Nove distritos com grandes arenas e parques registraram aumento de 94% nas queixas de ruído pós-pandemia, com Alto de Pinheiros liderando com 133% de crescimento. Moradores documentam níveis de 70 decibéis dentro de residências, superando limites legais de 45-50 dB (7h-22h) e 40 dB (22h-7h), afetando sono e qualidade de vida.
Reclamações por ruído disparam 94% em bairros com arenas e parques de shows em SP
O que mais me assusta é a alta frequência dessas atividades
Por que o ruído de eventos é mais perturbador que o barulho do trânsito, se este é mais constante?
Porque a gente se acostuma com o que é previsível. O carro passa todo dia no mesmo horário. Mas um show que começa às 21h50 numa quarta-feira, quando você está tentando dormir, quebra a expectativa. É o inesperado que machuca.
Os números mostram 94% de aumento em nove distritos. Isso é muito ou pouco?
É muito. Significa que em menos de sete anos, o incômodo sonoro praticamente dobrou nesses lugares. E não é porque mais gente se mudou para lá. É porque os parques e arenas estão sendo usados muito mais intensamente para eventos.
A prefeitura diz que não dá para culpar só as arenas. Ela tem razão?
Tem razão em parte. O trânsito cresceu, as obras continuam. Mas os dados mostram que os distritos com arenas cresceram mais que o resto da cidade. Então sim, as arenas são um fator importante.
Se o Anhembi conseguiu reduzir reclamações, por que os outros não fazem o mesmo?
Porque custa caro. Reposicionar um palco, modernizar som, reduzir eventos externos — tudo isso diminui a receita. As concessionárias têm um modelo de negócio: quanto mais eventos, mais dinheiro. Fazer menos eventos é ir contra o lucro.
Então não tem solução?
Tem, mas exige regulação. Horários mais rigorosos, multas maiores, exigência de isolamento acústico. O Anhembi provou que é possível. A questão é se a cidade vai forçar os outros a fazerem o mesmo.
O Pulso
- Reclamações por ruído cresceram 94% em nove distritos com arenas e parques entre 2018-2019 e 2024-2025
- Alto de Pinheiros registrou maior aumento percentual: 133%, de 82 para 191 queixas
- Moradores documentaram 70 decibéis dentro de residências, superando limites legais de 45-50 dB (7h-22h) e 40 dB (22h-7h)
- Anhembi reduziu reclamações em 11% após medidas de reposicionamento de palco e modernização de som
Nove distritos com grandes arenas e parques registraram aumento de 94% nas queixas de ruído pós-pandemia, com Alto de Pinheiros liderando com 133% de crescimento. Moradores documentam níveis de 70 decibéis dentro de residências, superando limites legais de 45-50 dB (7h-22h) e 40 dB (22h-7h), afetando sono e qualidade de vida.
Reclamações por barulho ao Psiu cresceram 94% em distritos paulistanos com arenas e parques para eventos entre 2018-2019 e 2024-2025, gerando conflito entre moradores e concessionárias.
Há 25 anos, o engenheiro Ricardo Bressiani acordava para o som de pássaros no bairro City Boaçava, na zona oeste de São Paulo. O que antes era um terreno alagadiço havia se transformado, nos anos 1990, no parque Villa-Lobos, uma das principais áreas verdes da região. A vizinhança respirava tranquilidade. Mas nos últimos anos, essa paz desapareceu sob o estrondo de concertos musicais, megafones de animadores de corrida de rua e o barulho de montagens de palcos. O parque, agora intensamente explorado para eventos, virou uma fonte constante de incômodo.
Bressiani não está sozinho. As reclamações por ruído enviadas ao Psiu, o Programa Silêncio Urbano da prefeitura, dispararam em toda São Paulo. Comparando o período de 2018-2019 com 2024-2025, os números revelam um padrão claro: nos nove distritos que abrigam as principais arenas e parques de shows, as queixas cresceram 94%, saltando de 3.951 para 7.653 ocorrências. Mesmo nos demais bairros da cidade, o aumento foi de 86%, passando de 40,2 mil para 74,8 mil chamados. Os dados, extraídos pela plataforma de tecnologia urbana OSPA Place e analisados pela Folha, mostram que a dinâmica de utilização desses espaços é hoje um dos principais motivos de perturbação do sossego na capital.
