No litoral carioca, onde o mar encontra a cidade, uma disputa sobre autoridade e pertencimento se desenrola entre o poder municipal, a União e os trabalhadores que sobrevivem nas areias. A Prefeitura do Rio lançou o programa Tolerância Zero para ordenar o comércio ambulante nas praias da Zona Sul, mas o Ministério Público Federal questiona se o município tem competência para legislar sobre terras que pertencem constitucionalmente à União. No centro do conflito, além das questões jurídicas, estão homens e mulheres cujo sustento depende de um espaço público cuja governança ninguém ainda soube pa
Prefeitura usa drone para fiscalizar comércio irregular na orla no primeiro domingo do Tolerância Zero
Fiscalização permanente sem políticas de regularização
Por que a Prefeitura escolheu usar um drone para fazer esses avisos? Parece uma escolha muito específica.
Acho que é uma questão de visibilidade e alcance. Um drone consegue cobrir uma área grande da praia simultaneamente, transmitindo a mensagem para todos os camelôs de uma vez. É também uma forma de demonstrar que há tecnologia e recursos sendo mobilizados — cria uma presença que é difícil ignorar.
Mas o Ministério Público Federal entrou com uma ação. Qual é realmente o problema deles com o programa?
O problema não é exatamente com a fiscalização em si. É que as praias são propriedade federal, não municipal. O MPF está dizendo que a Prefeitura não pode simplesmente implementar uma política permanente de restrição sem que a União esteja envolvida e sem que haja normas federais sendo respeitadas.
E quanto aos camelôs? Eles estão sendo simplesmente expulsos?
Pior que isso. O programa prevê apreensão de mercadorias e restrições ao comércio, mas não há políticas públicas de regularização ou alternativas sendo oferecidas. Os trabalhadores estão sendo retirados sem ter para onde ir.
A Fecomércio apoiou o programa. Isso não é um sinal de que o ordenamento é realmente necessário?
Talvez seja necessário, mas a questão é como fazer isso. A Fecomércio representa o comércio formal, que se beneficia quando o comércio de rua é removido. Não significa que eles estejam errados sobre a necessidade de ordem, mas significa que têm interesse direto no resultado.
Então a Justiça Federal vai ter que decidir tudo isso?
Sim. Vai ter que determinar se a Prefeitura tem competência para agir nas praias federais e, implicitamente, se é possível fazer ordenamento urbano sem criar mecanismos de proteção para quem será deslocado.
The Pulse
- Drones sobrevoam Copacabana, Ipanema e Leblon transmitindo avisos gravados — a fiscalização permanente chegou às praias sem aviso prévio aos trabalhadores ambulantes.
- O Ministério Público Federal aciona a Justiça com urgência, argumentando que a Prefeitura invadiu território federal ao impor restrições em praias que pertencem à União.
- Camelôs se organizam para protestar em Copacabana enquanto mercadorias são apreendidas e nenhuma política de regularização foi oferecida em troca.
- O prefeito Eduardo Cavaliere e a Fecomércio defendem o programa como pilar do ordenamento urbano e do turismo, apostando na ratificação judicial da competência municipal.
- A Justiça Federal se torna o árbitro de uma disputa que vai além das praias: quem tem o direito de ordenar o espaço público — e a que custo humano?
No litoral carioca, onde o mar encontra a cidade, uma disputa sobre autoridade e pertencimento se desenrola entre o poder municipal, a União e os trabalhadores que sobrevivem nas areias. A Prefeitura do Rio lançou o programa Tolerância Zero para ordenar o comércio ambulante nas praias da Zona Sul, mas o Ministério Público Federal questiona se o município tem competência para legislar sobre terras que pertencem constitucionalmente à União. No centro do conflito, além das questões jurídicas, estão homens e mulheres cujo sustento depende de um espaço público cuja governança ninguém ainda soube partilhar com justiça.
No primeiro domingo do programa Tolerância Zero, um drone sobrevoava as praias da Zona Sul do Rio transmitindo avisos gravados aos comerciantes ambulantes: atividades sem autorização estavam proibidas e a fiscalização seria permanente. A iniciativa, lançada na quinta-feira anterior pela Prefeitura, tinha como objetivo ordenar o espaço público nas areias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon — mas rapidamente se transformou em um campo de batalha jurídico e social.
O Ministério Público Federal respondeu com uma ação civil pública pedindo a suspensão imediata do programa. O argumento era constitucional: as praias marítimas são propriedade da União, e a Prefeitura teria agido sem observar as normas federais que regulam esses espaços. Mais do que a suspensão, o MPF pediu que União e município elaborassem juntos um plano de gestão capaz de conciliar ordenamento urbano, combate ao crime organizado e proteção dos direitos dos trabalhadores ambulantes — categoria que enfrenta apreensões de mercadorias sem qualquer política de regularização em vigor.
