O Brasil chega às eleições de 2026 carregando o peso de uma geopolítica reconfigurada: entre Washington e Pequim, entre soberania e dependência, entre minerais que o mundo inteiro quer e um Estado que ainda decide como protegê-los. Qualquer que seja o próximo presidente, herdará não apenas uma agenda externa espinhosa, mas a tarefa de definir o lugar do Brasil num mundo que não aceita mais neutralidade confortável. As posições opostas de Lula e Flávio Bolsonaro revelam que a política externa, por décadas tratada como assunto de especialistas, tornou-se o coração do debate sobre que país o Bras
Próximo governo enfrentará relações tensas com Trump, big techs e disputa por minerais críticos
Soberania aparece 42 vezes no programa de Lula
Por que minerais críticos viraram tão importantes de repente? Parecem um detalhe técnico.
Não são. Terras raras e minerais críticos são essenciais para fabricar defesa, carros elétricos, chips — toda a tecnologia do futuro. O Brasil tem depósitos vastos. EUA, China e Europa estão em corrida aberta por acesso. Virou geopolítica pura.
Mas o marco legal que o Senado aprovou em setembro — ele realmente protege o Brasil? O texto diz que as competências do conselho "ainda serão definidas". Isso é vago. Não sabemos ainda qual é o poder real desse veto.
E Trump? Por que ele é tão importante para a próxima eleição?
Porque ele atacou o Brasil com tarifas e sanções. Fez isso com aliados e adversários sem distinção. Os candidatos estão divididos: Flávio quer se aproximar dele, Lula quer manter distância. Mas nenhum pode ignorar que Trump estará lá pelos próximos dois anos.
Verdade, mas há uma nuance. Flávio diz uma coisa no programa de governo — "pragmatismo, não ideologia" — e outra em podcasts americanos — "o Brasil não será mais submisso à China". Qual é a posição real dele? Não sabemos.
Lula parece mais consistente?
Sim. Ele colocou soberania no centro. Aparece 42 vezes no programa. Quer manter instituições multilaterais, aproximação com o sul global, distância dos EUA. É uma visão clara.
Mas também é uma visão que já foi testada. Lula não entrou no Escudo das Américas de Trump, não entrou no Pax Silica. Agora Trump voltou. Será que a mesma estratégia funciona de novo? Não há garantia.
E as big techs? Como isso virou questão de política externa?
Os EUA pressionam países para não regular as grandes empresas americanas de tecnologia. Para Lula, regulação é parte da defesa da soberania. Para Flávio, a questão é menos clara. Mas Washington quer menos regras, e isso vai criar tensão com qualquer governo.
Aqui também há incerteza. Não sabemos qual será a pressão exata de Trump sobre regulação. Sabemos que ele criou o Pax Silica, mas não sabemos como vai usar isso como ferramenta de negociação com o Brasil.
Il Polso
- Trump pressiona aliados e adversários sem distinção, e o Brasil — com seus minerais críticos, suas big techs e seus cartéis — está no centro dessa pressão por pelo menos mais dois anos.
- A corrida global pelas terras raras brasileiras coloca EUA, China e Europa em rota de colisão direta com Brasília, tornando cada decisão de investimento estrangeiro um ato de política externa.
- Flávio Bolsonaro tenta equilibrar a proximidade com Trump e a dependência econômica do Brasil em relação à China, mas suas declarações em podcasts conservadores americanos revelam onde sua bússola aponta.
- Lula usa a palavra 'soberania' 42 vezes em seu programa e rejeita o Escudo das Américas e o Pax Silica, apostando na Waico e nas instituições multilaterais como escudo contra pressões externas.
- O Senado aprovou o marco legal dos minerais críticos com poder de veto a parcerias estrangeiras, mas as competências do novo conselho ainda precisam ser definidas — deixando a disputa em aberto para o próximo governo.
O Brasil chega às eleições de 2026 carregando o peso de uma geopolítica reconfigurada: entre Washington e Pequim, entre soberania e dependência, entre minerais que o mundo inteiro quer e um Estado que ainda decide como protegê-los. Qualquer que seja o próximo presidente, herdará não apenas uma agenda externa espinhosa, mas a tarefa de definir o lugar do Brasil num mundo que não aceita mais neutralidade confortável. As posições opostas de Lula e Flávio Bolsonaro revelam que a política externa, por décadas tratada como assunto de especialistas, tornou-se o coração do debate sobre que país o Brasil quer ser.
O próximo presidente do Brasil herdará uma agenda internacional sem precedentes recentes. Nos próximos dois anos, terá de lidar com um Donald Trump que não distingue aliados de adversários quando pressiona países a abrir espaço para interesses americanos — e especialistas não veem sinais de que essa pressão diminuirá.
A tensão com Washington, porém, é apenas uma das frentes. Os EUA trabalham ativamente para afastar o Brasil da China, objetivo que complica até mesmo um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Apesar de sua proximidade com Trump, Flávio não pode ignorar a dependência econômica brasileira em relação a Pequim. Três temas concentram essa disputa: a regulação das grandes empresas de tecnologia, o combate ao narcotráfico transnacional e o controle sobre investimentos estrangeiros em minerais críticos e terras raras.
Os dois líderes nas pesquisas ocupam posições opostas. O programa de Flávio dedica apenas 2,5 páginas à política externa em 75 totais, evitando mencionar Brics, Mercosul ou Trump, e promete 'diplomacia guiada pelo profissionalismo e pragmatismo'. Em entrevistas, porém, o tom endurece: prometeu que o Brasil não se marcará mais pela 'submissão à China', criticou o comércio em moedas alternativas ao dólar e sinalizou que consideraria sair do Brics. Eduardo Bolsonaro, cotado para chanceler, defende um 'realismo propositivo' citando Emirados Árabes, Indonésia e Turquia como modelos.
Lula, por sua vez, colocou política externa e defesa no centro de seu programa. A palavra 'soberania' aparece 42 vezes. Durante seu governo anterior, o Brasil recusou entrar na iniciativa americana de minerais críticos, no Escudo das Américas e no Pax Silica — aderindo, em vez disso, à Waico, aliança rival liderada pela China. Lula promete manter a ênfase em instituições multilaterais e na aproximação sul-sul.
O pano de fundo que torna tudo isso urgente é a corrida global pelos vastos depósitos de terras raras brasileiros, estratégicos para defesa, carros elétricos e tecnologias de ponta. Em setembro, o Senado aprovou o marco legal dos minerais críticos, criando um conselho com poder de veto a parcerias estrangeiras — mas suas competências ainda precisam ser definidas. Essa disputa geopolítica por recursos será um dos testes mais duros do próximo mandato, independentemente de quem vencer.
O próximo presidente do Brasil, qualquer que seja, herdará uma agenda internacional espinhosa. Nos próximos dois anos, terá de lidar com um Donald Trump que não faz distinção entre aliados e adversários quando se trata de pressionar países para abrir espaço aos interesses americanos. Especialistas concordam que essa pressão não arrefecerá.
Mas a tensão com Washington é apenas uma das frentes. Os Estados Unidos também trabalham para afastar o Brasil da China — um objetivo que complica até mesmo um eventual governo de Flávio Bolsonaro, que apesar de sua proximidade com Trump não pode ignorar a dependência econômica brasileira em relação a Pequim. A questão é particularmente delicada porque toca em três temas que definirão a política externa do próximo mandato: a regulação das grandes empresas de tecnologia, o combate ao narcotráfico transnacional e, talvez o mais estratégico de todos, o controle sobre os investimentos estrangeiros em terras raras e minerais críticos.
Essas questões ganharam peso inédito na campanha presidencial deste ano. Após as tarifas e sanções que Trump impôs ao Brasil, a política externa deixou de ser um tema periférico e se tornou central no debate entre os candidatos. Os dois líderes nas pesquisas ocupam posições opostas. Flávio Bolsonaro está na defensiva. A proximidade com Trump gerou reações negativas quando as medidas americanas contra o Brasil foram anunciadas, e o senador tenta se diferenciar da diplomacia ideológica do pai. Seu programa de governo dedica apenas 2,5 páginas à política externa em um total de 75 páginas, evitando menções a Brics, Mercosul ou Trump. Promete "diplomacia guiada pelo profissionalismo e pragmatismo, não pela ideologia", e fala em se reaproximar de parceiros como Argentina, Israel e Estados Unidos, mas também em negociar com China, União Europeia e mercados asiáticos.
Em entrevistas, porém, o tom é diferente. Flávio disse a um podcast conservador americano que o Brasil não se marcará mais pela "submissão à China", criticou iniciativas de comércio em outras moedas que não o dólar e prometeu "considerar" a saída do Brasil do Brics. Também propôs parcerias preferenciais com os EUA na exploração de minerais críticos e um acordo de livre comércio. Eduardo Bolsonaro, cotado para ser chanceler em um eventual governo Flávio, adota um tom mais moderado em artigo publicado em setembro, citando Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Turquia como modelos e defendendo um "realismo propositivo" baseado em pragmatismo. Mas a estratégia geral de Flávio aposta em segurança pública como símbolo de defesa da soberania, anunciando repetidamente o modelo de Nayib Bukele em El Salvador — terreno favorável para ele e minado para Lula.
Lula, por sua vez, elegeu política externa e defesa como elementos centrais de seu programa, conectados à soberania e ao desenvolvimento. A palavra "soberania" aparece 42 vezes em seu programa. O capítulo não se chama "política externa", mas "defender a soberania nacional e o protagonismo internacional do Brasil". Sua formulação central afirma que política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses brasileiros — uma mudança relevante na linguagem tradicional da esquerda. Para Lula, a regulação das big techs, o controle dos investimentos estrangeiros em minerais críticos e o combate às organizações criminosas transnacionais são todos pontos cruciais da política externa.
Durante seu governo anterior, Lula fez gestos importantes de aproximação com a China e distanciamento dos EUA. O Brasil não entrou na iniciativa de minerais críticos dos EUA, nem no Escudo das Américas, aliança militar criada por Trump em março de 2026 para combater cartéis. Tampouco aderiu ao Pax Silica, grupo de inteligência artificial criado por Trump. Em vez disso, o Brasil é membro da Waico, a aliança rival, da China. Lula promete manter a ênfase em instituições multilaterais e na aproximação "sul-sul" que marcaram seus mandatos anteriores.
O contexto que torna esses temas tão urgentes é a corrida global pelos vastos depósitos de terras raras do Brasil. Estados Unidos, China e Europa disputam acesso a esses minerais, que são estratégicos para defesa, carros elétricos e tecnologias de alta complexidade. No começo de setembro, o Senado aprovou o marco legal dos minerais críticos, que cria um conselho com poder de veto a parcerias estrangeiras, embora as competências do órgão ainda precisem ser definidas. Qualquer que seja o próximo presidente, essa disputa geopolítica por recursos estratégicos será um dos testes mais duros de sua administração.
Citazioni salienti
Política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil— Programa de governo de Lula
O Brasil não se marcará mais pela submissão à China— Flávio Bolsonaro, em entrevista a podcast conservador americano em junho