Primeiro exorcista da Serra do RS assume função com fila de espera; maioria dos casos é emocional

A pessoa nunca sai pior, ela sempre sai melhor
O padre Daniel descreve o exorcismo como ministério de caridade e misericórdia voltado ao bem-estar integral.
Mark

Por que você acha que tantas pessoas procuram o ministério acreditando que têm um problema sobrenatural?

Mimi

Porque é mais fácil culpar o demônio do que lidar com depressão, ansiedade, solidão. A TV e a internet oferecem uma narrativa pronta. A pessoa ouve um barulho à noite e pensa: isso é possessão. Não: isso é medo.

Mark

E quando você descobre que é apenas emocional, como a pessoa reage?

Mimi

Alguns ficam decepcionados. Queriam uma explicação mágica, sobrenatural. Mas muitos sentem alívio. Porque significa que há tratamento, há psicólogo, há médico. Não é uma maldição eterna.

Mark

Você acredita que possessão demoníaca é real?

Mimi

Acredito que há coisas que a ciência ainda não explica completamente. Mas também acredito que 90% do que as pessoas chamam de possessão é saúde mental. Meu trabalho é separar uma coisa da outra com honestidade.

Mark

Qual é o maior desafio do seu ministério?

Mimi

Não é o ritual. É convencer a pessoa de que ela precisa de um psicólogo, não de um exorcista. É dizer isso com compaixão, sem fazer a pessoa se sentir rejeitada ou incompreendida.

Mark

Você tem medo de encontrar um caso real de possessão?

Mimi

Não tenho medo. Se encontrar, estarei preparado. Mas honestamente? Acho que vou passar a vida inteira ajudando pessoas com problemas emocionais que a Igreja pode ajudar a nomear e a tratar.

  • A nomeação do primeiro exorcista oficial da Serra Gaúcha gerou fila de espera imediata, revelando uma demanda reprimida por respostas espirituais a sofrimentos cotidianos.
  • TV e internet alimentam a crença de que depressão, barulhos e medos inexplicáveis têm origem demoníaca, empurrando pessoas vulneráveis para as portas da paróquia.
  • Para conter interpretações precipitadas, o padre montou uma equipe com psicólogos e psiquiatras — e apenas 5% a 10% dos casos chegam perto de um ritual de exorcismo.
  • O protocolo oficial do Vaticano, com critérios rigorosos como falar idiomas desconhecidos e força física incompatível, serve de filtro contra diagnósticos espirituais apressados.
  • O padre reposiciona o exorcismo não como confronto dramático, mas como ato de caridade — e afirma que ninguém sai pior do ritual, sempre melhor.

Na Serra Gaúcha, onde o imaginário popular e a angústia contemporânea se encontram, a Diocese de Caxias do Sul nomeou em julho o primeiro padre exorcista oficial da região — o padre Daniel D'Agnoluzzo Zatti — que já acumula fila de espera. O gesto institucional revela menos uma epidemia de possessões e mais uma epidemia de sofrimento em busca de nome: a maioria dos que batem à sua porta carrega depressão, medo e desorientação, não demônios. A Igreja, ao responder com protocolo, psicólogos e discernimento, oferece algo raro — uma estrutura que leva a dor a sério antes de lhe atribuir origem.

O cinema ensinou o mundo a reconhecer um exorcismo pelos gritos e pelos objetos voando. A realidade, segundo o padre Daniel D'Agnoluzzo Zatti, é muito mais silenciosa. Em julho, a Diocese de Caxias do Sul o nomeou primeiro exorcista oficial da Serra Gaúcha — uma função inédita na região, que já acumula fila de espera.

A demanda, explica o padre, nasce menos do sobrenatural e mais do algoritmo: pessoas que consomem histórias de possessão na TV e na internet passam a enxergar origem demoníaca na própria depressão, nos barulhos da casa, no medo sem nome. Para investigar cada caso com rigor, ele montou uma equipe que inclui psicólogos e psiquiatras. O resultado é revelador: entre 90% e 95% dos casos são encerrados nessa triagem, identificados como questões emocionais ou médicas. Apenas uma fração mínima avança para qualquer consideração de ritual.

Quando um caso passa pelo filtro, o padre segue o protocolo do Vaticano de 1998 — baseado em diretrizes de 1614 — que exige critérios específicos: falar idiomas nunca aprendidos, revelar informações impossíveis de saber, exibir força física incompatível com o corpo, demonstrar aversão visceral ao sagrado. Mesmo assim, o padre é honesto: 'O discernimento não é simples, não há fórmula matemática.'

Na memória da Serra, há um único caso documentado: nos anos 1940, no Santuário de Caravaggio, em Farroupilha, o padre Teodoro Portolan conduziu um ritual que durou horas ininterruptas. Egídio Viecelli, hoje com 94 anos, esteve presente e ainda recorda as palavras finais do episódio com precisão.

