Evasão silenciosa: falta de acolhimento afasta estudantes LGBTQIA+ das escolas no DF

Estudantes LGBTQIA+ são sistematicamente afastados das escolas por violência, preconceito e falta de acolhimento, com impacto direto em suas trajetórias educacionais e oportunidades de vida.
O aluno trans não evade, ele é evadido
Psicólogo Vinícius Mota redefine o problema: não é abandono voluntário, é expulsão sistemática.
Mark

Por que a linguagem é tão central nessa história de exclusão?

Mimi

Porque a linguagem é identidade. Quando a escola rejeita a forma como alguém fala, seus trejeitos, sua expressão, ela está rejeitando a pessoa inteira. Não é só sobre bullying verbal — é sobre ser apagado.

Mark

E por que os números de evasão entre jovens trans são tão mais altos?

Mimi

Porque não é só insegurança. É a falta de reconhecimento básico — nome social não respeitado, uniforme que não corresponde à identidade, banheiros que não são seguros. A pessoa não abandona a escola por fraqueza. Ela é expulsa por um ambiente que a rejeita.

Mark

A Secretaria de Educação diz que faz ações de acolhimento. Por que isso não está funcionando?

Mimi

Porque ações formativas e encontros não mudam a cultura de uma escola. E porque, como o psicólogo Vinícius Mota aponta, sem dados, sem saber quantos estudantes trans estão nas escolas, é impossível criar políticas reais. Você não pode resolver um problema que não consegue medir.

Mark

Jaqueline Gomes de Jesus conseguiu. O que a diferencia?

Mimi

Ela teve resiliência extraordinária, sim. Mas ela mesma diz que não deveria ser exceção. O sucesso dela é importante justamente porque mostra que é possível — mas também mostra como é raro. Ela tivera que lutar por reconhecimento em cada etapa.

Mark

O que muda com um livro como o de Marcus Maciel?

Mimi

Oferece referência. Oferece esperança. Mas também documenta a realidade de exclusão. Não é só inspiração — é testemunho. E testemunho é o primeiro passo para que a sociedade reconheça que isso é um problema estrutural, não individual.

  • Nove em cada dez estudantes LGBTQIA+ enfrentam agressão verbal nas escolas brasileiras, e 60% dos jovens trans já consideraram abandonar a educação básica — uma crise silenciosa que o Pajubá nomeia com precisão: 'acuendar'.
  • No DF, apenas 26,1% da população transgênero chega ao ensino superior, enquanto metade dos estudantes LGBTQIA+ da rede pública relata ter sido vítima de violência sistemática — e menos de 20% dos professores se sentem capazes de enfrentar a LGBTQIAfobia em sala de aula.
  • Educadores como o psicólogo Vinícius Mota criam projetos premiados de acolhimento, mas alertam que iniciativas isoladas não substituem políticas públicas — e que políticas públicas não existem sem dados, que o poder público ainda não coleta de forma estruturada.
  • A Secretaria de Educação do DF afirma realizar ações formativas e promover o uso do nome social, mas especialistas e educadores apontam que as respostas institucionais ainda são insuficientes diante da escala e da urgência do problema.
  • Um livro a ser lançado em Brasília reúne histórias de pessoas trans que romperam a barreira da exclusão escolar — um gesto cultural e político que busca oferecer referências positivas onde o sistema ainda falha em garanti-las.

Há um silêncio que não é paz: é o silêncio de quem foi empurrado para fora. Nas escolas do Distrito Federal e de todo o Brasil, estudantes LGBTQIA+ — especialmente jovens trans — enfrentam uma expulsão que raramente aparece nos registros oficiais, mas que se inscreve com precisão nas trajetórias interrompidas e nas portas que nunca chegaram a se abrir. Pesquisas de 2024 e 2025 revelam que 90% desses estudantes sofrem agressão verbal e que apenas 26,1% da população trans no DF alcança o ensino superior — números que traduzem, em estatística, o custo humano de uma escola que ainda não aprendeu a acolher a todos.

