução pós-terremotos de junho, tentativas de repatriar cerca de 4 bilhões de dólares em ouro do Banco da Inglaterra e conversas sobre reforma judicial. O regime anunciou a libertação de 131 presos políticos, mas a organização Foro Penal confirmou apenas 78.
Nem todos aceitam o abandono. Chavistas de base como Ricardo García veem o que aconteceu como traição — acreditam que Maduro foi entregue aos americanos por seu próprio círculo. Para eles, abandonar Maduro é abandonar o projeto revolucionário de Hugo Chávez.
O analista Edward Rodríguez foi direto: "O destino dele já está selado. Eles deixarão o processo seguir seu curso enquanto se concentram em sobreviver." Os cartazes foram retirados. Os murais, apagados. Apenas alguns retratos do casal deposto ainda resistem em Caracas — cada vez mais isolados, cada vez menos mencionados.
Em janeiro, quando militares americanos capturaram Nicolás Maduro em uma operação noturna ousada, os líderes do regime venezuelano prometeram que não descansariam até libertá-lo. Jorge Rodríguez, presidente do Parlamento, foi categórico. Delcy Rodríguez, a vice que Maduro deixara para trás, classificou a prisão dele e de sua esposa Cilia Flores como um ato de "agressão vil". Cartazes pedindo a libertação do casal foram colados em cidades por toda a Venezuela. Murais pró-Maduro enfeitavam as ruas de Caracas.
Mas durante quase duas semanas de negociações com a oposição que terminaram na semana passada, o regime não mencionou Maduro uma única vez. Não apresentou exigências pela sua libertação. Não trouxe o assunto à mesa. Para quem estava observando de perto — e havia vários presentes nas cinco rodadas de negociação — a mensagem era cristalina: Maduro havia sido abandonado à Justiça americana.
O que mudou foi simples e transacional. Após a captura de Maduro em 3 de janeiro, a Casa Branca decidiu apoiar Delcy Rodríguez como a nova liderança do país. Em troca, ela abriu as portas. Os recursos naturais da Venezuela — aquelas vastas reservas de petróleo que fizeram a riqueza do país — foram oferecidos a investidores estrangeiros. Empresas americanas ganharam acesso direto. Para Washington, era um acordo que fazia sentido. Para Delcy, significava consolidar o poder com o respaldo da potência que importava.
As negociações em si produziram pouco de substância política. Os dois lados — regime e oposição — gastaram tempo discutindo como financiar a recuperação após os terremotos devastadores de junho. Concordaram em tentar repatriar cerca de 4 bilhões de dólares em ouro armazenado nos cofres do Banco da Inglaterra. Começaram a conversa sobre reforma do sistema judiciário. Ao final, o regime anunciou que havia libertado 131 presos políticos, embora a organização de direitos humanos Foro Penal conseguisse confirmar apenas 78.
Delcy consolidou seu poder de outras formas. Substituiu os principais líderes militares por aliados próprios. Diosdado Cabello, o poderoso chefe de segurança, também se aproximou de Washington. Seus discursos públicos marcam uma ruptura clara com o tom inflamado e populista de Maduro — ela fala pouco, de forma sucinta, e raramente menciona seu antigo chefe. Na declaração que fez após o encerramento das negociações, Maduro não foi mencionado.
Mas nem todos no regime aceitam esse abandono. Ricardo García, um chavista de base, expressou discordância com as negociações. Para ele e para muitos apoiadores fiéis de Maduro, o que aconteceu foi uma traição. Acreditam que Maduro foi sequestrado por integrantes de seu próprio círculo próximo e entregue aos americanos. Maduro, afinal, era o herdeiro escolhido a dedo do projeto socialista revolucionário de Hugo Chávez. Para seus seguidores mais fervorosos, abandoná-lo significava abandonar aquele projeto inteiro.
Edward Rodríguez, analista e consultor venezuelano, resumiu a situação de forma direta: "O destino dele já está selado", disse. "Eles deixarão o processo seguir seu curso enquanto se concentram em sua única prioridade: sobreviver." Maduro permanece preso no Brooklyn, respondendo a acusações relacionadas ao tráfico de drogas. Sua esposa continua detida. Os cartazes que pediam sua libertação foram retirados das cidades. Os murais foram apagados. Apenas alguns retratos gigantes do casal deposto ainda permanecem em Caracas — cada vez mais isolados, cada vez menos mencionados.
As negociações também geraram controvérsia na oposição, que viu sua líder mais popular, María Corina Machado, vencedora do Nobel, ser deixada de fora das conversas. O regime, por sua vez, não respondeu a pedidos de comentários sobre o assunto.
Citações Notáveis
O destino dele já está selado. Eles deixarão o processo seguir seu curso enquanto se concentram em sua única prioridade: sobreviver.— Edward Rodríguez, analista e consultor venezuelano
Discordo dessas negociações porque não se pode permitir que Trump continue nos impondo coisas enquanto o acordo nem sequer menciona o presidente que foi sequestrado.— Ricardo García, chavista de base