Radioterapia: 60 serviços brasileiros se mobilizam por acesso igualitário ao tratamento

Pacientes com câncer em diferentes regiões do Brasil enfrentam desigualdades no acesso à radioterapia, afetando possibilidades de cura, controle da doença e alívio de sintomas.
Investir em radioterapia é investir em infraestrutura permanente
Almeida Jr. argumenta que a radioterapia deve estar no centro do planejamento oncológico nacional, não à margem.
Mark

Por que 60 serviços de radioterapia se mobilizaram especificamente agora, em setembro?

Mimi

O Dia Mundial da Radioterapia, celebrado em 7 de setembro, é uma data internacional de conscientização. A SBRT e a SOLAR aproveitaram esse momento para amplificar a mensagem sobre os desafios de acesso no Brasil e na América Latina.

Luke

Mas 60 serviços de 263 existentes — isso é menos de um quarto. Sabemos por que os outros 203 não participaram? É falta de interesse, falta de recursos para gravar um vídeo, ou simplesmente não foram convidados?

Mark

Os líderes falam muito sobre "sustentabilidade" e "financiamento". Qual é exatamente o problema financeiro?

Mimi

O Brasil paga um dos menores reembolsos por tratamento de radioterapia na América Latina, apesar de ter o segundo maior parque de equipamentos. Os centros têm custos operacionais altos — manutenção, equipes especializadas, atualização tecnológica — mas recebem pouco do sistema público.

Luke

Eles dizem que há dependência de doação de máquinas. Mas quantas máquinas são doadas por ano? Quantos centros funcionam com equipamentos obsoletos? Esses números não aparecem no material.

Mark

A radioterapia é realmente tão importante assim no tratamento do câncer?

Mimi

Sim. Pode ser usada com intenção curativa, combinada com cirurgia ou quimioterapia, para controlar a doença ou aliviar sintomas. Participa do tratamento de uma parcela expressiva dos pacientes com câncer e, em muitos casos, é decisiva para a cura.

Luke

Mas o material não diz qual é essa "parcela expressiva". É 30% dos pacientes? 70%? Sem esse número, fica difícil avaliar se a falta de acesso é um problema de alguns ou de muitos.

Mark

As mensagens regionais — "Uma voz pelo acesso", "Uma voz pela equidade" — parecem sugerir que o problema é diferente em cada região. É verdade?

Mimi

Provavelmente. O Brasil é grande e desigual. O Norte pode ter menos centros e mais dificuldade de acesso. O Nordeste pode ter questões de equidade. Mas as mensagens foram escolhidas pela SBRT, não necessariamente refletem diagnósticos específicos de cada região.

Luke

Exatamente. Não sabemos se essas mensagens foram definidas com base em dados regionais ou se foram apenas slogans bem-intencionados. Seria importante saber.

Mark

O que muda com essa mobilização? Algo vai ser diferente em 8 de setembro?

Mimi

Não imediatamente. Mas quando a comunidade médica apresenta dados e propostas de forma coordenada, aumenta sua capacidade de dialogar com governos e formuladores de políticas. É um passo para colocar a radioterapia no centro do planejamento oncológico nacional.

Luke

Mas isso é esperança, não certeza. A história está cheia de campanhas bem-organizadas que não resultaram em mudança de política. Precisaríamos acompanhar se, nos próximos meses, há movimento real no orçamento, nas políticas de reembolso ou na distribuição de recursos.

  • 60 serviços de radioterapia de 21 estados e DF participaram da ação
  • Brasil possui 263 serviços de radioterapia (dados de 2021)
  • Brasil tem o segundo maior parque radioterápico das Américas, mas um dos menores reembolsos por tratamento
  • SOLAR representa aproximadamente 1,7 mil radio-oncologistas e conecta mais de 4 mil profissionais na América Latina

60 centros de radioterapia de 21 estados e DF participam de ação nacional com mensagens regionais sobre acesso, equidade, ciência, cura e cuidado. Radioterapia é essencial no tratamento do câncer, mas enfrenta desafios de infraestrutura, recursos humanos qualificados e reembolsos insuficientes no Brasil.

Sessenta serviços de radioterapia de todo o Brasil unem-se em campanha para o Dia Mundial da Radioterapia, destacando desafios de acesso, equidade e financiamento no tratamento do câncer.

Sessenta serviços de radioterapia espalhados pelas cinco regiões do Brasil se uniram para uma ação coordenada no Dia Mundial da Radioterapia, marcado para 7 de setembro. Equipes de 21 estados e do Distrito Federal gravaram vídeos curtos — sete segundos cada, em formato vertical — transmitindo uma mensagem comum sobre a importância do tratamento, mas com ênfases regionais distintas. No Norte, o foco foi "Uma voz pelo acesso"; no Nordeste, "Uma voz pela equidade"; no Centro-Oeste, "Uma voz pela ciência"; no Sudeste, "Uma voz pela cura"; e no Sul, "Uma voz pelo cuidado". Esses registros foram compilados em uma peça nacional lançada no dia 7, mostrando profissionais de diferentes partes do país falando em torno de uma mesma causa. A iniciativa é conduzida pela Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), em parceria com a federação que reúne as Sociedades Latino-americanas de Radioterapia (SOLAR).

