Próximo presidente herda carteira de R$ 204 bi em infraestrutura adiada

Concessão é muito mais complexo, eu não vou fazer na afobação
O ministro dos Transportes explica por que prefere publicar editais agora a realizar leilões precipitados.
Mark

Como é possível que um governo que se apresenta como campeão em concessões deixe R$ 204 bilhões em projetos para trás?

Mimi

Porque os números contam duas histórias. De 2023 a 2025, foram 50 leilões realizados — de fato um recorde. Mas 2026 é um ano eleitoral, e isso muda tudo. Quando há eleição, o governo fica mais sensível a pressões políticas.

Luke

Mas qual é a pressão exatamente? Por que um leilão de rodovia seria impopular em ano eleitoral?

Mimi

Não é que seja impopular. É que leilões complexos exigem tempo, estudos, negociação com comunidades. Tudo isso fica mais lento quando há incerteza política. E alguns projetos — como os das hidrovias — envolvem embates com indígenas e comunidades locais.

Mark

Então os atrasos não são falha de gestão, mas consequência natural do calendário?

Luke

Não exatamente. O ministro Santoro diz que quer publicar editais agora para os leilões acontecerem no próximo governo. Mas isso significa que o trabalho de estruturação — que deveria estar pronto — ainda está em andamento. Há projetos em consulta pública apenas em setembro.

Mimi

É verdade. O Tecon Santos 10, por exemplo, virou um campo de batalha sobre o modelo de licitação. Dividiu o próprio governo. Esses não são atrasos simples — são impasses estruturais.

Mark

E quanto aos projetos que ficaram para trás? Qual é o custo real disso?

Luke

Aí está o ponto: não sabemos ao certo. Os R$ 204 bilhões são uma estimativa. Há projetos ainda em fase de definição, sem estimativa consolidada. O número real pode ser maior.

Mimi

E há outro custo invisível: cada atraso significa que a infraestrutura continua deficiente. Portos congestionados, rodovias antigas, ferrovias que não existem. O Brasil segue esperando.

Mark

O próximo presidente terá que escolher quais projetos priorizar?

Mimi

Exatamente. Receberá uma carteira pesada, mas nem todos os projetos são igualmente viáveis. Alguns são o que a especialista Isadora Cohen chamou de "filé com osso" — mistura de projetos atraentes com outros muito difíceis de estruturar.

  • R$ 204 bilhões em investimentos previstos em infraestrutura adiados para 2027 ou depois
  • De 13 leilões rodoviários previstos para 2026, apenas 7 serão realizados
  • R$ 154,9 bilhões em projetos ferroviários adiados; R$ 20,8 bilhões em projetos portuários adiados
  • De 18 leilões portuários anunciados, apenas 3 foram realizados até setembro
  • 50 leilões de infraestrutura realizados de 2023 a 2025 — recorde histórico

Dos 13 leilões rodoviários previstos para 2026, apenas sete serão realizados; projetos ferroviários de R$ 154,9 bi e portuários de R$ 20,8 bi foram adiados. Atrasos foram causados por suspensão de estudos, mudanças de cronograma, acúmulo de projetos em agências e desacordos no TCU, além de pressões do calendário eleitoral.

O governo Lula adiou para 2027 ou depois projetos de infraestrutura que prometeu leiloar em 2026, deixando ao próximo presidente uma carteira de ao menos R$ 204 bilhões em investimentos previstos em rodovias, ferrovias, portos e hidrovias.

O próximo presidente do Brasil receberá uma herança incômoda: uma pasta volumosa de projetos de infraestrutura que o governo Lula prometeu leiloar em 2026, mas deixou inacabados. Rodovias, ferrovias, portos e hidrovias somam pelo menos R$ 204 bilhões em investimentos previstos, todos adiados para 2027 ou além. A promessa não se cumpriu, e agora a responsabilidade passa adiante.