Alto de Pinheiros, onde fica o Villa-Lobos, registrou o maior aumento percentual: 133%, com as ocorrências subindo de 82 para 191. Medições feitas por moradores documentaram picos de 70 decibéis dentro das residências, superando os limites legais de 45 a 50 decibéis permitidos entre 7h e 22h, e 40 decibéis entre 22h e 7h. "O que mais me assusta é a alta frequência dessas atividades, com mais de uma no mesmo dia", diz Bressiani, membro da Sociedade Amigos do Bairro City Boaçava, que encabeça ações para mitigar o incômodo.
O padrão se repete em outros pontos da cidade. A Consolação, distrito central que abriga o estádio do Pacaembu, viu as reclamações crescerem 101% após a conclusão da reforma do complexo, agora chamado Mercado Livre Arena Pacaembu. Operado por um consórcio privado desde 2020, o estádio ganhou uma dezena de espaços destinados à locação para eventos. Fábio Cabral, presidente da associação Viva Pacaembu, é direto: "O modelo econômico da concessionária é esse e, por isso, houve esse boom de reclamações". A jornalista Maria Prata, moradora do bairro, relatou em suas redes sociais a frustração de tentar colocar suas duas filhas para dormir às 21h50 de uma quarta-feira enquanto o som alto de um show entrava pela janela. "Que pesadelo", escreveu. Semanas depois, já após as 22h, ela voltou a relatar o excesso de ruído. As publicações receberam centenas de comentários de apoio de vizinhos.
Outros distritos acompanharam a tendência. Vila Mariana, que conta com o parque Ibirapuera, registrou 1.725 queixas no biênio pós-pandemia, com alta de 88%. Cidade Dutra, onde está o autódromo de Interlagos, registrou aumento de 114%. Itaquera, com a Neo Química Arena, crescimento de 107%. Perdizes, do Nubank Parque, avançou 106%. A Sé acumulou alta de 79%. Morumbi, local do estádio Morumbis, registrou variação de 64%. Barra Funda anotou avanço de 48%.
A prefeitura, sob gestão de Ricardo Nunes, afirma que não é correto atribuir os números de reclamações unicamente ao funcionamento de arenas, e que realiza fiscalizações do Psiu nos locais de grandes eventos. Mas especialistas apontam para uma realidade mais nuançada. Ranny Michalski, pesquisadora de paisagem sonora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, explica que embora o tráfego viário e aéreo sejam as principais fontes de ruído urbano, são as atividades ocasionais que mais geram estresse nos moradores. "Incomodam mais os ruídos que fogem da constância, como as obras e as atividades em casas de shows e eventos", diz. Marcelo Aquilino, pesquisador de conforto ambiental do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, acrescenta que a pandemia alterou a sensibilidade das pessoas ao ruído. "A residência passou a acumular funções de escritório, escola, oficina e lazer. Isso expôs deficiências de compartimentação acústica que antes não eram notadas".
Há, porém, um raro exemplo de sucesso. Santana, na zona norte, registrou redução de 11% nas queixas ao Psiu, apesar da presença do Anhembi, complexo que abriga o Sambódromo. A mudança veio de medidas adotadas após a concessão do espaço à multinacional GL Events em 2021: alteração na posição do palco, modernização do sistema de som e redução dos shows em áreas externas. Segundo o diretor-geral do Distrito Anhembi, Rodolfo Andrade, essas ações resultaram na diminuição dos transtornos causados à vizinhança. O exemplo sugere que é possível conciliar eventos e qualidade de vida, mas exige investimento e vontade política que nem todas as concessionárias demonstram ter.
Citações Notáveis
O modelo econômico da concessionária é esse e, por isso, houve esse boom de reclamações— Fábio Cabral, presidente da associação Viva Pacaembu
Incomodam mais os ruídos que fogem da constância, como as obras e as atividades em casas de shows e eventos— Ranny Michalski, pesquisadora de paisagem sonora da FAU-USP