A palavra existe antes do problema ser nomeado oficialmente: 'acuendar', do Pajubá — o dialeto da comunidade LGBTQIA+ —, descreve a expulsão silenciosa de jovens das escolas por preconceito, insegurança e falta de acolhimento. Uma pesquisa nacional de 2024 revelou que 90% dos estudantes LGBTQIA+ sofrem agressão verbal, e que 60% dos jovens trans já consideraram abandonar a educação básica. No Distrito Federal, os números confirmam o padrão: apenas 26,1% da população transgênero atinge o ensino superior, índice inferior até à média da população cisgênero.

Foi essa realidade que levou o professor Marcus Maciel a escrever 'Pajubá me Acuendou da Escola', lançado neste domingo em Brasília. O livro reúne cinco histórias de pessoas trans que conseguiram romper a barreira da exclusão. Uma delas é Jaqueline Gomes de Jesus, psicóloga, pesquisadora e primeira mulher trans a receber o Diploma Bertha Lutz. Para ela, o desafio não é apenas estar na escola — é ser reconhecida como igual. 'Temos que criar mais oportunidades para que o sucesso não seja uma exceção', afirma.

No chão das escolas públicas do DF, o psicólogo Vinícius Mota criou o 'Observatório de Convivência Estudantil', projeto premiado nacionalmente que oferece acolhimento e suporte à saúde mental de estudantes LGBTQIA+. Mas Mota é enfático: o esforço individual não basta. 'O aluno trans não evade da escola — ele é evadido', diz. E aponta uma lacuna estrutural: sem dados quantificados sobre evasão e violência, é impossível formular políticas públicas efetivas. A Secretaria de Educação do DF afirma orientar as escolas a registrar ocorrências e acolher vítimas, mas a ausência de métricas sistemáticas permanece como obstáculo central para qualquer avanço real.

A sala de aula deveria ser um lugar de aprendizado e crescimento. Para muitos estudantes LGBTQIA+ no Brasil, ela é algo bem diferente: um espaço onde a insegurança prevalece, onde a linguagem e os trejeitos podem fechar portas de forma permanente. Uma pesquisa nacional de 2024 da Aliança Nacional LGBTI+ sobre bullying nas escolas brasileiras revelou que cerca de 90% dos estudantes LGBTQIA+ sofrem agressão verbal. O número é alarmante, mas há outro que talvez seja ainda mais revelador: 60% dos jovens trans já consideraram abandonar a educação básica, comparado com 42% entre estudantes cisgênero. A comunidade LGBTQIA+ tem até um termo em Pajubá — o dialeto próprio do grupo — para descrever essa expulsão silenciosa: "acuendar".

Essa realidade inspirou o professor Marcus Maciel a escrever um livro que será lançado em Brasília neste domingo. "Pajubá me Acuendou da Escola" reúne cinco histórias de pessoas trans que conseguiram romper essa barreira. Durante suas pesquisas, Maciel ouviu de uma pessoa trans que sua própria linguagem, sua forma de falar, seus trejeitos fecharam as portas da escola. A frase o marcou. "A linguagem tirou e tira muita gente da escola por preconceito", explica ele. O livro busca oferecer contrapontos a esse panorama de exclusão, mostrando que é possível perseverar.

Uma das histórias no livro é a de Jaqueline Gomes de Jesus, brasiliense, psicóloga, pesquisadora e professora universitária. Ela foi a primeira mulher trans a receber o Diploma Bertha Lutz, prêmio que reconhece contribuições relevantes à defesa dos direitos da mulher e questões de gênero. Jaqueline descreve que um dos principais desafios durante sua formação foi a aceitação. Para ela, o espaço escolar e universitário precisa de políticas e formas de acolhimento muito mais robustas. "O grande desafio para pessoas trans na academia não é necessariamente ser aluna. O problema é ser reconhecida como um igual", afirma. Ela enfatiza que é preciso uma educação e formação que vá além da obrigatoriedade de estar na escola. Jaqueline destaca a importância de obras como a de Maciel, especialmente para jovens LGBTQIA+ que precisam de referências positivas. "Apesar de toda dificuldade, é possível. Temos que criar mais oportunidades para que não sejamos exceções, para que o sucesso não seja uma exceção."