A participação de 60 serviços ganha perspectiva quando se considera a estrutura geral do país. Segundo o relatório RT2030, publicado em 2021 pela SBRT, o Brasil possuía 263 serviços de radioterapia naquele ano. Manter e expandir essa oferta, porém, vai muito além de instalar equipamentos. Cada centro depende de manutenção contínua, infraestrutura robusta, financiamento estável e equipes multidisciplinares especializadas — radio-oncologistas, físicos médicos, técnicos, tecnólogos, dosimetristas, profissionais de enfermagem e outros profissionais envolvidos no cuidado.

Arthur Accioly Rosa, radio-oncologista e ex-presidente da SBRT, vê na mobilização de profissionais de diferentes regiões uma oportunidade de tornar visíveis os contrastes que marcam o país e afetam diretamente a radioterapia. Ele ressalta que o trabalho conjunto da comunidade já demonstra resultados, mas reconhece o desafio permanente: curar o câncer todos os dias, com organização e energia suficientes para alcançar as pessoas e comunicar a importância de uma radioterapia segura, efetiva e acessível. Rosa também destaca que a radioterapia acumula mais de um século de desenvolvimento científico. A especialidade evoluiu significativamente na capacidade de localizar tumores, calcular e administrar doses com precisão, e preservar tecidos saudáveis ao redor. Hoje, os profissionais conseguem ser mais precisos e efetivos, os efeitos colaterais diminuíram, os processos melhoraram, o monitoramento do movimento dos tumores permite entregar doses personalizadas de acordo com as necessidades de cada paciente, e os resultados clínicos são cada vez melhores e mais consistentes.

Apesar dessa evolução, a radioterapia ainda convive com desconhecimento e receios associados à própria palavra "radiação". A modalidade pode ser empregada em diferentes momentos da jornada oncológica — com intenção curativa, combinada à cirurgia ou aos tratamentos sistêmicos, para reduzir o risco de retorno da doença, ou para aliviar sintomas como dor, sangramento e compressões provocadas pelo câncer. Sua importância no tratamento é inegável, mas o acesso permanece desigual.

Wilson José de Almeida Jr., presidente da SBRT e membro do board da SOLAR, alerta para um problema estrutural: o Brasil tem um dos menores reembolsos por tratamento realizado na saúde pública quando comparado aos demais países da América Latina, mesmo possuindo o segundo maior parque radioterápico das Américas. Incrementar os valores de custeio dos tratamentos é essencial para a sustentabilidade da radioterapia nacional. Arthur Rosa complementa essa análise apontando que os serviços sofrem com investimentos altos, custos operacionais elevados e dependência de doação de máquinas no sistema público — uma estratégia que já se mostrou ineficiente. Há carências de recursos humanos e tecnologia, inseridas em um ecossistema tributário desafiador, com perspectivas de aumento de impostos no curto prazo, movimento que deveria ser o contrário.

Almeida Jr. enfatiza que outro agravante está na diferença na oferta e na capacidade de atendimento dentro do território brasileiro. A mobilização de serviços nas cinco regiões transmite a mensagem de que o acesso à radioterapia precisa ser tratado como uma prioridade de saúde pública e como parte essencial da política de controle do câncer no Brasil. Segundo ele, a radioterapia precisa ser considerada desde o planejamento da assistência oncológica, incluindo decisões sobre distribuição da oferta, capacidade instalada, recursos humanos, tecnologia e financiamento. Ainda convivemos com desigualdades importantes na distribuição da oferta, na capacidade instalada e no tempo de acesso ao tratamento.

A discussão ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em 2026, o WRAD e a SOLAR iniciaram uma colaboração para ampliar a conscientização sobre a radioterapia, fortalecer a cooperação regional e defender maior equidade no acesso na América Latina. A SOLAR reúne sociedades nacionais da especialidade, representa diretamente aproximadamente 1,7 mil radio-oncologistas e conecta indiretamente mais de 4 mil profissionais da radioterapia na região. Entre os desafios compartilhados pelos países latino-americanos estão as desigualdades geográficas, a necessidade de expansão da capacidade instalada, a atualização tecnológica, a formação e qualificação de profissionais e a sustentabilidade do financiamento. A articulação regional pretende favorecer o compartilhamento de conhecimento e experiências e ampliar a presença da radioterapia nas discussões sobre políticas de controle do câncer. Quando a comunidade da radioterapia apresenta dados, propostas e prioridades de maneira coordenada, aumenta sua capacidade de dialogar com governos, organismos internacionais e instituições responsáveis pelas políticas de saúde. O Dia Mundial da Radioterapia é, portanto, uma oportunidade de mostrar que investir em radioterapia é investir em infraestrutura permanente para o enfrentamento do câncer.

Com um pouquinho de energia e organização, vamos chegar às pessoas e tocar no coração delas sobre a importância de uma radioterapia segura, efetiva e com acesso para a população
— Arthur Accioly Rosa, radio-oncologista e ex-presidente da SBRT
A radioterapia participa do tratamento de uma parcela expressiva dos pacientes com câncer e, em muitos casos, é decisiva para a cura, o controle da doença e o alívio de sintomas
— Wilson José de Almeida Jr., presidente da SBRT
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