Iniciativa combina gastronomia de qualidade com segurança alimentar, servindo 500 marmitas diárias em comunidade de mil famílias na zona norte. Projeto nasceu em 2020 no Mocotó e expandiu para cozinha comunitária em 2025, oferecendo também cursos de formação profissional e atividades sociais.
Projeto Quebrada Alimentada é eleito iniciativa de destaque em gastronomia pela Folha
Quem pega marmita também ocupa esse espaço
Como um restaurante respeitado acaba virando ponto de distribuição de comida para pessoas em situação de rua?
Quando a pandemia chegou, o Mocotó viu a fome batendo na porta. Não era abstrato. Era gente real enfileirada pedindo comida. O chef e a professora decidiram que aquele espaço tinha que servir para isso.
Mas por que a cozinha saiu do Mocotó e foi para a ocupação?
Porque a ocupação nasceu ali mesmo, durante a pandemia. Pessoas despejadas, sem emprego, chegando. Fazia mais sentido levar a cozinha para perto delas do que elas terem que se deslocar.
500 refeições por dia é muito. Como conseguem manter isso?
Tem gente formada no próprio projeto que trabalha ali. Tem apoio de instituições. E tem a lógica de que quando você oferece comida de qualidade, não é caridade — é reconhecimento de que aquelas pessoas merecem comer bem.
O que torna isso diferente de um programa de assistência comum?
A qualidade. Cupim, frango assado, estrogonofe. Não é sopa rala. É comida feita com técnica, com respeito. E o espaço não é só para comer — é para vacinar, para aprender, para celebrar.
Você acha que isso é replicável em outros lugares?
Depende de ter pessoas dispostas a fazer. Um chef que entenda que sua cozinha pode ser ferramenta de transformação. Uma professora que mapeie a necessidade real. Instituições que apoiem. Não é fórmula mágica, é trabalho.
O Pulso
- 500 refeições servidas diariamente, de segunda a sexta
- Ocupação Viva Jardim Julieta abriga cerca de mil famílias
- Cozinha comunitária inaugurada em março de 2025
- Projeto nasceu em 2020 no restaurante Mocotó, durante a pandemia
Iniciativa combina gastronomia de qualidade com segurança alimentar, servindo 500 marmitas diárias em comunidade de mil famílias na zona norte. Projeto nasceu em 2020 no Mocotó e expandiu para cozinha comunitária em 2025, oferecendo também cursos de formação profissional e atividades sociais.
O projeto Quebrada Alimentada, nascido no restaurante Mocotó durante a pandemia, foi eleito iniciativa de destaque pela Folha. Funciona na ocupação Viva Jardim Julieta, servindo 500 refeições diárias a famílias em situação de vulnerabilidade.
Na entrada da ocupação Viva Jardim Julieta, na zona norte de São Paulo, funciona uma cozinha que serve centenas de pessoas todos os dias. Há um ano, de segunda a sexta, famílias inteiras formam fila ali para buscar o almoço. Mas a história dessa iniciativa começa em outro lugar — num restaurante respeitado da cidade, o Mocotó, onde tudo começou quando a pandemia chegou e deixou o bairro inteiro à deriva.
Em 2020, quando a Covid-19 fechou o Brasil, o Mocotó começou a preparar marmitas e as entregava para pessoas que se aglomeravam na porta da casa, na Vila Medeiros. A incerteza alimentar tomava conta das periferias. Adriana Salay, professora de história na USP com 41 anos, e Rodrigo Oliveira, chef do restaurante com 46 anos, perceberam o que precisava ser feito. Com apoio da associação local, mapearam quem tinha fome e transformaram o restaurante num ponto de distribuição de refeições.
Na mesma época, a ocupação do Jardim Julieta começava a se formar. Pessoas que perderam emprego durante a pandemia, que foram despejadas, chegavam ali buscando um lugar para viver. Hoje são cerca de mil famílias. No começo, os moradores do assentamento iam até o Mocotó pegar as quentinhas. Depois veio a ideia de montar uma cozinha ali mesmo, em parceria. Em março de 2025, a estrutura ficou pronta — cozinha, despensa, área de entrega de doações. O padre Júlio Lancellotti ajudou a erguer dois banheiros.
Agora, 500 refeições saem dali por dia, de segunda a sexta. O cupim é o prato mais procurado, junto com frango assado e estrogonofe. Tem também feijão-tropeiro com arroz e batata grelhada. Mas o espaço é mais do que uma cozinha. "Quem pega marmita também ocupa esse espaço", explica Salay. O SUS vai lá vacinar. Tem atividade sobre pobreza menstrual. Tem celebração de Dia das Mães e Natal. Cursos para formar cozinheiros acontecem com frequência, e muitos dos talentos que passam por ali ficam na equipe.
Valdirene Frazão, presidente da ocupação com 53 anos, aponta que o projeto distribui cestas básicas e beneficia muito mais gente do que só quem vive no Jardim Julieta. Na fila estão crianças dos conjuntos habitacionais do entorno, moradores de rua, trabalhadores para quem aquela refeição faz toda a diferença entre um dia com fome e um dia com comida.
O que o Quebrada Alimentada fez foi levar para o Jardim Julieta a cultura sertaneja de partilhar a comida e acolher pessoas — uma prática que agora é apoiada por instituições que entendem a fome como um desafio que precisa ser encarado de frente. A iniciativa foi eleita pela Folha como destaque em gastronomia, reconhecimento que aponta para algo maior: quando a cozinha de qualidade encontra a necessidade real, algo transformador acontece.
Citações Notáveis
Quem pega marmita também ocupa esse espaço. O SUS vai lá dar vacina, tem atividade sobre pobreza menstrual, tem celebração de Dia das Mães e Natal.— Adriana Salay, professora e coordenadora do projeto