IA não converte o esperado em empresas; gestão engessada e falta de talentos travam tecnologia

A tecnologia chega antes que as empresas estejam preparadas
Especialista aponta que o amadurecimento organizacional não acompanha o ritmo da inovação tecnológica.
Mark

Por que a IA não está gerando o retorno que as empresas esperavam?

Mimi

Porque as empresas estão tentando colocar uma tecnologia radicalmente nova em estruturas organizacionais que não mudaram. É como tentar rodar um software moderno em um computador dos anos 90 — o hardware pode ser novo, mas o sistema operacional segue o mesmo.

Mark

Então o problema não é a tecnologia em si?

Mimi

Não. O software de desenvolvimento já prova isso — quando a área reorganizou o fluxo de trabalho para que IA e humanos trabalhassem juntos de forma diferente, a produtividade disparou. Mas isso exigiu mudança de processo, não apenas adição de ferramentas.

Mark

E a questão dos talentos? Parece ser um gargalo real.

Mimi

É. Mais de 90% das empresas vão enfrentar falta crítica de profissionais qualificados até 2026. Nos EUA, o número de trabalhadores em funções que exigem fluência em IA cresceu de 1 milhão para 7 milhões em dois anos. A demanda está muito à frente da oferta.

Mark

Qual é o papel da liderança nesse processo?

Mimi

Fundamental e negligenciado. Muitas empresas deixam que a adoção venha de baixo para cima, com funcionários experimentando enquanto os líderes ficam de fora. Quando chega a hora de implementar em escala, a liderança não tem o hábito de usar a tecnologia. É como pilotar um avião sem nunca ter entrado em um.

Mark

E a questão legal? Isso está travando as coisas?

Mimi

Está. A incerteza sobre propriedade intelectual e responsabilidade civil faz as empresas hesitarem. No Brasil, estamos em um limbo normativo — o Marco da IA foi aprovado no Senado mas a votação final foi adiada. Enquanto isso, a ANPD atua como reguladora de fato.

Mark

Governança de dados parece ser a chave, então?

Mimi

É uma das chaves. Quando está bem feita, evita problemas que destroem a confiança na tecnologia e interrompem a transformação. Funciona como acelerador de produtividade porque reduz riscos e cria segurança para que as pessoas realmente usem a ferramenta.

  • Bilhões são investidos em IA no Brasil, mas o retorno esperado não se materializa — a tecnologia existe, mas as condições para que ela funcione, não.
  • Três erros recorrentes sabotam as implementações: lideranças que delegam sem aprender, IA inserida em processos velhos e ausência de regras claras para riscos reais como segurança da informação e decisões automatizadas.
  • A escassez de talentos ameaça travar o avanço: mais de 90% das empresas devem enfrentar falta crítica de profissionais qualificados em IA até o fim de 2026.
  • O setor de software aponta o caminho — ao reorganizar seus fluxos de trabalho em torno de agentes de IA, já colhe ganhos expressivos de produtividade, mostrando que a mudança de processo é o verdadeiro gatilho.
  • O Brasil vive um limbo normativo: o Marco da IA aguarda votação na Câmara após as eleições de 2026, deixando empresas sob incerteza jurídica que freia implementações mais ousadas.

Em meio a uma corrida global por eficiência tecnológica, empresas brasileiras descobrem que investir em inteligência artificial não é suficiente para colher seus frutos. O problema não reside na sofisticação das ferramentas, mas na imaturidade das estruturas que as cercam — lideranças despreparadas, processos intocados e ausência de governança revelam que a transformação digital exige, antes de tudo, uma transformação humana. O país aguarda ainda um marco regulatório que dê segurança jurídica ao avanço, enquanto o mercado acumula investimentos e questiona por que a prometida onda de produtividade ainda não chegou.

As empresas brasileiras investem pesado em inteligência artificial, mas o retorno prometido insiste em não aparecer. Para Lucas Reis, especialista em tecnologia e estratégia digital, o nó não está na máquina — está em tudo que a rodeia. O impacto econômico real da IA depende de três condições que as organizações ainda não dominam: reformulações estruturais profundas, qualificação séria de pessoal e governança clara.

Os erros são bem mapeados. Primeiro, a adoção acontece de baixo para cima — funcionários experimentam ferramentas enquanto a liderança permanece alheia, sem aprender a usar a tecnologia antes de mandá-la escalar. Segundo, a IA é inserida nos fluxos de trabalho existentes sem que nada mude ao redor, perpetuando as velhas ineficiências com um rótulo de modernidade. Terceiro, falta governança para lidar com riscos concretos: propriedade intelectual, segurança da informação e decisões automatizadas que podem sair dos trilhos.

Por baixo de tudo isso, há um problema ainda mais urgente: falta gente. A IDC projeta que mais de 90% das empresas enfrentarão escassez crítica de talentos em IA até o fim de 2026. Nos Estados Unidos, o número de trabalhadores com fluência na tecnologia saltou de 1 milhão para 7 milhões entre 2023 e 2025 — crescimento vertiginoso, mas ainda aquém da demanda.

Há uma exceção que ilumina o caminho: o setor de desenvolvimento de software já colhe ganhos expressivos ao reorganizar seus processos para que agentes de IA produzam código em escala sob supervisão humana. Quando o fluxo de trabalho muda de verdade, a tecnologia entrega. Mas esse modelo ainda é raro.

No plano jurídico, o Brasil vive um limbo. O Marco da IA — PL 2.338/2023 — foi aprovado pelo Senado, mas a votação final na Câmara foi adiada para depois das eleições de 2026. Enquanto isso, a ANPD atua como reguladora de fato via LGPD. Reis aponta que uma boa governança de dados funciona como acelerador: quando bem estruturada, evita os tropeços que destroem a confiança na tecnologia e interrompem a transformação digital. O paradoxo permanece — a tecnologia chega antes que empresas, pessoas e regulação estejam prontas para aproveitá-la.

As empresas investem bilhões em inteligência artificial, mas o retorno esperado não chega. A tecnologia está lá, sofisticada e pronta. O problema, segundo especialistas, não é a máquina — é tudo que a rodeia: a forma como as organizações estão estruturadas, quem as comanda, e se há gente qualificada o suficiente para fazer a coisa funcionar de verdade.

Lucas Reis, especialista em tecnologia e estratégia digital, conversou com o Poder360 e apontou que o impacto econômico real da IA depende de três coisas que as empresas ainda não fazem bem: reformulações estruturais profundas, investimento sério em qualificação de pessoal, e governança clara. Sem isso, a tecnologia fica pendurada no ar, bonita mas inútil.

Os erros que as companhias cometem são bem específicos. Primeiro: deixam que a adoção de IA venha de baixo para cima, com funcionários experimentando ferramentas enquanto a liderança fica de fora. Ninguém no topo aprende a usar a coisa antes de mandar implementar em larga escala. Segundo: colocam IA nos fluxos de trabalho que já existem sem mexer em nada do que vinha antes, o que significa que as velhas ineficiências continuam ali, só que agora com um rótulo de "inteligente". Terceiro: não estabelecem governança clara para lidar com os riscos reais — propriedade intelectual, segurança da informação, decisões automatizadas que podem dar errado.

Mas há um obstáculo ainda maior: não há gente suficiente. A consultoria IDC projeta que mais de 90% das empresas vão enfrentar escassez crítica de talentos em IA até o final de 2026. Nos Estados Unidos, o número de trabalhadores em funções que exigem fluência em IA saltou de cerca de 1 milhão em 2023 para 7 milhões em 2025, segundo a McKinsey. É um crescimento vertiginoso, mas ainda insuficiente para a demanda.

Há uma exceção notável: o setor de desenvolvimento de software já vê ganhos expressivos de produtividade. A razão é simples — a área reorganizou seu fluxo de trabalho para que agentes de IA escrevam milhares de linhas de código por hora sob supervisão de um programador humano. Quando o processo muda, a tecnologia funciona. Mas isso é raro. A maioria das empresas ainda espera que a IA se encaixe nos processos antigos.

Há também a questão legal. A incerteza sobre propriedade intelectual e responsabilidade civil desacelera implementações mais agressivas. No Brasil, o Marco da IA — Projeto de Lei 2.338 de 2023 — já foi aprovado pelo Senado e aguarda análise na Câmara, mas a votação final foi adiada para depois das eleições de 2026. Enquanto isso, o país vive em um limbo normativo temporário, com a ANPD atuando como reguladora de fato através da LGPD.

Segundo Reis, a governança de dados — o conjunto de diretrizes e práticas para garantir segurança, privacidade e qualidade das informações corporativas — funciona como acelerador de produtividade. Quando está bem feita, evita problemas que destroem a confiança na tecnologia e interrompem a transformação digital. O paradoxo é claro: a tecnologia chega antes que as empresas e as pessoas estejam preparadas para extrair seu potencial. O mesmo vale para a regulação. Enquanto isso, o mercado espera, investe, e se pergunta por que o ganho de produtividade que todos prometeram ainda não apareceu.

Os principais erros das companhias são permitir adoção de baixo para cima sem liderança preparada, inserir IA sem modificar processos antigos, e falta de governança clara para riscos
— Lucas Reis, especialista em tecnologia e estratégia digital
A governança de dados funciona como fator de aceleração da produtividade porque evita problemas que comprometem a confiança na tecnologia
— Lucas Reis
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