No Distrito Federal, os números revelam um cenário de exclusão educacional. Menos da metade da população LGBTQIA+ — cerca de 40,9% — atinge o ensino superior, segundo a pesquisa Retratos 2024 do Instituto de Pesquisa e Estatística do DF. Entre pessoas transgênero, esse índice despenca para 26,1%, abaixo até da média entre a população cisgênero, que é de 33,8%. Na rede pública do DF, 50% dos estudantes LGBTQIA+ foram vítimas de violência sistemática e recorrente, sendo que 17,1% desses casos eram motivados pela orientação sexual. Um relatório de 2025 sobre bullying no ambiente escolar do Distrito Federal mostrou ainda que menos de 20% dos professores se sentem muito capazes de abordar LGBTQIA+fobia em sala de aula.

Em resposta, a Secretaria de Educação do DF informou que realiza ações formativas sobre diversidade sexual, prevenção da homotransfobia e acolhimento de estudantes LGBTQIA+, com base no Currículo em Movimento e outras normativas. A pasta também promove encontros sobre uso do nome social, retificação de documentos e uso de banheiros por estudantes trans. Mas no plano nacional, os dados continuam preocupantes: 57% dos alunos trans afirmaram já ter deixado de ir à escola por se sentirem inseguros, e 30% dos jovens trans consideraram a evasão de forma "muito séria" — quase o triplo do índice entre jovens cisgênero, que é de 11%.

Alguns educadores têm buscado transformar essa realidade de forma prática. No Centro de Ensino Médio Escola Industrial de Taguatinga, o psicólogo Vinícius Mota criou um projeto voltado especificamente para o acolhimento e a saúde mental de estudantes LGBTQIA+. Seu "Observatório de Convivência Estudantil" foi premiado nacionalmente por criar um espaço de acolhimento entre jovens trans dentro da escola. Mota também integra a ONG Minha Criança Trans, que oferece apoio psicológico e jurídico a pais e jovens trans. Mas ele faz um alerta importante: o apoio entre estudantes e educadores não é suficiente. "O aluno LGBT, em especial o aluno trans, ele não evade da escola, ele é evadido. Se estou em um ambiente onde não respeita meu nome social, onde não me oferece segurança, um uniforme adequado, onde eu possa me expressar conforme me sinto, eu não vou ficar nesse espaço."

Mota destaca que faltam dados quantificados para formular políticas públicas efetivas. "Eu não posso pensar em políticas públicas de inserção e acolhimento se não tenho isso quantizado. Se não tenho dados, não tenho onde recorrer. Como vou criar políticas se nem sei onde esse pessoal está?" Quando questionada sobre a falta de dados, a Secretaria de Educação respondeu que as escolas são orientadas a acolher as vítimas, registrarem os fatos e adotarem providências cabíveis, respeitando direitos humanos e cultura de paz. O lançamento do livro de Maciel acontece neste domingo às 17h na Casa de Chá, na Praça dos Três Poderes, em Brasília — um espaço para contar histórias de quem conseguiu furar a bolha da exclusão.

A linguagem tirou e tira muita gente da escola por preconceito
— Professor Marcus Maciel
O grande desafio para pessoas trans na academia não é ser aluna. O problema é ser reconhecida como um igual
— Jaqueline Gomes de Jesus, primeira mulher trans a receber o Diploma Bertha Lutz
Eu não posso pensar em políticas públicas de inserção e acolhimento se não tenho dados quantificados
— Psicólogo Vinícius Mota
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