O padre Daniel não carrega esse peso como fardo. Para ele, o exorcismo é fundamentalmente um ato de misericórdia — uma permissão misteriosa de Deus para extrair um bem maior do sofrimento. 'A pessoa nunca sai pior', afirma. É essa visão — mais terapêutica do que aterrorizante — que talvez explique por que a fila de espera só cresce.

O cinema nos ensinou a reconhecer um exorcismo pelos gritos, pelos objetos que atravessam o ar, pelas forças que desafiam a física. A realidade, porém, é muito mais silenciosa e muito mais complicada. Em julho deste ano, a Diocese de Caxias do Sul nomeou o padre Daniel D'Agnoluzzo Zatti para uma função que ninguém antes havia ocupado na Serra Gaúcha: exorcista oficial. Ele já tem fila de espera.

O que levou a Igreja a criar esse ministério foi simples de reconhecer: muita gente bate à porta da paróquia procurando explicações. Pessoas que veem na televisão e na internet histórias de possessão demoníaca e começam a achar que aquilo que vivem — a depressão, os barulhos estranhos, o medo — tem origem sobrenatural. O padre Daniel entende isso. "O que gera a necessidade de se ter um padre nomeado para esse ministério é devido ao volume de procura", explica. "Gerado por um acesso a sugestões que aparecem na TV, na internet, de que essa seria uma das explicações fáceis para aquilo que a pessoa está vivendo."

Mas aqui está o ponto crucial: quando o padre Daniel e sua equipe começam a investigar esses casos, descobrem que a maioria deles não tem nada a ver com o sobrenatural. São quadros psíquicos distintos. Depressão profunda. Pessoas que ouvem barulhos dentro de casa e já concluem que a explicação é demoníaca. Para lidar com isso, o padre montou uma estrutura que parece mais clínica que sagrada: psicólogos e psiquiatras trabalham lado a lado com ele, avaliando cada pessoa que chega. Apenas entre 5% e 10% dos casos que procuram o ministério chegam sequer perto de um ritual de exorcismo. Os outros 90% são encerrados nessa fase de investigação, quando fica claro que o problema é emocional ou médico, não espiritual.

Quando um caso passa por essa triagem rigorosa e ainda assim levanta suspeitas legítimas de possessão, o padre segue o protocolo oficial do Vaticano, publicado em 1998 e baseado em diretrizes de 1614. O documento estabelece critérios específicos: a pessoa fala idiomas que nunca aprendeu, fornece informações que não teria como saber, demonstra força física incompatível com seu corpo, sente aversão visceral a símbolos sagrados. Mas o padre Daniel é honesto sobre as limitações disso tudo. "O discernimento não é simples, não há uma fórmula matemática que nos dá uma resposta objetiva", diz. "Ele também parte de uma leitura global da vida da pessoa."

Na Serra Gaúcha, há memória de apenas um caso de exorcismo que se tornou conhecido. Foi na década de 1940, no Santuário de Caravaggio, em Farroupilha. Uma mulher foi considerada possessa — segundo o relato, havia recebido uma maldição de seu ex-noivo. O padre Teodoro Portolan, reitor da época, conduziu o ritual. Levou oito horas de oração ininterrupta. Egídio Viecelli, que hoje tem 94 anos, estava lá. Ele recorda que foram três dias e três noites de preces. "Conseguiram tirar, só que foram muitas horas, e no fim, ele disse: 'Eu vou, mas tu vai pagar por isso'", lembra Egídio. Segundo ele, o padre foi perseguido pelo demônio a vida inteira depois disso.

O padre Daniel não sente medo dessa herança. Ele vê o exorcismo não como confronto, mas como caridade. "É um meio extraordinário misteriosamente permitido por Deus", afirma. "Não é derrota de Deus, mas é permissão de Deus para daí extrair um bem maior." Para ele, o ministério é fundamentalmente sobre misericórdia. "A pessoa nunca sai pior, ela sempre sai melhor do exorcismo." É uma visão que transforma o ritual de algo assustador em algo terapêutico — e talvez seja exatamente isso que as pessoas que batem à sua porta precisam ouvir.

O que gera a necessidade de se ter um padre nomeado para esse ministério é devido ao volume de procura por esse ministério. Gerado por um acesso a sugestões que aparecem na TV, na internet, de que essa seria uma das explicações fáceis para aquilo que a pessoa está vivendo
— Padre Daniel D'Agnoluzzo Zatti
O discernimento não é simples, não há uma fórmula matemática que nos dá uma resposta objetiva. Ele também parte de uma leitura global da vida da pessoa
— Padre Daniel D'Agnoluzzo Zatti
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