Psicóloga de Curitiba atende brasileiros traumatizados no front da Ucrânia

Estimativa de 2 mil brasileiros em combate na Ucrânia, com aproximadamente 200 mortos segundo comunidade ucraniana e 33 mortos confirmados pelo Itamaraty até julho de 2026, além de 86 desaparecidos.
Na Ucrânia, eles são heróis nas ruas. Aqui, são invisíveis.
A psicóloga explica por que jovens brasileiros buscam reconhecimento social em uma guerra estrangeira.
Mark

Por que você acha que esses jovens brasileiros não encontram o que procuram aqui, no Brasil?

Mimi

Porque o Brasil não oferece a eles um lugar. Não é só questão de dinheiro. É reconhecimento social, pertencimento, a sensação de ser valorizado. Na Ucrânia, eles são heróis nas ruas. Aqui, são invisíveis.

Mark

E as redes sociais? Parecem estar recrutando ativamente.

Mimi

Não é só parecer. Os algoritmos levam esses jovens de conteúdos sobre militarismo direto para vídeos de guerra, e depois os recrutadores os encontram lá. É um funil muito eficiente. A guerra virou espetáculo no Instagram e no TikTok.

Mark

Você mencionou que muitos chegam à Ucrânia com falsas expectativas sobre o que farão lá.

Mimi

Sim. Pensam que ficarão na retaguarda, pilotando drones, quase como um videogame. Alguns podem ter sido enganados, outros não compreenderam o contrato que assinaram. Mas a realidade é que todos vão para a guerra.

Mark

Como você explica o caso do jovem da USP que desapareceu? Ele parecia ter perspectivas diferentes dos outros.

Mimi

Parecia uma exceção. Ele era engajado nos estudos, tinha uma trajetória. Os outros que atendi estão sem algo que os fixe aqui: sem trabalho estável, sem família que os segure, sem educação superior. Mas sempre há algo opaco na intimidade de cada pessoa que a gente não alcança.

Mark

E quando voltam? O Brasil está preparado para recebê-los?

Mimi

Não está. Eles voltam transtornados, com medo até de estar perto da família. E os psiquiatras aqui não sabem como lidar com isso. Tive uma mãe que levou o filho a uma consulta e o médico disse que era delírio dele estar na guerra.

Mark

Qual é o maior peso emocional que você carrega desse trabalho?

Mimi

Ouvir relatos da devastação dos corpos. Como as pessoas se machucam, como morrem. E depois não saber se meus pacientes que sumiram estão vivos ou mortos. Essa incerteza é muito pesada.

  • Brasileiros no front ucraniano relatam traumas tão severos que a própria psicóloga que os atende admite não ter coragem de repetir o que ouve.
  • Sessões de terapia são marcadas e abandonadas porque os combatentes estão em missão, sem privacidade, cercados por homens armados em bases militares.
  • De volta ao Brasil, o sistema de saúde os ignora ou os desacredita — um psiquiatra chegou a dizer que tanto o veterano quanto sua mãe estavam delirando ao relatar a experiência na guerra.
  • Redes sociais funcionam como máquinas de recrutamento, com algoritmos conduzindo jovens atraídos por estética militar diretamente a conteúdos que os levam ao front.
  • Famílias dos mortos enfrentam um labirinto burocrático e emocional: sem corpos, sem certidões, muitas vivem indefinidamente entre o luto e a esperança.

Em um conflito distante que não lhes pertence por sangue nem por fronteira, jovens brasileiros partem para a Ucrânia carregando não ideologia, mas uma fome antiga de pertencimento e reconhecimento. Do outro lado de uma tela, a psicóloga curitibana Cláudia Serathiuk os escuta — e, ao fazê-lo, revela o quanto o Brasil os havia deixado para trás antes mesmo da guerra.

Cláudia Serathiuk, psicóloga de 54 anos nascida em Curitiba e neta de ucranianos, abre a câmera do computador várias vezes por semana para atender brasileiros que lutam a milhares de quilômetros de distância. Há cerca de um ano, após ser procurada por uma ONG que auxilia combatentes no conflito, ela começou a ouvir relatos que descreve como nauseantes — corpos devastados, explosões, morte em campo inimigo. Alguns de seus pacientes simplesmente desaparecem das sessões, e ela nunca sabe se desistiram da terapia ou se morreram.

A comunidade ucraniana no Brasil estima cerca de dois mil combatentes brasileiros no conflito, com aproximadamente duzentos mortos. O Itamaraty confirmou, até julho de 2026, apenas 33 óbitos e 86 desaparecidos. Os que chegam até Serathiuk estão em condições extremas: sem sono, em hipervigilância constante, alguns com medo de se aproximar da própria família. Um deles perdeu uma perna após ser perseguido por um drone. Outro carregava a culpa pela morte do irmão, testemunhada em combate.

Oferecer psicoterapia no front é quase impossível. Sem privacidade, sem tradutores, sem compreender os códigos da guerra ucraniana, os brasileiros fazem sessões com o celular escondido em algum canto de uma base militar. Quando retornam ao Brasil, o sistema de saúde não está preparado para recebê-los — e muitas vezes os desacredita.

Esses jovens, em sua maioria sem ascendência ucraniana, vêm de cidades pequenas, sonharam em ser militares e não conseguiram entrar no Exército brasileiro. Fogem de dívidas, de problemas com a Justiça, de vidas sem horizonte. Na Ucrânia, são tratados como heróis nas ruas e recebem cerca de vinte mil reais por mês — mas Serathiuk identifica algo mais fundo: uma busca por pertencimento e reconhecimento que o Brasil nunca lhes ofereceu.

