Em meio a uma corrida global por eficiência tecnológica, empresas brasileiras descobrem que investir em inteligência artificial não é suficiente para colher seus frutos. O problema não reside na sofisticação das ferramentas, mas na imaturidade das estruturas que as cercam — lideranças despreparadas, processos intocados e ausência de governança revelam que a transformação digital exige, antes de tudo, uma transformação humana. O país aguarda ainda um marco regulatório que dê segurança jurídica ao avanço, enquanto o mercado acumula investimentos e questiona por que a prometida onda de produtivid
IA não converte o esperado em empresas; gestão engessada e falta de talentos travam tecnologia
A tecnologia chega antes que as empresas estejam preparadas
Por que a IA não está gerando o retorno que as empresas esperavam?
Porque as empresas estão tentando colocar uma tecnologia radicalmente nova em estruturas organizacionais que não mudaram. É como tentar rodar um software moderno em um computador dos anos 90 — o hardware pode ser novo, mas o sistema operacional segue o mesmo.
Então o problema não é a tecnologia em si?
Não. O software de desenvolvimento já prova isso — quando a área reorganizou o fluxo de trabalho para que IA e humanos trabalhassem juntos de forma diferente, a produtividade disparou. Mas isso exigiu mudança de processo, não apenas adição de ferramentas.
E a questão dos talentos? Parece ser um gargalo real.
É. Mais de 90% das empresas vão enfrentar falta crítica de profissionais qualificados até 2026. Nos EUA, o número de trabalhadores em funções que exigem fluência em IA cresceu de 1 milhão para 7 milhões em dois anos. A demanda está muito à frente da oferta.
Qual é o papel da liderança nesse processo?
Fundamental e negligenciado. Muitas empresas deixam que a adoção venha de baixo para cima, com funcionários experimentando enquanto os líderes ficam de fora. Quando chega a hora de implementar em escala, a liderança não tem o hábito de usar a tecnologia. É como pilotar um avião sem nunca ter entrado em um.
E a questão legal? Isso está travando as coisas?
Está. A incerteza sobre propriedade intelectual e responsabilidade civil faz as empresas hesitarem. No Brasil, estamos em um limbo normativo — o Marco da IA foi aprovado no Senado mas a votação final foi adiada. Enquanto isso, a ANPD atua como reguladora de fato.
Governança de dados parece ser a chave, então?
É uma das chaves. Quando está bem feita, evita problemas que destroem a confiança na tecnologia e interrompem a transformação. Funciona como acelerador de produtividade porque reduz riscos e cria segurança para que as pessoas realmente usem a ferramenta.
The Pulse
- Bilhões são investidos em IA no Brasil, mas o retorno esperado não se materializa — a tecnologia existe, mas as condições para que ela funcione, não.
- Três erros recorrentes sabotam as implementações: lideranças que delegam sem aprender, IA inserida em processos velhos e ausência de regras claras para riscos reais como segurança da informação e decisões automatizadas.
- A escassez de talentos ameaça travar o avanço: mais de 90% das empresas devem enfrentar falta crítica de profissionais qualificados em IA até o fim de 2026.
- O setor de software aponta o caminho — ao reorganizar seus fluxos de trabalho em torno de agentes de IA, já colhe ganhos expressivos de produtividade, mostrando que a mudança de processo é o verdadeiro gatilho.
- O Brasil vive um limbo normativo: o Marco da IA aguarda votação na Câmara após as eleições de 2026, deixando empresas sob incerteza jurídica que freia implementações mais ousadas.
Em meio a uma corrida global por eficiência tecnológica, empresas brasileiras descobrem que investir em inteligência artificial não é suficiente para colher seus frutos. O problema não reside na sofisticação das ferramentas, mas na imaturidade das estruturas que as cercam — lideranças despreparadas, processos intocados e ausência de governança revelam que a transformação digital exige, antes de tudo, uma transformação humana. O país aguarda ainda um marco regulatório que dê segurança jurídica ao avanço, enquanto o mercado acumula investimentos e questiona por que a prometida onda de produtividade ainda não chegou.
As empresas brasileiras investem pesado em inteligência artificial, mas o retorno prometido insiste em não aparecer. Para Lucas Reis, especialista em tecnologia e estratégia digital, o nó não está na máquina — está em tudo que a rodeia. O impacto econômico real da IA depende de três condições que as organizações ainda não dominam: reformulações estruturais profundas, qualificação séria de pessoal e governança clara.
Os erros são bem mapeados. Primeiro, a adoção acontece de baixo para cima — funcionários experimentam ferramentas enquanto a liderança permanece alheia, sem aprender a usar a tecnologia antes de mandá-la escalar. Segundo, a IA é inserida nos fluxos de trabalho existentes sem que nada mude ao redor, perpetuando as velhas ineficiências com um rótulo de modernidade. Terceiro, falta governança para lidar com riscos concretos: propriedade intelectual, segurança da informação e decisões automatizadas que podem sair dos trilhos.
Por baixo de tudo isso, há um problema ainda mais urgente: falta gente. A IDC projeta que mais de 90% das empresas enfrentarão escassez crítica de talentos em IA até o fim de 2026. Nos Estados Unidos, o número de trabalhadores com fluência na tecnologia saltou de 1 milhão para 7 milhões entre 2023 e 2025 — crescimento vertiginoso, mas ainda aquém da demanda.
Há uma exceção que ilumina o caminho: o setor de desenvolvimento de software já colhe ganhos expressivos ao reorganizar seus processos para que agentes de IA produzam código em escala sob supervisão humana. Quando o fluxo de trabalho muda de verdade, a tecnologia entrega. Mas esse modelo ainda é raro.
No plano jurídico, o Brasil vive um limbo. O Marco da IA — PL 2.338/2023 — foi aprovado pelo Senado, mas a votação final na Câmara foi adiada para depois das eleições de 2026. Enquanto isso, a ANPD atua como reguladora de fato via LGPD. Reis aponta que uma boa governança de dados funciona como acelerador: quando bem estruturada, evita os tropeços que destroem a confiança na tecnologia e interrompem a transformação digital. O paradoxo permanece — a tecnologia chega antes que empresas, pessoas e regulação estejam prontas para aproveitá-la.
As empresas investem bilhões em inteligência artificial, mas o retorno esperado não chega. A tecnologia está lá, sofisticada e pronta. O problema, segundo especialistas, não é a máquina — é tudo que a rodeia: a forma como as organizações estão estruturadas, quem as comanda, e se há gente qualificada o suficiente para fazer a coisa funcionar de verdade.
Lucas Reis, especialista em tecnologia e estratégia digital, conversou com o Poder360 e apontou que o impacto econômico real da IA depende de três coisas que as empresas ainda não fazem bem: reformulações estruturais profundas, investimento sério em qualificação de pessoal, e governança clara. Sem isso, a tecnologia fica pendurada no ar, bonita mas inútil.
Os erros que as companhias cometem são bem específicos. Primeiro: deixam que a adoção de IA venha de baixo para cima, com funcionários experimentando ferramentas enquanto a liderança fica de fora. Ninguém no topo aprende a usar a coisa antes de mandar implementar em larga escala. Segundo: colocam IA nos fluxos de trabalho que já existem sem mexer em nada do que vinha antes, o que significa que as velhas ineficiências continuam ali, só que agora com um rótulo de "inteligente". Terceiro: não estabelecem governança clara para lidar com os riscos reais — propriedade intelectual, segurança da informação, decisões automatizadas que podem dar errado.
Mas há um obstáculo ainda maior: não há gente suficiente. A consultoria IDC projeta que mais de 90% das empresas vão enfrentar escassez crítica de talentos em IA até o final de 2026. Nos Estados Unidos, o número de trabalhadores em funções que exigem fluência em IA saltou de cerca de 1 milhão em 2023 para 7 milhões em 2025, segundo a McKinsey. É um crescimento vertiginoso, mas ainda insuficiente para a demanda.
Há uma exceção notável: o setor de desenvolvimento de software já vê ganhos expressivos de produtividade. A razão é simples — a área reorganizou seu fluxo de trabalho para que agentes de IA escrevam milhares de linhas de código por hora sob supervisão de um programador humano. Quando o processo muda, a tecnologia funciona. Mas isso é raro. A maioria das empresas ainda espera que a IA se encaixe nos processos antigos.
Há também a questão legal. A incerteza sobre propriedade intelectual e responsabilidade civil desacelera implementações mais agressivas. No Brasil, o Marco da IA — Projeto de Lei 2.338 de 2023 — já foi aprovado pelo Senado e aguarda análise na Câmara, mas a votação final foi adiada para depois das eleições de 2026. Enquanto isso, o país vive em um limbo normativo temporário, com a ANPD atuando como reguladora de fato através da LGPD.
Segundo Reis, a governança de dados — o conjunto de diretrizes e práticas para garantir segurança, privacidade e qualidade das informações corporativas — funciona como acelerador de produtividade. Quando está bem feita, evita problemas que destroem a confiança na tecnologia e interrompem a transformação digital. O paradoxo é claro: a tecnologia chega antes que as empresas e as pessoas estejam preparadas para extrair seu potencial. O mesmo vale para a regulação. Enquanto isso, o mercado espera, investe, e se pergunta por que o ganho de produtividade que todos prometeram ainda não apareceu.
Notable Quotes
Os principais erros das companhias são permitir adoção de baixo para cima sem liderança preparada, inserir IA sem modificar processos antigos, e falta de governança clara para riscos— Lucas Reis, especialista em tecnologia e estratégia digital
A governança de dados funciona como fator de aceleração da produtividade porque evita problemas que comprometem a confiança na tecnologia— Lucas Reis