Em 2025, Portugal registou um aumento de 265% nos casos de hepatite A, num salto que a Direção-Geral da Saúde documentou com preocupação no Dia Mundial das Hepatites. Dois surtos principais — um ligado a condições sanitárias deficientes entre crianças, outro à transmissão sexual entre homens jovens — revelam como vulnerabilidades antigas e dinâmicas contemporâneas podem convergir para reacender doenças consideradas sob controlo. A resposta do país, assente no reforço vacinal e na vigilância epidemiológica, parece estar a surtir efeito, lembrando que a saúde pública é uma conquista que exige re
Portugal registra aumento de 265% em casos de hepatite A em 2025
A situação dos surtos aparenta estar em resolução
O que explica este salto de 265% em apenas um ano? Parece uma explosão repentina.
Não foi repentino — começou em 2024. O que vemos em 2025 é a continuação de dois surtos que já estavam em curso. Um estava ligado a condições sanitárias deficientes, o outro a transmissão sexual. Ambos tiveram tempo para se expandir.
E por que é que crianças no Algarve e homens em Lisboa foram afetados de formas tão diferentes?
Porque os mecanismos de transmissão eram distintos. Onde havia falta de higiene — água contaminada, saneamento inadequado — as crianças ficavam vulneráveis. Onde havia contacto sexual, o padrão era completamente diferente, afetando principalmente adultos jovens.
Portugal está realmente em risco, ou isto é apenas um blip europeu?
É um blip europeu, mas real. Portugal é um país de baixa endemicidade — menos de um caso por 100 mil habitantes. Mas vários países europeus viram aumentos semelhantes em 2024 e 2025. Não é exclusivo nosso.
Como é que a vacinação conseguiu controlar isto?
A DGS acelerou a campanha de vacinação em resposta aos surtos e atualizou a estratégia nacional. Quando mais pessoas ficam imunizadas, a transmissão comunitária quebra. É por isso que dizem que a situação "aparenta estar em resolução".
E a hepatite B? Também está a aumentar?
Sim, mas de forma diferente. Cresceu 31%, o segundo ano seguido. Pode ser mais consciencialização sobre testes, mas também pode ser migração de pessoas de regiões com mais hepatite B. Portugal tem 98% de cobertura vacinal, portanto está bem protegido.
Qual é a história de sucesso aqui?
A hepatite C. Dez anos de acesso universal ao tratamento, 38 mil pessoas tratadas, 97% de cura. Menos cirrose, menos transplantes, menos mortes. É o que funciona quando o sistema de saúde age.
O Pulso
- Os casos de hepatite A quadruplicaram em apenas um ano, passando de 319 para 1.164, num crescimento que surpreendeu as autoridades de saúde portuguesas.
- Dois surtos distintos atingiram populações vulneráveis: crianças em regiões do sul e centro do país, expostas por condições sanitárias precárias, e homens entre os 18 e os 44 anos em Lisboa e no Norte, afetados por transmissão sexual.
- A DGS identificou ainda 28 surtos adicionais ao longo de 2025, somando 150 casos confirmados e sinalizando que a higiene e o saneamento continuam a ser pontos críticos de fragilidade.
- Portugal não estava sozinho: o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças reportava tendências semelhantes em vários países, sugerindo uma pressão epidemiológica de escala regional.
- O reforço urgente da vacinação e as medidas de contenção parecem estar a funcionar — a DGS indica que a situação 'aparenta estar em resolução', ainda que a vigilância se mantenha essencial.
Em 2025, Portugal registou um aumento de 265% nos casos de hepatite A, num salto que a Direção-Geral da Saúde documentou com preocupação no Dia Mundial das Hepatites. Dois surtos principais — um ligado a condições sanitárias deficientes entre crianças, outro à transmissão sexual entre homens jovens — revelam como vulnerabilidades antigas e dinâmicas contemporâneas podem convergir para reacender doenças consideradas sob controlo. A resposta do país, assente no reforço vacinal e na vigilância epidemiológica, parece estar a surtir efeito, lembrando que a saúde pública é uma conquista que exige renovação constante.
Portugal viveu em 2025 um dos anos mais agitados em matéria de hepatite A das últimas décadas. O número de casos confirmados saltou de 319 para 1.164, um crescimento de 265% que a Direção-Geral da Saúde registou com preocupação no seu relatório anual, divulgado no Dia Mundial das Hepatites.
Por detrás dos números estavam dois surtos com perfis muito diferentes. O primeiro afetou sobretudo crianças no Algarve, Alentejo e Lisboa e Vale do Tejo, propagando-se por contacto direto em ambientes com condições sanitárias deficientes. O segundo concentrou-se em homens entre os 18 e os 44 anos, nas regiões de Lisboa e do Norte, e seguia um padrão de transmissão sexual. Além destes dois focos principais, a DGS identificou mais 28 surtos menores ao longo do ano, totalizando 150 casos adicionais.
A DGS contextualizou o aumento: Portugal mantém-se classificado como país de baixa endemicidade, com taxas abaixo de um caso por 100 mil habitantes, e o fenómeno não era exclusivamente português — vários países europeus registavam tendências semelhantes. A resposta nacional passou por um reforço significativo da vacinação, que contribuiu para travar a transmissão comunitária, e a DGS indicava que a situação dos surtos aparentava estar em resolução.
O relatório trouxe ainda outros sinais de alerta. Os casos de hepatite B subiram 31%, pelo segundo ano consecutivo, num aumento que as autoridades associam parcialmente a maior rastreio, mas também a possíveis dinâmicas migratórias. Ainda assim, Portugal mantém coberturas vacinais contra hepatite B superiores a 98%. Já na hepatite C, o balanço era de sucesso: dez anos após o acesso universal ao tratamento, mais de 38 mil pessoas tinham sido tratadas, com taxas de cura próximas de 97% e impacto comprovado na redução de cirrose, transplantes e mortalidade.
Portugal enfrentou em 2025 um salto abrupto nos casos de hepatite A, passando de 319 notificações em 2024 para 1.164 no ano seguinte — um crescimento de 265% que o Programa Nacional para as Hepatites Virais da Direção-Geral da Saúde documentou com preocupação no seu relatório anual, divulgado no Dia Mundial das Hepatites.
O aumento foi impulsionado por dois surtos principais que começaram em 2024 e se prolongaram pelo ano seguinte. O primeiro estava ligado à transmissão de pessoa a pessoa em ambientes com condições sanitárias deficientes, afetando sobretudo crianças nas regiões do Algarve, Alentejo e Lisboa e Vale do Tejo. O segundo surto seguia um padrão diferente: transmissão por contacto sexual, atingindo predominantemente homens entre os 18 e os 44 anos, concentrado em Lisboa e Vale do Tejo e na região Norte.
Além destes dois focos principais, a DGS identificou mais 28 surtos ao longo de 2025, que somaram 150 casos confirmados. A maioria destes surtos menores estava também associada à transmissão de pessoa a pessoa, sugerindo que as condições de higiene e saneamento continuavam a ser um fator crítico na propagação do vírus.
Apesar da magnitude do aumento, a DGS colocou os números em perspetiva internacional. Portugal mantém-se classificado como um país de baixa endemicidade para hepatite A, com uma taxa que se situa consistentemente abaixo de um caso por 100 mil habitantes. O crescimento registado em 2025 não era isolado: o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças reportava aumentos semelhantes em vários países europeus, sugerindo uma dinâmica regional mais ampla.
A resposta portuguesa incluiu um reforço significativo da vacinação. O número de vacinas administradas aumentou expressivamente, em linha com uma atualização da estratégia nacional de imunização. Esta intensificação da cobertura vacinal conseguiu controlar a transmissão comunitária que tinha ganho força em 2024 e 2025, e a DGS indicava que a situação dos surtos "aparenta estar em resolução" graças às medidas implementadas.
O relatório também registou movimentos noutras formas de hepatite. Os casos de hepatite B subiram de 271 em 2024 para 354 em 2025, um crescimento de 31% que marcava o segundo ano consecutivo de aumento. A DGS atribuiu parte desta subida a uma maior consciencialização sobre a importância do rastreio, mas admitiu que poderia também refletir um aumento genuíno de infeções a nível europeu, potencialmente ligado a movimentos migratórios de pessoas provenientes de regiões com maior prevalência da doença e menores taxas de vacinação. Ainda assim, Portugal mantinha coberturas vacinais contra hepatite B superiores a 98%, incluindo vacinação universal ao nascimento, colocando o país entre os melhores desempenhos mundiais.
Quanto à hepatite C, uma mudança metodológica introduzida em 2024 dificultava comparações diretas, mas o relatório destacava um sucesso duradouro: dez anos após o acesso universal ao tratamento, mais de 38 mil pessoas tinham recebido terapia, com taxas de cura próximas de 97%. Este tratamento teve impacto comprovado na redução de internamentos, cirrose hepática, transplantes hepáticos e mortalidade associada. As hepatites virais continuam a representar uma causa importante de doença hepática crónica, cirrose e carcinoma hepatocelular, sendo os vírus B e C responsáveis pela maioria das mortes relacionadas.
Citações Notáveis
Mantém-se o aumento significativo do número de casos confirmados de hepatite A— Relatório de 2025 do Programa Nacional para as Hepatites Virais da DGS
Portugal é considerado como um país de baixa endemicidade para a hepatite A, apresentando valores anuais inferiores a um caso confirmado por 100.000 habitantes— DGS