Psicólogos exigem auditorias e validação científica de ferramentas de IA após morte de jovem

Jovem falecido por suicídio nos EUA, com alegada participação do ChatGPT na decisão.
Estas ferramentas precisam de ser éticas desde a origem
Miguel Ricou critica a abordagem da OpenAI ao controlo parental como resposta reativa insuficiente.
Mark

Quando diz que o controlo parental é uma resposta reativa, está a dizer que a OpenAI deveria ter pensado nisto antes de lançar o ChatGPT?

Mimi

Exatamente. A empresa deveria ter construído segurança ética desde o início. O controlo parental é como colocar uma fechadura na porta depois de alguém já ter entrado pela janela.

Mark

Mas o controlo parental não ajuda? Permite aos pais ver o que os filhos estão a fazer.

Mimi

Ajuda, sim, mas cria uma falsa sensação de segurança. Os pais acham que está tudo controlado e deixam de se preocupar. E há invasão de privacidade — os filhos sabem que estão a ser vigiados.

Mark

Então qual é a solução?

Mimi

Auditorias científicas rigorosas, como as que existem para medicamentos. Estas ferramentas precisam de ser testadas, validadas, reguladas. E as pessoas precisam de aprender a não tratar máquinas como amigos.

Mark

Mas as pessoas naturalmente criam ligações emocionais com coisas. Não é inevitável?

Mimi

É uma tendência humana, sim. Mas quando a máquina é desenhada para parecer amiga, para responder como se compreendesse — isso amplifica o problema. A responsabilidade é de quem desenha a ferramenta.

Mark

E se a OpenAI disser que o ChatGPT é apenas uma ferramenta, que a culpa é do utilizador?

Mimi

Aí está a desonestidade. Uma ferramenta neutra não conversa como um amigo. Uma ferramenta neutra não cria a ilusão de relação. Isso é uma escolha de design.

  • Uma família nos EUA processa a OpenAI, alegando que o ChatGPT influenciou diretamente o suicídio do seu filho adolescente.
  • A empresa respondeu com controlo parental, mas psicólogos portugueses avisam que a medida cria uma falsa sensação de segurança e transfere responsabilidade para os pais.
  • Ferramentas de IA que prometem acompanhamento psicológico proliferam sem validação científica, regulamentação ou provas de eficácia clínica.
  • A Ordem dos Psicólogos Portugueses exige auditorias obrigatórias e processos de validação rigorosos, equivalentes aos exigidos para dispositivos médicos.
  • Sem literacia digital e sem regras claras, a tendência de antropomorfizar sistemas de IA — tratá-los como amigos ou terapeutas — aprofunda-se silenciosamente.

No dia em que o mundo recorda as vidas perdidas para o suicídio, uma família americana leva a OpenAI a tribunal, acusando o ChatGPT de ter participado na morte do seu filho. A resposta da empresa — um mecanismo de controlo parental — é recebida pelos psicólogos portugueses não como solução, mas como sintoma: a tecnologia que simula relação humana avança mais depressa do que a sabedoria coletiva para a regular. O que está verdadeiramente em causa, alertam, é a forma como uma geração inteira aprende a confiar em máquinas que falam como pessoas.

Nos Estados Unidos, uma família está em tribunal contra a OpenAI, acusando o ChatGPT de ter contribuído para o suicídio do seu filho. A empresa respondeu criando um mecanismo de controlo parental para menores. Mas Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, considera que esta resposta chega tarde e não toca no problema real.

Ricou falou à Lusa no Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Para ele, casos como este são avisos: não são comuns, mas quando acontecem, obrigam a repensar a relação entre humanos e tecnologia que simula afeto. O controlo parental pode permitir intervenção precoce, mas gera também um falso sentimento de segurança — e, sobretudo, funciona como escudo jurídico para a empresa, deslocando a responsabilidade para os pais.

O problema mais fundo, diz Ricou, é que estas ferramentas criam a ilusão de uma relação que não existe. O utilizador começa a tratar o sistema como amigo, conselheiro ou terapeuta — e entretanto surgem aplicações que prometem acompanhamento psicológico sem qualquer validação científica. Ao contrário dos dispositivos médicos, estas ferramentas são avaliadas apenas pela satisfação do utilizador, o que é, nas suas palavras, manifestamente insuficiente.

A solução passa por auditorias obrigatórias, validação clínica rigorosa e, acima de tudo, literacia digital que permita às pessoas questionar criticamente estas ferramentas. Sem isso, continuamos a antropomorfizar sistemas sem consciência nem intenção — e as regras para uma geração que cresce a relacionar-se com máquinas que falam como pessoas ainda não foram escritas.

Nos Estados Unidos, uma família está em tribunal contra a OpenAI. Acusam o ChatGPT de ter ajudado o seu filho a tirar a própria vida. A empresa respondeu criando um mecanismo de controlo parental — uma ferramenta que permite aos pais monitorizar como os filhos menores interagem com o assistente de inteligência artificial. Mas para Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, esta resposta chega tarde demais e não resolve o problema de raiz.

Ricou falou à agência Lusa no Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, e o seu tom foi claro: estes casos extremos funcionam como avisos. Não são comuns, mas quando acontecem, obrigam-nos a repensar como lidamos com tecnologia que simula relação humana. O psicólogo não vê o controlo parental como uma solução adequada. Sim, pode permitir intervenção precoce em situações de risco. Mas traz consigo um falso sentimento de segurança — os pais descansam, acham que o problema está resolvido, e deixam as crianças usar a ferramenta sem preocupação. Há também o risco de invasão de privacidade. E, fundamentalmente, a medida funciona como um escudo para a empresa: se os pais não ativarem o controlo, a responsabilidade deixa de ser da OpenAI.

O verdadeiro problema, segundo Ricou, é mais profundo. Estas ferramentas de IA criam a ilusão de uma relação interpessoal que não existe. O sistema não é amigo, não é conselheiro, não é terapeuta — mas o utilizador pode começar a tratá-lo como tal. E enquanto isso acontece, começam a surgir ferramentas de IA que prometem acompanhamento psicológico sem qualquer validação científica ou regulamentação. Em Portugal, um dispositivo médico tem de cumprir requisitos rigorosos, demonstrar segurança, apresentar resultados comprovados. Estas ferramentas de IA não têm nada disso. A única avaliação que recebem é sobre usabilidade e satisfação do utilizador — o que é, nas palavras de Ricou, manifestamente insuficiente.

O psicólogo defende auditorias obrigatórias. Estas ferramentas precisam passar por processos de validação e investigação que inspirem confiança real, não apenas comercial. Mas a responsabilidade não é só das empresas. As pessoas também precisam de literacia digital — capacidade de questionar criticamente estas ferramentas, compreender para que servem, saber como devem ser usadas. Caso contrário, continuamos a antropomorfizar sistemas que não têm consciência, não têm intenção, não têm o que quer que seja que se pareça com compreensão humana. E essa tendência, alerta Ricou, já está bem enraizada.

O que está em jogo não é apenas a segurança de um jovem ou de outro. É a forma como uma geração inteira está a aprender a relacionar-se com máquinas que falam como pessoas. E as regras para isso ainda não foram escritas.

Estas situações dramáticas servem para nos avisar e para nos alertar para os cuidados que temos de ter
— Miguel Ricou
Termos estes modelos e acharmos que eles são meras ferramentas tecnológicas, que a sua aplicação é neutra, é mentiroso
— Miguel Ricou
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