Presidência Trump se torna mercado de favores para negócios da família

A Presidência virou uma extensão dos negócios da família
Desde seu retorno ao poder, Trump transformou decisões estatais em oportunidades econômicas para si e seus filhos.
Mark

Por que isso importa? Presidentes sempre tiveram negócios antes de chegar ao cargo.

Mimi

Sim, mas há uma diferença entre ter negócios e usar o poder estatal para beneficiá-los enquanto está no cargo. Aqui, a família recebe investimentos públicos bilionários enquanto o presidente perdoa condenados que pagam milhões a lobistas.

Luke

Espera — o investimento do Pentágono na Vulcan Elements foi confirmado como favorecimento? Ou é correlação?

Mimi

Eles negaram qualquer participação. Mas o timing é suspeito: investimento em agosto, empréstimo de US$ 620 milhões em novembro.

Luke

Então não sabemos. É possível, mas não confirmado.

Mark

E quanto aos perdões? Schwartz pagou US$ 960 mil e recebeu clemência. Isso não é claramente compra de influência?

Mimi

Tecnicamente, ele pagou a um lobista, não diretamente ao presidente. Mas o efeito é o mesmo: dinheiro compra acesso, acesso compra clemência.

Luke

Embora — e isso importa — um condenado pobre também pode pedir perdão. A questão é se o presidente está considerando esses pedidos com a mesma atenção.

Mark

A juíza Williams parou o acordo fiscal?

Mimi

Ela disse que era ilegal. Mas o governo já tinha conseguido o que queria: um fundo de US$ 1,776 bilhão que protege a família.

Luke

E agora? Pode haver apelação?

Mimi

Provavelmente. Mas o padrão está claro: quando há resistência, a administração encontra outro caminho.

  • Joseph Schwartz pagou US$ 960 mil a lobistas e recebeu perdão presidencial em novembro de 2025
  • Trump Jr investiu em empresa que recebeu empréstimo de US$ 620 milhões do Pentágono três meses depois
  • Governo criou fundo de US$ 1,776 bilhão para proteger a família de auditorias fiscais
  • Trump demitiu 17 inspetores-gerais independentes na primeira semana do segundo mandato

Empresários pagam milhões a lobistas para obter perdões presidenciais e favores do governo, como Joseph Schwartz que desembolsou US$ 960 mil para conseguir clemência. Filhos de Trump recebem investimentos e financiamentos públicos bilionários para empresas, enquanto o presidente negocia com seu próprio governo sem representação dos contribuintes.

Desde seu retorno ao poder, Trump transformou a proximidade com a presidência em atividade econômica, misturando decisões estatais com interesses privados da família através de perdões, financiamentos e acordos bilionários.

Desde que Trump retornou à Casa Branca, a proximidade com o presidente e sua família se transformou numa atividade econômica de oportunidades extraordinárias. Quem quer encurtar uma sentença, garantir financiamento público, fechar um negócio bilionário ou cultivar uma amizade lucrativa sabe exatamente aonde ir — e quanto pagar.

O poder presidencial de perdoar crimes federais é amplo e sem necessidade de aprovação do Congresso. Teoricamente, um condenado sem dinheiro e sem acesso privilegiado à Casa Branca deveria ter seus pedidos de clemência considerados com a mesma seriedade que os de um empresário conhecido do presidente. Mas a realidade operacional é outra. Joseph Schwartz, antigo dono de uma rede de casas de repouso condenado por fraude fiscal de US$ 38 milhões, contratou a firma de lobby JM Burkman & Associates e desembolsou US$ 960 mil pelo serviço. Havia recebido sentença de três anos de prisão. Em novembro de 2025, Trump concedeu seu perdão. Trevor Milton, fundador da fabricante de caminhões Nikola, seguiu caminho semelhante: condenado por enganar investidores sobre a tecnologia da empresa e sentenciado a quatro anos, ele e sua esposa doaram mais de US$ 1,8 milhão a um fundo de campanha de Trump antes da eleição de 2024. O perdão veio em março. Trump justificou a decisão afirmando que Milton havia sido perseguido por apoiá-lo.

Os benefícios, porém, não se limitam a perdões. Em agosto do ano passado, a 1789 Capital — fundo do qual Trump Jr é sócio — investiu na Vulcan Elements, pequena fabricante de ímãs. Três meses depois, o Pentágono anunciou um compromisso de empréstimo de US$ 620 milhões à empresa. Trump Jr, o fundo e a companhia negaram qualquer participação dele na obtenção do financiamento ou em favorecimento político. O Catar ofereceu aos Estados Unidos um Boeing 747-8 avaliado em US$ 400 milhões, destinado ao transporte presidencial e, segundo o plano, à biblioteca de Trump. O governo catari negou qualquer tentativa de comprar influência, e Trump insistiu que a aeronave não era um presente pessoal.

Mas o presidente também negociou diretamente com o próprio governo que comanda. Em janeiro deste ano, Trump, seus filhos Donald Jr e Eric, e a Trump Organization processaram o IRS e o Tesouro, pedindo US$ 10 bilhões por danos decorrentes do vazamento de informações fiscais. Em maio, o Departamento de Justiça anunciou um acordo: os autores desistiriam da ação e não receberiam indenização direta. Em troca, o governo criaria um fundo de US$ 1,776 bilhão para compensar pessoas que alegassem ter sido vítimas de perseguição estatal. Cinco integrantes nomeados pelo chefe do Departamento de Justiça administrariam o fundo. A disputa sobre o sigilo fiscal de uma família se transformou num mecanismo bilionário para indenizar outras pessoas.

Houve ainda um benefício diretamente familiar. Todd Blanche, ex-advogado de Trump e então chefe interino do Departamento de Justiça, assinou uma ordem que pretendia impedir auditorias fiscais contra o presidente, seus filhos e entidades ligadas a eles. Em junho, depois de enfrentar resistência mesmo entre senadores republicanos, Blanche anunciou a desistência do fundo. Mas afirmou que a proteção contra auditorias das declarações fiscais anteriores continuaria. A juíza Kathleen Williams chegou a conclusão diferente. No dia 13 de julho, afirmou que os autores e o governo não haviam atuado como adversários reais, mas usaram o processo para dar aparência de legitimidade a um acordo sem base jurídica. Considerou a proteção fiscal contrária à lei.

Quando alguém processa o Estado, os advogados públicos devem defender o interesse de todos os contribuintes. Se passam a trabalhar de mãos dadas com quem exige vantagens do governo, o contribuinte fica sem representante. Trump negociava com seu próprio governo sem que houvesse quem defendesse os interesses públicos. Que uma juíza tenha reagido importa. Mas a administração trabalhou para enfraquecer muitos dos freios americanos a esse tipo de posição. Logo na primeira semana do segundo mandato, Trump demitiu 17 inspetores-gerais — fiscais independentes encarregados de investigar fraude e abuso. Os exemplos acumulam-se: apesar de ter sido eleito para administrar o governo federal americano, para Trump a Presidência veio acompanhada da autorização para tratar sua posição no Estado como uma extensão dos negócios da família.

Trump negociava com o próprio governo sem que o contribuinte tivesse quem defendesse seus interesses
— análise do padrão de negociações entre Trump e sua administração
Os autores e o governo não haviam atuado como adversários reais; usaram o processo para dar aparência de legitimidade a um acordo sem base jurídica
— Juíza Kathleen Williams, sobre o acordo fiscal
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