Em Porto Alegre, uma obra de proteção contra enchentes na Zona Norte tornou-se símbolo de uma tensão antiga: a distância entre a linguagem técnica do poder público e a experiência vivida por quem perdeu o chão sob os pés. O dique entre Sarandi e Anchieta desvia água do Arroio Passo das Pedras para o Rio Gravataí, e embora estudos da prefeitura e da UFRGS apontem influência mínima de dois a seis milímetros no nível do rio, moradores deslocados da região metropolitana enxergam na bomba uma escolha — e acreditam ter sido o lado preterido. A ciência mede milímetros; o desamparo não tem escala.
Prefeitura nega influência de dique da Zona Norte nas cheias do Rio Gravataí
A água subindo, a gente sabe que a Zona Norte tá mandando água pra cá
Por que moradores como Adão acreditam que estão sendo sacrificados para proteger o aeroporto?
Porque veem a água sendo desviada fisicamente de um lugar para outro, e eles estão no lugar para onde ela vai. A lógica visual é mais forte que a lógica técnica. Quando você perde sua casa, um estudo que diz "dois a seis milímetros" soa como uma abstração.
O Dmae realmente acredita que essa quantidade de água não importa?
Sim, e a universidade concorda. Mas há uma diferença entre "não importa" e "não importa para o nível do rio". Para Adão, importa porque ele está molhado.
Então o dique funciona? Protege a Zona Norte?
Funciona. Protegeu a Zona Norte durante essa enchente. Mas o preço foi pago em outro lugar, e isso é o que ninguém consegue resolver com números.
A obra vai terminar em agosto. Muda algo quando ficar automática?
Tecnicamente, não. A água continuará sendo desviada. Mas talvez psicologicamente mude algo — quando não há bombas visíveis, é mais fácil fingir que a escolha não existe.
Qual é o verdadeiro problema aqui?
Que a engenharia resolveu um problema criando outro, e chamou isso de solução. Ninguém está mentindo sobre os números. Mas também ninguém está dizendo: alguém tinha que ficar molhado.
The Pulse
- O Rio Gravataí permaneceu acima da cota de inundação de 4,75 metros, mantendo cinquenta famílias fora de suas casas e alimentando a desconfiança sobre a origem da cheia.
- Moradores afetados, como Adão Souza Dias Júnior, de Alvorada, acreditam que o dique em construção está deliberadamente desviando água para proteger o aeroporto às custas das comunidades ribeirinhas da região metropolitana.
- A prefeitura de Porto Alegre e o Dmae respondem com estudos técnicos e comparações didáticas — um copo d'água em uma piscina olímpica —, mas a narrativa institucional encontra resistência onde a água já entrou pela porta.
- A UFRGS corrobora que a obra não causa impacto nas cheias de Cachoeirinha, Gravataí e Canoas, reforçando que a estrutura é essencial para proteger a Zona Norte após a vulnerabilidade exposta em 2024.
- Com conclusão prevista para agosto de 2026 e operação automática das bombas, o dique avança — mas a confiança das comunidades deslocadas ainda não tem prazo de entrega.
Em Porto Alegre, uma obra de proteção contra enchentes na Zona Norte tornou-se símbolo de uma tensão antiga: a distância entre a linguagem técnica do poder público e a experiência vivida por quem perdeu o chão sob os pés. O dique entre Sarandi e Anchieta desvia água do Arroio Passo das Pedras para o Rio Gravataí, e embora estudos da prefeitura e da UFRGS apontem influência mínima de dois a seis milímetros no nível do rio, moradores deslocados da região metropolitana enxergam na bomba uma escolha — e acreditam ter sido o lado preterido. A ciência mede milímetros; o desamparo não tem escala.
Na Zona Norte de Porto Alegre, um dique em construção entre os bairros Sarandi e Anchieta foi projetado para proteger — mas acabou gerando desconfiança entre quem se sente do lado errado da equação. A obra desvia água do Arroio Passo das Pedras para o Rio Gravataí, e essa imagem concreta — água sendo bombeada de um ponto a outro — plantou uma pergunta incômoda em quem perdeu a casa na enchente: a proteção de uns está custando o alagamento de outros?
Adão Souza Dias Júnior, morador do bairro Americana, em Alvorada, saiu de casa quando o rio subiu e passou a observar o Gravataí com suspeita. Para ele, a explicação é direta: a Zona Norte está mandando água para o outro lado para preservar o aeroporto, e quem arca com as consequências são os moradores da região metropolitana. A prefeitura de Alvorada registrou cinquenta famílias deslocadas — cento e vinte e nove pessoas — além de seis abrigadas no Ginásio Tancredo Neves.
O Dmae rebate com números e analogias. Vicente Perrone, diretor-presidente do órgão, compara o volume desviado a um copo d'água em uma piscina olímpica. Um estudo da consultoria Rhama Analysis quantifica a influência em dois a seis milímetros no nível do rio. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pelo seu Instituto de Pesquisas Hidráulicas, chegou à mesma conclusão: a obra não impacta as cheias de Cachoeirinha, Gravataí ou Canoas, e é considerada essencial para proteger a Zona Norte, que ficou gravemente vulnerável no evento de 2024.
Por ora, bombas temporárias realizam o desvio enquanto a construção avança. A previsão é que o dique esteja concluído ainda em agosto, com operação automática. A estrutura integra um sistema maior de prevenção contra enchentes. Mas para quem está do outro lado recebendo essa água, os milímetros técnicos não apagam a imagem da bomba em funcionamento — nem a sensação de que, em algum lugar, uma escolha foi feita.
Na Zona Norte de Porto Alegre, uma obra de engenharia pensada para proteger está gerando desconfiança entre os moradores que ela deixou para trás. Um dique em construção entre os bairros Sarandi e Anchieta funciona desviando água do Arroio Passo das Pedras diretamente para o Rio Gravataí — e essa imagem, a água sendo bombeada de um lado para o outro, plantou uma pergunta incômoda nas mentes de quem perdeu suas casas na enchente: será que estão nos salvando ou nos afogando?
Adão Souza Dias Júnior mora no bairro Americana, em Alvorada, na região metropolitana. Ele saiu de casa quando a água subiu, e agora observa o Rio Gravataí com desconfiança. Até a tarde de segunda-feira, o rio mantinha-se entre 4,77 e 4,79 metros — acima da cota de inundação de 4,75 metros. Para Adão, a explicação é clara: a Zona Norte está mandando água para o outro lado para proteger o aeroporto, e quem paga o preço é ele e seus vizinhos. "A água subindo mesmo foi segunda passada. Foi quando ela começou a aparecer. Porque quando ela aparece e chega ali, é certo que vem alta e aí precisa sair de casa. Não tem o que fazer. E agora a gente sabe que a Zona Norte tá mandando água aqui pro outro lado pra não ir para o aeroporto", diz.
A prefeitura de Alvorada informou que ofereceu apoio a cinquenta famílias — cento e vinte e nove pessoas no total — para que se deslocassem para casas de parentes, amigos ou imóveis alugados. Outras seis pessoas, de quatro famílias diferentes, estão abrigadas no Ginásio Tancredo Neves. O custo humano da enchente é mensurável em números, mas a desconfiança que ela deixou é mais difícil de quantificar.
O Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre, o Dmae, tem uma resposta para a preocupação. Vicente Perrone, diretor-presidente do órgão, usa uma comparação que pretende ser tranquilizadora: é como colocar um copo de água em uma piscina olímpica, ou tirar um grão de areia de uma bacia cheia de areia. A vazão que está sendo direcionada ao Rio Gravataí, segundo ele, é proporcionalmente insignificante. Um estudo técnico encomendado pela prefeitura à consultoria Rhama Analysis quantifica essa insignificância: a influência é de dois a seis milímetros. Perrone completa: "Simulações de computador e mesmo toda essa água que está sendo colocada não tem nenhum impacto no nível do Rio Gravataí. Estamos bastante tranquilos. Os órgãos competentes já fizeram o licenciamento".
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, através de seu Instituto de Pesquisas Hidráulicas, chegou à mesma conclusão. Fernando Meirelles, professor do instituto, defende que a obra é não apenas inócua para as enchentes da região, mas essencial para a proteção da Zona Norte, que ficou vulnerável durante o evento de 2024. "Essa obra é essencial para proteger a Zona Norte de Porto Alegre, que ficou muito vulnerável, como a gente pode ver no evento de 2024. Nós consideramos que não tem influência nenhuma na questão da cheia de Cachoeirinha, Gravataí, Canoas, essa construção desse dique emergencial", afirma.
O funcionamento atual é emergencial. Bombas instaladas temporariamente desviam a água enquanto a obra principal prossegue. Quando o dique estiver concluído — previsão para ainda em agosto — esse processo será automático. A estrutura faz parte de um sistema maior de prevenção contra enchentes, e sua função é evitar que a água volte para os bairros da Zona Norte e cause alagamentos lá. Mas para quem está do outro lado, recebendo essa água, a lógica é mais simples: alguém ganhou, alguém perdeu. E os números — dois a seis milímetros — não conseguem apagar a imagem da água sendo bombeada para longe de um lado e chegando ao seu.
Notable Quotes
É como se a gente pegasse um copo d'água e colocasse dentro de uma piscina olímpica. São proporções muito pequenas de secagem.— Vicente Perrone, diretor-presidente do Dmae
Essa obra é essencial para proteger a Zona Norte de Porto Alegre, que ficou muito vulnerável. Não tem influência nenhuma na questão da cheia de Cachoeirinha, Gravataí, Canoas.— Fernando Meirelles, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS