Programa nuclear da Marinha lidera gastos militares brasileiros pela primeira vez

O Álvaro Alberto só deverá estar no mar em 2038
O submarino nuclear brasileiro está treze anos atrasado em relação ao cronograma original do projeto.
Mark

Por que o programa nuclear da Marinha recebeu um aumento tão dramático de um ano para o outro?

Mimi

A injeção de dinheiro visa aplacar as dificuldades acumuladas. O Álvaro Alberto está atrasado em relação ao cronograma original, e há fases críticas ainda por vir — a integração do reator ao casco é particularmente complexa. O aumento reflete uma tentativa de acelerar o projeto.

Mark

Qual é o maior obstáculo agora?

Mimi

A aprovação da AIEA. O combustível nuclear precisa ser vistoriado e aprovado pela agência internacional. Há pressão das potências nucleares para que o Brasil adira aos Protocolos Adicionais, que permitiriam inspeções muito mais rigorosas do que as atuais.

Mark

O Brasil está tentando construir armas nucleares?

Mimi

Não oficialmente. O Brasil aderiu ao Tratado de Não Proliferação em 1998. Mas o presidente Lula sinalizou arrependimento por essa decisão, argumentando que potências nucleares não reduziram seus arsenais enquanto outras entraram no clube. É uma postura ambígua.

Mark

Quanto tempo até o submarino estar pronto?

Mimi

2038, segundo as previsões atuais. Isso é treze anos depois do prazo original do projeto. O programa se arrasta desde 1979, com idas e vindas constantes.

Mark

Como isso se compara a outros gastos militares?

Mimi

O Brasil investe pouco em defesa no geral — 8,25% de R$ 133,3 bilhões em 2025. A maior parte vai para pessoal. O programa nuclear agora lidera, mas há projetos maiores que funcionam fora do orçamento de defesa, como as fragatas Tamandaré.

Mark

Isso é sustentável?

Mimi

Essa é a questão. O governo está negociando mais 20 caças Gripen, mas não está claro de onde virá o dinheiro. Os atrasos já são significativos, e os custos continuam crescendo.

  • Investimento de R$ 1,4 bilhão em 2025, aumento de 4,5 vezes em relação a 2024
  • Programa nuclear da Marinha lidera ranking de gastos militares pela primeira vez na história recente
  • Submarino Álvaro Alberto previsto para 2038, treze anos após prazo original
  • AIEA negocia aprovação do combustível nuclear para o submarino

Investimento de R$ 1,4 bilhão em 2025 marca virada histórica, superando o projeto do caça Gripen que liderava desde 2016. Recursos destinados a domínio do ciclo de combustível nuclear, laboratório de energia nucleoelétrica e desenvolvimento do reator para o submarino.

O programa nuclear da Marinha recebeu 4,5 vezes mais verbas em 2025, liderando pela primeira vez o ranking de gastos militares do Brasil, com foco no desenvolvimento do submarino nuclear Álvaro Alberto.

O programa nuclear da Marinha brasileira alcançou um marco inédito em 2025: pela primeira vez em tempos recentes, tornou-se o maior receptor de verbas militares do país. O salto foi vertiginoso. De um ano para o outro, o investimento cresceu 4,5 vezes, chegando a R$ 1,4 bilhão — uma cifra que empatou com os gastos em controle de tráfego aéreo, setor de aplicação predominantemente civil. O projeto do caça Gripen, que havia liderado o ranking desde 2016, caiu para quarto lugar, recebendo R$ 965 milhões, bem abaixo dos R$ 1,6 bilhão do ano anterior.

Esse dinheiro não vai para construir aviões ou equipamentos prontos. A rubrica oficial refere-se apenas a desenvolvimento tecnológico, mas está inteiramente ligada a um objetivo concreto: o Álvaro Alberto, o primeiro submarino nuclear do Brasil. Segundo a Marinha, os recursos foram empregados no aprimoramento do domínio do ciclo do combustível nuclear, na implantação do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica e no desenvolvimento do reator que equipará a embarcação. Quase R$ 953 milhões foram destinados a empresas contratadas, principalmente para serviços de engenharia. A fase mais crítica ainda está por vir: a integração do reator ao casco do navio.

O programa nuclear da Marinha não é novo. Ele se arrasta desde 1979, com idas e vindas, avanços e recuos. Nos anos de ditadura, integrava um esforço mais amplo que incluía a fabricação de uma bomba atômica. O Brasil chegou perto dessa meta, mas abdicou da intenção em 1990, aderindo ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares oito anos depois. Mesmo assim, o programa logrou sucesso técnico notável: construiu ultracentrífugas para enriquecer urânio, o que provocou um embate com a Agência Internacional de Energia Atômica em 2004 sobre o regime de inspeções.

O presidente Lula tem sinalizado uma postura ambígua sobre o caminho que o Brasil tomou. Em discurso na fábrica da Avibrás em julho, insinuou arrependimento pela adesão ao tratado de não proliferação, argumentando que o Brasil precisava se armar porque havia "muito maluco no mundo" — uma referência às aventuras militares de Donald Trump. Reclamou que potências nucleares estabelecidas não reduziram seus arsenais enquanto outras entraram no clube nuclear. Nesta semana, o petista defendeu prioridade ao submarino na sede do programa nuclear da Marinha, em Iperó, São Paulo.

O projeto do submarino em si consumiu R$ 649 milhões em 2025, ocupando o sétimo lugar no ranking de gastos militares. Obras em estaleiros receberam R$ 582 milhões. Esse foco renovado na área nuclear acompanha a reta final de uma etapa anterior: a fabricação no Brasil de quatro submarinos de propulsão convencional de desenho francês. Em 2025, esse programa recebeu R$ 461 bilhões e viu a última unidade lançada ao mar para testes. Ambos os projetos saíram do acordo militar Brasil-França de 2008.

Mas há obstáculos políticos significativos à frente. Para o submarino nuclear avançar, o emprego de seu combustível precisa ser vistoriado e aprovado pela AIEA, que negocia com o Brasil. O temor em Viena, sede dessa agência da ONU, é o da proliferação indevida de material atômico. Militares brasileiros, sob reserva, apontam pressão política das potências nucleares e a vontade da AIEA de ver o Brasil aderindo aos chamados Protocolos Adicionais ao TNP, que permitem um grau de inspeção muito maior do que o usual.

O cronograma também é desafiador. O Álvaro Alberto só deverá estar no mar em 2038 — treze anos depois do prazo original do projeto. Esse atraso não é isolado. O projeto do Gripen, que deveria ter seus 36 caças voando em 2024, entregou apenas 11 até agora, com previsão de conclusão em 2032. O governo anunciou negociar mais 20 caças, mas a origem dos recursos permanece incerta.

No cômputo geral, o Brasil tem uma taxa de investimento militar baixa, equivalente a 8,25% dos R$ 133,3 bilhões empregados em 2025. O grosso vai para pessoal — 77,7% — e os 14,05% restantes para custeio. Os dados refletem valores corrigidos pelo IPCA até julho, aferidos pelo Siga Brasil, sistema de acompanhamento de gastos federais do Senado. Vale notar que o ranking não inclui o maior programa militar em curso no país: o das fragatas Tamandaré, que funciona através de uma manobra orçamentária criada no governo Michel Temer. Uma estatal da Marinha, a Emgepron, foi capitalizada para tocar o negócio fora do então teto de gastos. Até o ano passado, o projeto havia consumido R$ 9,6 bilhões, com três navios já prontos. Os R$ 2,4 bilhões destinados em 2025 entram na conta das despesas de estatais, não da Defesa. O Tribunal de Contas da União contestou a manobra, mas ela acabou aprovada.

O Brasil precisava se armar porque havia 'muito maluco no mundo'
— Presidente Lula, em discurso na Avibrás em julho
Reclamou que o Brasil aderiu ao TNP, mas potências estabelecidas não reduziram seus arsenais
— Posição do presidente Lula sobre o Tratado de Não Proliferação
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