A Prefeitura reagiu rapidamente. O prefeito Eduardo Cavaliere declarou nas redes sociais que esperava que a Justiça Federal reconhecesse a competência constitucional do município para atuar no combate às irregularidades. A Federação do Comércio do Estado do Rio reforçou o apoio, argumentando que o ordenamento é essencial para o turismo, o comércio formal e a segurança coletiva.
Enquanto a Justiça Federal se prepara para decidir sobre a competência municipal, os drones continuam sobrevoando e os camelôs se organizam para protestar. O que está em disputa não é apenas a presença de vendedores nas areias — é a pergunta mais difícil: quem tem autoridade para ordenar o espaço público, e o que acontece com aqueles que ficam do lado de fora dessa ordem?
No primeiro domingo de implementação do programa Tolerância Zero, a Prefeitura do Rio de Janeiro levou para o ar um recurso inusitado: um drone sobrevoando as praias da Zona Sul, transmitindo avisos gravados para os comerciantes ambulantes que ainda ocupavam o calçadão. A mensagem era clara e repetida: atividades econômicas sem autorização estavam proibidas naquele perímetro, a fiscalização seria permanente, e os camelôs deveriam se retirar do local. A iniciativa, lançada na quinta-feira anterior, tinha um objetivo simples — aumentar o ordenamento e a fiscalização sobre a cidade — mas rapidamente se tornou um ponto de tensão entre diferentes atores da administração pública e da sociedade.
Desde o início, o programa gerou reação organizada. Os comerciantes ambulantes começaram a se mobilizar para protestar em Copacabana, enquanto o Ministério Público Federal acionava a Justiça Federal com uma ação civil pública pedindo a suspensão imediata da iniciativa. O argumento central era de ordem constitucional: as praias marítimas são propriedade da União, não do município. A Prefeitura, segundo o procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, havia implementado uma política permanente de fiscalização nas areias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon sem observar as normas federais que regulam esses espaços. Além disso, o programa previa apreensões de mercadorias e restrições ao comércio ambulante sem que tivessem sido criadas políticas públicas de regularização para a categoria — deixando os trabalhadores em uma situação de vulnerabilidade legal.
O Ministério Público Federal pediu mais do que apenas a suspensão. Solicitou que União e município elaborassem, em conjunto, um plano de gestão das praias capaz de conciliar três objetivos aparentemente conflitantes: o ordenamento urbano, o combate ao crime organizado e a proteção dos direitos dos trabalhadores ambulantes. Era uma tentativa de forçar uma negociação que reconhecesse todos os lados da questão.
A resposta da Prefeitura veio rápida. No sábado, o prefeito Eduardo Cavaliere usou as redes sociais para reagir, afirmando que esperava que a Justiça Federal ratificasse o que ele chamou de óbvio: a competência constitucional da Prefeitura do Rio e do governo estadual para atuar no combate às irregularidades e na garantia da autoridade no espaço público. Era uma aposta de que os tribunais concordariam com a leitura municipal sobre quem tem poder para agir nas praias.
Não estava sozinho nessa posição. A Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro saiu em defesa do Tolerância Zero, argumentando que o ordenamento urbano é essencial para fortalecer o comércio formal, impulsionar o turismo e garantir um ambiente mais seguro e organizado para residentes, visitantes e empreendedores. Para a Fecomércio, a questão não era apenas administrativa — era sobre criar condições para que o comércio estabelecido pudesse prosperar sem a concorrência do comércio de rua.
O que estava em jogo era mais do que a simples retirada de camelôs das praias. Era uma disputa sobre quem tem autoridade para ordenar o espaço público, como se equilibram direitos constitucionais conflitantes, e se é possível implementar políticas de segurança urbana sem criar mecanismos de proteção para aqueles que seriam deslocados. A Justiça Federal teria que decidir se a Prefeitura tinha competência para agir ou se havia violado a propriedade federal das praias. Enquanto isso, os drones continuariam sobrevoando, e os comerciantes continuariam se organizando.
Notable Quotes
A competência constitucional da Prefeitura do Rio e do governo estadual para atuar no combate às irregularidades e na garantia da autoridade no espaço público— Prefeito Eduardo Cavaliere
O ordenamento urbano é essencial para fortalecer o comércio formal, impulsionar o turismo e garantir um ambiente mais seguro e organizado— Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro