Na primeira semana de campanha ao governo de Pernambuco, Raquel Lyra e João Campos revelam que a política contemporânea não separa mais o ato de governar do ato de comunicar. Com mais de 100 publicações combinadas em cinco dias e 7 milhões de seguidores nas redes, os dois candidatos travam uma disputa simbólica onde a linguagem digital tornou-se o novo território do poder. Especialistas lembram, porém, que audiência não é comunidade — e que a conversão de seguidores em votos exige algo que os algoritmos não entregam sozinhos: confiança genuína.
Raquel Lyra e João Campos intensificam redes sociais na primeira semana de campanha em PE
Comunidades participam, defendem, compartilham; seguidores apenas assistem
Por que Raquel Lyra e João Campos publicaram mais de 100 posts em apenas cinco dias? Isso não parece excessivo?
Não é excessivo considerando o contexto. O horário eleitoral gratuito ainda não havia começado, então as redes sociais eram o principal canal de comunicação disponível. Ambos estavam em uma corrida para estabelecer narrativas e ocupar espaço na atenção do eleitor.
Qual é a diferença fundamental entre as estratégias dos dois?
João Campos trabalha com informalidade, humor e cultura digital — ele virou meme, virou personagem nacional. Raquel Lyra trabalha com acessibilidade emocional, mostrando gestão, obras, proximidade. Um é descontraído; a outra é próxima e humana, mas ainda governadora.
João Campos tem mais seguidores. Isso o coloca em vantagem?
Não necessariamente. Ele está em um momento de readequação de imagem. Quando era prefeito, a informalidade funcionava. Agora, pesquisas qualitativas mostram que as pessoas esperam que um governador seja mais sério, mais austero. Ele está ajustando sua conduta para se viabilizar como candidato competitivo.
E Raquel Lyra? Ela estava atrás nas pesquisas.
Estava. Mas compreendeu que gestão sozinha não gera engajamento digital. Precisava trazer espontaneidade, quebrar a formalidade. Na última pesquisa Quaest, ela ultrapassou Campos. Estão empatados na margem de erro.
Os especialistas dizem que seguidores não garantem votos. O que realmente importa?
Comunidades. Seguidores assistem; comunidades participam, defendem, compartilham e levam a narrativa adiante. É a diferença entre ter uma audiência que pertence à plataforma e ter um projeto político que estabelece vínculos reais com as pessoas.
O Pulso
- A corrida digital em Pernambuco já começou antes do horário eleitoral gratuito: Lyra e Campos somaram mais de 100 posts em apenas cinco dias, deixando os demais candidatos sem expressão nas plataformas.
- João Campos lidera em seguidores com 4,4 milhões e aposta em humor, vídeos virais e referências da cultura digital para parecer próximo — enquanto Lyra, com 2,8 milhões, constrói a imagem de uma autoridade acessível e emocional, usando o apelido 'mainha' e cenas do cotidiano.
- O Instagram tornou-se o campo de batalha central: Lyra é a segunda governadora mais seguida do Brasil na plataforma, e a equipe de comunicação de Campos foi recrutada para trabalhar com o presidente Lula, revelando o peso estratégico dessa disputa.
- Especialistas alertam que o verdadeiro desafio não é acumular seguidores, mas transformar audiências passivas em comunidades engajadas que defendam, compartilhem e ampliem as narrativas dos candidatos.
- Quem vencer a eleição, segundo analistas, será aquele que souber articular atenção, confiança e mobilização real — não apenas publicar mais ou ter mais curtidas.
Na primeira semana de campanha ao governo de Pernambuco, Raquel Lyra e João Campos revelam que a política contemporânea não separa mais o ato de governar do ato de comunicar. Com mais de 100 publicações combinadas em cinco dias e 7 milhões de seguidores nas redes, os dois candidatos travam uma disputa simbólica onde a linguagem digital tornou-se o novo território do poder. Especialistas lembram, porém, que audiência não é comunidade — e que a conversão de seguidores em votos exige algo que os algoritmos não entregam sozinhos: confiança genuína.
Na primeira semana oficial de campanha em Pernambuco, Raquel Lyra e João Campos dominaram as redes sociais com uma intensidade que poucos candidatos ao governo estadual já demonstraram. Entre 16 e 21 de agosto, antes mesmo do início do horário eleitoral gratuito, os dois publicaram juntos mais de 100 posts e somam mais de 7 milhões de seguidores nas principais plataformas. Os demais candidatos ficam muito distantes, sem ultrapassar 100 mil seguidores cada.
A estratégia de cada um reflete visões distintas sobre como conquistar o eleitor digital. Campos, com 4,4 milhões de seguidores, aposta em vídeos curtos, humor e referências da cultura das redes — uma linguagem que o tornou o prefeito de capital mais seguido do Brasil no Instagram antes de deixar o cargo. Na primeira semana, destacou o apoio do presidente Lula em seis publicações e resgatou a memória do pai, o ex-governador Eduardo Campos. Lyra, com 2,8 milhões de seguidores, construiu uma comunicação que mistura autoridade institucional com espontaneidade: aparece em obras, abraça eleitores, pilota tratores e usa o apelido carinhoso 'mainha' para aproximar sua imagem da população.
O Instagram consolidou-se como infraestrutura central da disputa. Lyra é a segunda governadora mais seguida do Brasil na plataforma, atrás apenas de Tarcísio de Freitas. O sucesso digital de Campos foi tão reconhecido que membros de sua equipe de comunicação foram recrutados para trabalhar com Lula em Brasília.