As redes sociais amplificam esse caminho. Influenciadores produzem conteúdo estético da guerra, algoritmos conduzem jovens interessados em militarismo diretamente a recrutadores. Um soldado brasileiro postava sobre o front até morrer em combate; sua irmã assumiu o perfil e continuou.

Para as famílias dos mortos, o luto é agravado por obstáculos burocráticos imensos. Sem corpos — pois a maioria morre em explosões ou em território inimigo —, muitas nunca obtêm certidão de óbito e vivem indefinidamente entre a dor e a esperança do retorno.

Cláudia Serathiuk, uma psicóloga de 54 anos nascida em Curitiba, abre a câmera de seu computador várias vezes por semana para atender homens que estão a milhares de quilômetros de distância, lutando em uma guerra que não é deles. Do outro lado da tela, brasileiros que foram para a Ucrânia relatam cenas que ela descreve como nauseantes: corpos devastados, explosões, morte em campo inimigo, caminhões carregando restos mortais. "São coisas tão terríveis que eu nem tenho coragem de repetir", ela diz.

Neta de ucranianos, Serathiuk começou esse trabalho há cerca de um ano, após ser procurada por uma organização não governamental que auxilia brasileiros na Ucrânia. Desde então, atendeu dez combatentes que estavam no front ou haviam retornado. Alguns desapareceram de suas sessões, e ela não sabe se desistiram da terapia ou se morreram. Ela também reuniu cinco psicólogos voluntários para atender familiares de brasileiros mortos na guerra. Sua experiência com esses casos será a base de um doutorado sobre os motivos que levam esses jovens a se arriscarem em um conflito estrangeiro.

Não há números oficiais sobre quantos brasileiros partiram para lutar no Exército ucraniano, mas a comunidade ucraniana no Brasil estima cerca de dois mil combatentes, com aproximadamente duzentos mortos. O Itamaraty, até julho de 2026, havia contabilizado apenas 33 mortos confirmados e 86 desaparecidos. Os que chegam ao consultório de Serathiuk estão em condições extremas: não conseguem dormir, vivem em estado de hipervigilância, alguns têm medo até de estar perto de suas próprias famílias. Um rapaz que ela atendeu perdeu uma perna após ser perseguido por um drone que explodiu a casa onde se escondia. Outro havia visto seu irmão morrer na guerra e carregava raiva e culpa.

O desafio de oferecer psicoterapia no front é quase impossível. Os brasileiros têm pouca privacidade, estão alojados com outros combatentes, frequentemente sem tradutores, sem compreender os códigos da guerra ucraniana. Marcam sessões e não aparecem porque estão em missão ou porque não entendem como funciona uma psicoterapia. Quando conseguem fazer uma sessão, é com o celular em algum canto de uma base militar, cercados por outros homens nervosos e armados. De volta ao Brasil, o sistema de saúde não está preparado. Uma mãe contou a Serathiuk que levou seu filho a um psiquiatra após ele retornar da Ucrânia. Quando o jovem mencionou que havia estado na guerra, o médico disse que era delírio. Quando a mãe confirmou a história, o psiquiatra respondeu que os dois estavam delirando.

Os brasileiros que vão para a Ucrânia não têm ascendência ucraniana. Serathiuk conhece apenas um ou dois com ligação à comunidade. Os outros são jovens à deriva, principalmente de cidades pequenas, que sonhavam em ser militares mas não conseguiram entrar no Exército brasileiro. Alguns fogem de situações familiares difíceis, de problemas com a Justiça, de dívidas de pensão alimentícia. A maioria não completou o ensino médio. Eles buscam reconhecimento social, querem se provar heróis, encaixar-se em uma certa masculinidade valorizada. Na Ucrânia, encontram exatamente isso: as pessoas os tratam como heróis nas ruas, sentem carinho que não sentiam no Brasil. O Exército ucraniano oferece cerca de vinte mil reais por mês, dinheiro que dificilmente ganhariam aqui.

Mas há algo mais profundo do que dinheiro ou ideologia política. Serathiuk atendeu um rapaz que trabalhava como frentista no Brasil e não conseguia sustentar seus quatro filhos. Ele havia servido o Exército brasileiro, queria ser militar e não conseguiu. Quando foi para a Ucrânia, mandava dinheiro para casa. "Há questões mais fortes do que a motivação financeira para quem está disposto a morrer", ela observa. As redes sociais amplificam tudo isso. Há uma estética de guerra online: influenciadores produzindo conteúdo do front, jovens querendo tirar selfies indo para a guerra, recrutadores monitorando perfis de seguidores de influenciadores de guerra. Um soldado brasileiro produzia conteúdo sobre a Ucrânia até morrer em combate; sua irmã pegou a página dele no Instagram e continuou postando sobre a guerra. O algoritmo leva jovens interessados em militarismo direto para conteúdos de recrutamento.

As famílias dos mortos enfrentam obstáculos práticos imensos. Para obter um atestado de óbito da Justiça ucraniana, é necessário que um inquérito seja aberto, o que só acontece cinco meses após o desaparecimento. Quando há corpo, é preciso fazer reconhecimento. Quando há apenas partes, é necessário provar que pertencem à pessoa. Na maioria dos casos, não sobra nada: os brasileiros morrem em explosões ou em território inimigo, sem possibilidade de resgate. Serathiuk orienta as famílias a realizar cerimônias de despedida. Mas, como em todo desaparecimento, muitas convivem para sempre com a esperança de que a pessoa retorne.

São coisas tão terríveis que eu nem tenho coragem de repetir. É nauseante.
— Cláudia Serathiuk, psicóloga
Há questões mais fortes do que a motivação financeira para quem está disposto a morrer.
— Cláudia Serathiuk
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