Os números revelam o tamanho do atraso. De 13 leilões rodoviários anunciados para este ano, apenas sete serão realizados. Três já aconteceram: o lote das Rotas Gerais na BR-116, a Rota dos Sertões na BR-116 entre Bahia e Pernambuco, e um trecho de 383 quilômetros da Régis Bittencourt entre São Paulo e Paraná. O ministério espera completar quatro leilões adicionais até o fim de 2026, mas os projetos restantes — como a otimização da Transbrasiliana em São Paulo, a Rota Planalto Sul entre Paraná e Santa Catarina, e a Rota Litoral Sul — ficarão para o próximo mandato. Esses projetos rodoviários carregam R$ 28,8 bilhões em investimento previsto.

As ferrovias apresentam um quadro ainda mais desafiador. Dos oito leilões previstos pelo Ministério dos Transportes, apenas um — o Corredor Minas-Rio, marcado para dezembro — deve ocorrer ainda em 2026. O restante, com R$ 154,9 bilhões em investimentos previstos, avança para o próximo governo. O ministro George Santoro afirmou que pretende publicar os editais do Anel Ferroviário do Sudeste e da Malha Oeste ainda este ano, mas reconheceu que a complexidade dos projetos exigiu trabalho intenso junto ao Tribunal de Contas da União. "Concessão é muito mais complexo, eu não vou fazer na afobação", disse, explicando que prefere publicar editais agora para que os leilões aconteçam no início do próximo mandato.

No setor portuário, o cenário é igualmente frustrante. De 18 leilões anunciados para 2026, apenas três foram realizados até setembro: o POA26 em Porto Alegre, o MCP01 em Santana no Amapá, e o NAT01 em Natal. Os 15 projetos restantes permanecem em diferentes estágios — alguns ainda em consultas públicas, outros em ajustes de estudos ou análise regulatória. Entre os mais aguardados está o Tecon Santos 10, no porto de Santos, que se transformou em campo de batalha sobre o modelo de licitação e dividiu o próprio governo. O projeto prevê R$ 6,4 bilhões em investimentos. Outro exemplo é o canal de acesso ao porto de Santos, com R$ 6,45 bilhões previstos; a audiência pública ocorreu apenas em 1º de setembro, e o prazo para contribuições permanece aberto até 29 de setembro. Projetos como o ITJ01 em Itajaí, Santa Catarina, com R$ 2,66 bilhões em investimento, ainda estão em fases iniciais de consulta pública.

As cinco concessões de hidrovias também foram empurradas para frente. O governo havia previsto o primeiro leilão de uma hidrovia federal no rio Paraguai para 2026, mas os calendários foram sendo alterados conforme os estudos avançavam e encontravam dificuldades técnicas, ambientais e jurídicas. No Madeira, o governo teve de rever a modelagem após embates com comunidades locais e indígenas. O mesmo ocorreu com os planos para o Tapajós e Tocantins, hoje sem datas para leilão.

Os entraves que causaram esses atrasos são múltiplos. Suspensões de estudos, mudanças de cronograma, acúmulo de projetos na Agência Nacional de Transportes Terrestres e um acordo frustrado no Tribunal de Contas da União foram alguns dos obstáculos. Maurício Portugal, especialista em infraestrutura e colunista da Folha, aponta outro fator: o calendário político. "É natural você conseguir fazer menos leilões no ano eleitoral. O governo fica muito mais sensível a esse tipo de pressão", afirma.

Apesar do cenário de atraso em 2026, o governo Lula consolidou-se como a gestão que mais realizou concessões de infraestrutura. De 2023 a 2025, foram 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos — número que supera os executados durante os governos de Jair Bolsonaro e Fernando Henrique Cardoso. O Ministério dos Transportes afirma ter 32 projetos rodoviários em planejamento e estudos para os próximos ciclos de concessões. A definição do cronograma e das datas dos próximos leilões será divulgada em novembro. O próximo presidente herdará não apenas uma carteira pesada, mas também a tarefa de desatar nós que o governo atual deixou amarrados.

É natural você conseguir fazer menos leilões no ano eleitoral. O governo fica muito mais sensível a esse tipo de pressão
— Maurício Portugal, especialista em infraestrutura
A gente tinha projetos que iam misturar um pouquinho de filé com osso
— Isadora Cohen, especialista em infraestrutura
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