Mas especialistas fazem um alerta importante: seguidores não são votos. Segundo a cientista política Rosário de Pompeia, os algoritmos premiam conteúdos que geram atenção e reação emocional, mas muitos políticos ainda usam as redes como uma televisão menor — falam e publicam sem escutar ou interagir. A vitória, segundo ela, dependerá de quem conseguir transformar audiências passivas em comunidades genuínas: pessoas que participam, defendem e levam a narrativa para suas próprias redes. É essa passagem — de seguidor a militante digital — que converte presença online em força eleitoral real.
Na primeira semana oficial de campanha em Pernambuco, dois nomes dominam as redes sociais: Raquel Lyra, a governadora que busca reeleição, e João Campos, o ex-prefeito do Recife que deixou o cargo para concorrer ao governo estadual. Entre 16 e 21 de agosto, enquanto aguardavam o início do horário eleitoral gratuito — conhecido localmente como guia eleitoral —, ambos intensificaram sua presença digital de forma notável. Juntos, publicaram mais de 100 posts em cinco dias e comandam a audiência nas principais plataformas, somando mais de 7 milhões de seguidores.
A estratégia não é casual. Segundo Rosário de Pompeia, jornalista e cientista política especializada em marketing, Pernambuco possui uma tradição política profundamente personalista, onde a política transcende a administração e se entrelaça com identidade, território e disputa simbólica. Os dois principais candidatos compreenderam que na política contemporânea, governar e comunicar acontecem simultaneamente. Lyra publicou 61 posts no período — média de 12 por dia — enquanto Campos veiculou 47, totalizando 9 diários. Campos lidera em seguidores totais com 4,4 milhões, enquanto Lyra possui 2,8 milhões. Os demais candidatos ficam significativamente distantes, nenhum ultrapassando 100 mil seguidores.
As abordagens diferem substancialmente. João Campos construiu uma presença fortemente ancorada na linguagem das plataformas digitais: vídeos curtos, humor, referências da cultura digital, exposição da vida cotidiana. Seu pico de repercussão ocorreu durante o carnaval de 2024, quando "nevou" os cabelos — um gesto que o transformou em personagem nacional da cultura digital. No Instagram, onde possui 3 milhões de seguidores, ele era o prefeito de capital mais seguido do Brasil antes de deixar o cargo. Na primeira semana de campanha, seis de suas postagens destacaram o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, incluindo dois vídeos gravados ao lado do petista. Campos também resgatou a memória do pai, o ex-governador Eduardo Campos, com material que conecta sua candidatura à herança política familiar.
Raquel Lyra, por sua vez, constrói uma comunicação que aproxima a imagem institucional da governadora de uma autoridade mais acessível e emocional. Ela aparece em obras, viagens, festas, entregas e encontros com a população. Na primeira semana, apostou no apelido "mainha" — expressão carinhosa que permeia seus vídeos e cards. Suas postagens mostram caminhadas, abraços com eleitores, encontros com a militância, aparições ao lado de policiais militares conhecidos como "laranjinhas", e até o momento em que pilota um trator durante entrega de obras. A cor roxa predomina em seu material, assim como as cores da bandeira de Pernambuco. Segundo Priscila Lapa, outra cientista política entrevistada, Lyra enfrentou dificuldades iniciais em sua comunicação estratégica, confiando excessivamente em sua capacidade de gestão. Com o tempo, compreendeu que era necessário trazer maior espontaneidade, menos formalidade, quebrando a imagem anterior.
O Instagram emergiu como infraestrutura central da disputa. Com mais de 130 milhões de usuários no Brasil, a plataforma deixou de ser apenas um canal de divulgação e passou a funcionar como espaço onde candidatos constroem reconhecimento, estabelecem relação cotidiana com eleitores, testam narrativas e mobilizam apoiadores. Raquel Lyra ocupa o segundo lugar no ranking de governadores brasileiros mais seguidos no Instagram, com 1,9 milhão de seguidores, ficando atrás apenas de Tarcísio de Freitas, de São Paulo, que possui 6,4 milhões. O sucesso de Campos foi tão significativo que membros de sua equipe de comunicação foram recrutados para trabalhar com o presidente Lula em Brasília.
Porém, especialistas alertam que o número de seguidores não garante votos. Pompeia observa que as plataformas não são neutras — seus algoritmos determinam o que ganha visibilidade, premiando conteúdos capazes de produzir atenção, interação e reação emocional. Estar nas redes sociais não significa saber operar politicamente nelas. Muitos políticos funcionam como "analógicos com perfis digitais", usando Instagram, TikTok ou YouTube como televisão em tela menor: falam, publicam e anunciam, mas não escutam, não interagem, não formam comunidades. A disputa será vencida, segundo Pompeia, por quem conseguir articular cinco capacidades: conquistar atenção, interpretar narrativas, construir confiança, formar comunidades e gerar conversão. O diferencial decisivo será a criação de comunidades genuínas. Enquanto seguidores assistem passivamente, comunidades participam, defendem, compartilham, respondem a ataques e levam a narrativa para suas próprias redes. É essa passagem de audiência para comunidade que transforma presença digital em força eleitoral real.
Citações Notáveis
Aqui, política não é apenas administração: envolve identidade, território, pertencimento, festa, linguagem e disputa simbólica— Rosário de Pompeia, cientista política e especialista em marketing
O grande diferencial será a criação de comunidades. Seguidores assistem; comunidades participam, defendem, compartilham, respondem a ataques, produzem conteúdo e levam a narrativa para suas próprias redes— Rosário de Pompeia