Diante da iminente reforma tributária que promete elevar a alíquota do ITCMD de 4% para até 8%, as famílias capixabas correm aos cartórios para antecipar doações de imóveis enquanto as regras ainda permitem. Em 2025, o Espírito Santo registrou 2.064 escrituras de doação — o maior número de sua história —, revelando como mudanças legislativas moldam decisões íntimas sobre patrimônio e herança. O fenômeno é, ao mesmo tempo, um retrato da racionalidade familiar diante da incerteza fiscal e um sinal de que a reforma já reescreve comportamentos antes mesmo de entrar em vigor.
Reforma tributária dispara doações de imóveis a recorde no ES
A reforma tributária trouxe urgência a uma discussão que era postergada
Por que as famílias estão tão apressadas agora? Não poderiam simplesmente fazer isso depois?
Porque 2027 é a linha divisória. Se a lei estadual for aprovada em 2026, ela só vale a partir de 2027. Quem esperar vai pagar mais.
Mas quanto mais? De 4% para 8% é uma diferença real?
Para uma propriedade de um milhão de reais, a diferença é R$ 40 mil. Para patrimônios maiores, é muito mais. Por isso a pressa.
E essa coisa de usufruto — como funciona na prática?
Os pais doam a casa para o filho, mas continuam morando lá, recebendo aluguel se quiserem, controlando tudo. Só muda o dono no papel.
Então é legal? Não é uma brecha?
É totalmente legal. É planejamento sucessório. O que mudou é que agora há urgência porque as regras estão ficando mais caras.
E o Estado? Está ganhando mais com isso?
Paradoxalmente, sim. A arrecadação cresceu 134% em cinco anos. Mas quando as novas regras entrarem, pode ser que caia porque as pessoas vão estruturar melhor seus patrimônios.
Le Pouls
- A Lei Complementar nº 227/2026 obriga os estados a adotarem alíquotas progressivas no ITCMD, e a perspectiva de dobrar a tributação sobre heranças e doações gerou uma corrida sem precedentes aos cartórios capixabas.
- Em 2025, foram lavradas 2.064 escrituras de doação de imóveis no Espírito Santo — crescimento de 53% em relação a 2020 —, quebrando todos os recordes históricos da série.
- A estratégia mais adotada pelas famílias é a doação com reserva de usufruto, que transfere a propriedade aos filhos enquanto os pais mantêm o direito de uso e administração do bem durante a vida.
- O movimento já enche os cofres estaduais: a arrecadação do ITCMD saltou de R$ 104,9 milhões em 2020 para R$ 245,4 milhões em 2025, um aumento de 134% em cinco anos.
- 2026 é apontado como a última janela para agir sob as regras atuais — as mudanças só entram em vigor em 2027, respeitando os princípios constitucionais da anterioridade anual e da noventena.
- Até junho de 2026, já foram registradas 702 escrituras, indicando que o ritmo acelerado persiste e que o ponto de inflexão tributário se aproxima.
Diante da iminente reforma tributária que promete elevar a alíquota do ITCMD de 4% para até 8%, as famílias capixabas correm aos cartórios para antecipar doações de imóveis enquanto as regras ainda permitem. Em 2025, o Espírito Santo registrou 2.064 escrituras de doação — o maior número de sua história —, revelando como mudanças legislativas moldam decisões íntimas sobre patrimônio e herança. O fenômeno é, ao mesmo tempo, um retrato da racionalidade familiar diante da incerteza fiscal e um sinal de que a reforma já reescreve comportamentos antes mesmo de entrar em vigor.
Nos cartórios do Espírito Santo, um movimento silencioso e acelerado vem transformando o cotidiano do planejamento familiar. Em 2025, foram registradas 2.064 escrituras públicas de doação de imóveis — o maior número da série histórica —, representando um crescimento de 53% em relação a 2020. A explicação está na reforma tributária que se avizinha e no temor concreto de que a alíquota do ITCMD, hoje fixada em 4%, possa dobrar nos próximos anos.
A Lei Complementar nº 227/2026 obriga os estados que ainda adotam alíquota única a migrarem para um modelo progressivo, no qual a tributação cresce conforme o valor do patrimônio transferido. As projeções apontam para uma alíquota de até 8%, o que representa diferença substancial para famílias com bens de maior valor. Como as mudanças só entrarão em vigor em 2027 — por força dos princípios constitucionais da anterioridade anual e da noventena —, 2026 se configura como a última oportunidade de agir sob as regras atuais. Até junho deste ano, já foram lavradas 702 escrituras, mantendo o ritmo acelerado.
A estratégia mais comum é a doação com reserva de usufruto: os pais transferem a propriedade do imóvel aos filhos, mas preservam o direito de uso, moradia e administração do bem enquanto vivem. O mecanismo permite estruturar a sucessão patrimonial sem abrir mão do controle, além de evitar que futuras valorizações imobiliárias ampliem a base de cálculo do imposto.
O reflexo nos cofres estaduais é imediato: a arrecadação do ITCMD saltou de R$ 104,9 milhões em 2020 para R$ 245,4 milhões em 2025, alta de 134% em cinco anos. Para Marcio Romaguera, presidente do Sindicato dos Notários e Registradores do Espírito Santo, a reforma trouxe urgência a uma discussão que muitas famílias adiavam. O que está em jogo é a tentativa de preservar patrimônio em um momento de transição regulatória — e a corrida aos cartórios já anuncia que 2027 pode marcar um ponto de inflexão tanto para as famílias quanto para as finanças do Estado.
Nos cartórios do Espírito Santo, algo incomum está acontecendo. As famílias capixabas estão correndo para registrar doações de imóveis antes que as regras mudem. Em 2025, os Cartórios de Notas do Estado registraram 2.064 escrituras públicas de doação — o maior número já visto em toda a série histórica. Comparado a 2020, quando foram realizados 1.346 atos, o crescimento é de 53%. A explicação para essa pressa está na reforma tributária que se aproxima.
O medo é concreto. Hoje, o Espírito Santo aplica uma alíquota única de 4% sobre heranças e doações, independentemente do valor do patrimônio transferido. Mas a Lei Complementar nº 227/2026 vai mudar isso. Os estados que ainda usam esse modelo serão obrigados a adotar alíquotas progressivas, nas quais a tributação aumenta conforme o valor dos bens transferidos. As projeções indicam que essa alíquota pode chegar a 8% nos próximos anos. Para famílias com patrimônio significativo, a diferença é substancial.
O movimento não começou do nada. Em 2024, já havia ocorrido uma expansão — 1.982 transferências contra 1.693 em 2023. Mas 2025 marcou o pico. E há um detalhe importante: 2026 pode ser a última oportunidade para fazer doações sob as regras atuais. Qualquer alteração aprovada este ano deverá respeitar os princípios constitucionais da anterioridade anual e da noventena, o que significa que as mudanças só passam a valer a partir de 2027. Até junho de 2026, foram registradas 702 escrituras, mantendo o ritmo acelerado.
Esse comportamento das famílias tem um reflexo direto nos cofres estaduais. O imposto sobre transmissão de bens (ITCMD) gerou R$ 104,9 milhões ao Estado em 2020. Em 2025, esse valor alcançou R$ 245,4 milhões — um crescimento de 134% em cinco anos. A arrecadação sobe enquanto as famílias tentam escapar de futuras aumentos.
A estratégia mais comum entre as famílias é a doação com reserva de usufruto. Nesse mecanismo, os pais transferem a propriedade do imóvel aos filhos, mas mantêm para si o direito de uso, moradia, administração e recebimento de rendimentos do bem durante toda a vida. Dessa forma, é possível fazer o planejamento sucessório sem abrir mão do controle sobre o patrimônio. Além disso, a doação antecipada evita que futuras valorizações imobiliárias ampliem a base de cálculo do imposto e oferece maior previsibilidade para a organização patrimonial familiar.
Marcio Romaguera, presidente do Sindicato dos Notários e Registradores do Espírito Santo, observa que a procura por soluções de planejamento sucessório vem crescendo em todo o país. A reforma tributária trouxe urgência a uma discussão que, em muitos casos, era postergada pelas famílias. Diante da possibilidade de impactos tributários futuros, aumentou o interesse por mecanismos que permitam estruturar a sucessão patrimonial de forma segura, transparente e juridicamente possível.
O que está em jogo é mais do que números. É a tentativa de famílias capixabas de preservar patrimônio e reduzir custos futuros com impostos em um momento de transição regulatória. A corrida aos cartórios é um sinal de que a reforma tributária já está mudando comportamentos — e que 2027 pode marcar um ponto de inflexão tanto para as famílias quanto para a arrecadação estadual.
Citations marquantes
A reforma tributária trouxe urgência a uma discussão que, em muitos casos, era postergada pelas famílias. Diante da possibilidade de impactos tributários futuros, aumentou o interesse por mecanismos que permitam estruturar a sucessão patrimonial de forma segura, transparente e juridicamente possível.— Marcio Romaguera, presidente do Sindicato dos Notários e Registradores do Espírito Santo