Portugal pode crescer acima de 3% ao ano com investimento em I&D e infraestruturas

Cada milhão em I&D gera oito postos de trabalho qualificados
Conclusão central do estudo da Católica sobre o impacto económico do investimento em investigação e desenvolvimento.
Mark

O estudo diz que Portugal pode crescer acima de 3% ao ano. Mas o que muda realmente? Não é só otimismo?

Mimi

Não é otimismo vazio. O crescimento depende de três coisas: conhecimento incorporado na economia, emprego, e intensidade de investimento. Portugal tem todos os três em movimento. A população ativa cresceu 6% em cinco anos, o desemprego está em mínimos históricos, e há investimentos reais — 3 mil milhões de euros só no data center de Sines.

Luke

Mas espera. O estudo diz que cada milhão em I&D gera 8 postos de trabalho. Isso é uma projeção ou está já a acontecer? Porque há uma diferença entre potencial e realidade.

Mimi

É uma conclusão da análise, baseada em dados históricos e efeitos diretos e indiretos. Mas tens razão — é um multiplicador estimado, não uma garantia.

Mark

E a imigração? O estudo diz que 100 mil pessoas chegam por ano. Isso é sustentável?

Mimi

O ponto é que não é imigração de baixa qualificação apenas. Metade vem do Brasil ou de países de expressão portuguesa, o que facilita integração. E há também talento altamente qualificado. Mas sim, é um fator que depende de políticas de acolhimento.

Luke

Certo, mas o estudo não quantifica quanto dessa imigração é realmente qualificada versus o que é narrativa política. E 100 mil pessoas por ano — em que setores? Construção? Serviços? Porque isso muda tudo.

Mimi

Boa pergunta. O estudo menciona que a maioria se integra no mercado de trabalho, mas não detalha a distribuição setorial. É uma lacuna.

Mark

E os riscos? Trump, geopolítica, tudo isso.

Mimi

O estudo reconhece os riscos. Mas argumenta que o mercado americano é apenas 7% das exportações, e que tensão geopolítica pode beneficiar Portugal como porto seguro europeu.

Luke

Isso é especulação. Se há escalada real de conflito, não há porto seguro — há recessão global. E a ideia de que Portugal sai beneficiado porque é longe dos conflitos é... otimista demais.

Mark

Então qual é o cenário mais realista?

Mimi

O mais realista é que Portugal tem fundações sólidas — energia barata, conectividade, capital humano — que o posicionam bem. Mas 3% de crescimento consistente depende de investimento privado real, não apenas de potencial.

Luke

Exatamente. O estudo identifica oportunidades. Mas não diz se os investidores estão realmente a vir, ou se é tudo ainda em fase de projeto.

  • Cada milhão de euros em I&D em Portugal gera em média 8 postos de trabalho qualificados
  • População ativa cresceu 6% entre 2019 e 2024; desemprego em 5,8%, emprego em máximo de 5,3 milhões
  • Portugal adiciona 100 mil pessoas à população residente por ano, maioritariamente integradas no mercado de trabalho
  • 35% da energia vem de fontes renováveis; 5G com cobertura universal; 90% do país com broadband de fibra
  • Data center de Sines com investimento de 3 mil milhões de euros; Portugal é maior produtor mundial de cortiça e top 5 em azeite

Cada milhão de euros em I&D em Portugal gera em média 8 postos de trabalho qualificados, segundo análise da Universidade Católica. Portugal consolidou-se como destino de investimento competitivo com energia renovável barata, conectividade 5G universal e posição estratégica como hub europeu.

Estudo da Católica encomendado pela Euronext e AEM projeta que Portugal pode crescer consistentemente acima de 3% ao ano, sustentado por estabilidade macroeconómica, capital humano qualificado e ecossistema de inovação dinâmico.

Um estudo encomendado pela Euronext e pela Associação de Empresas Medianas (AEM) à Universidade Católica conclui que Portugal tem todas as condições para se tornar um dos motores da economia europeia, com potencial para crescimento consistente acima de 3% ao ano nos próximos anos. O relatório, apresentado por Filipe Santos, Dean da Católica-Lisbon, no Portugal Capital Markets Day 2025, identifica três pilares que sustentam essa perspetiva: a incorporação de conhecimento na economia, o aumento do emprego e a intensidade do investimento.

Segundo a análise, cada milhão de euros investidos em investigação e desenvolvimento em Portugal gera em média oito postos de trabalho qualificados, através dos efeitos diretos e indiretos. Santos argumenta que o crescimento económico típico depende de três fatores: o aumento da produtividade através do conhecimento, que contribui cerca de 1% ao ano; o crescimento do emprego; e a intensidade do investimento. Portugal, defende, reúne condições para potenciar todos estes fatores simultaneamente. O país consolidou-se como um dos destinos de investimento mais competitivos da Europa, combinando estabilidade macroeconómica, capital humano altamente qualificado, infraestruturas energéticas e digitais avançadas, e um ecossistema de inovação dinâmico.

A transformação demográfica do país é central nesta narrativa. A partir de 2019, o saldo migratório tornou-se claramente positivo, revertendo décadas de envelhecimento populacional e êxodo. Atualmente, Portugal adiciona cerca de 100 mil pessoas à população residente todos os anos — aproximadamente 1% da população total — maioritariamente integradas no mercado de trabalho. Isto significa que a economia cresce 1% ao ano apenas pelo facto de haver mais pessoas a trabalhar, consumir e produzir. O desemprego situa-se num nível recorde de 5,8%, enquanto o emprego atingiu o máximo histórico de 5,3 milhões de pessoas. Entre 2019 e 2024, a população ativa cresceu 6%, colocando Portugal e Espanha como os dois países que mais se destacam neste indicador na Europa.

O país possui vantagens competitivas estruturais que o posicionam estrategicamente. Portugal gera 35% da sua energia a partir de fontes renováveis — uma posição singular no contexto europeu — resultando em custos de energia abaixo da média europeia, fator crítico para atrair investimento em data centers e reindustrialização. A cobertura de 5G é universal em todo o território, enquanto 90% do país tem acesso a broadband de fibra ótica. Além disso, Portugal é o ponto de interconexão dos cabos submarinos que chegam da América, América Latina e África, funcionando como hub de conectividade para toda a Europa. O projeto do hub de Sines exemplifica este potencial: um data center com investimento previsto de 3 mil milhões de euros já tem a primeira fase concluída, e a zona está a atrair projetos de baterias fotovoltaicas, hidrogénio verde e um cluster industrial e energético de grande escala.

Os recursos naturais portugueses, frequentemente subestimados, representam vantagens competitivas significativas. Portugal é o maior produtor mundial de cortiça, representando 50% do mercado global, com líderes como a Cortiça Amorim. A Navigator é uma das maiores empresas de pasta e papel do mundo, com integração vertical desde a floresta à produção e comercialização. O país é top 5 mundial em exportação de azeite e possui uma indústria vinícola com relação qualidade-preço única. A produtividade agrícola e florestal aumentou significativamente na última década, impulsionada pelo projeto do Alqueva e por uma estratégia nacional de água bem estruturada. Portugal detém as maiores reservas de lítio da Europa — 60 mil toneladas métricas — componente essencial para a eletrificação e autonomia estratégica europeia. A economia azul emerge como potencial ainda em desenvolvimento, enquanto o setor de aquacultura duplicou em menos de uma década.

O capital humano é apresentado como o fator determinante. O investimento em qualificação nos últimos anos foi extraordinário, permitindo que Portugal converja e até ultrapasse alguns países europeus, como Itália, em termos de qualificação da força de trabalho. O ensino superior universitário português atrai alunos e cientistas internacionais, contornando a crise demográfica. Portugal tornou-se também destino atrativo para milionários globais, com expectativa de 1.400 novos milionários chegarem em 2025 — sétima posição mundial. O ecossistema de inovação é multipolar: Évora possui um cluster aeronáutico, Coimbra gerou a Critical Software, uma das maiores empresas nacionais de software com parcerias internacionais. A indústria de calçado português ocupa o segundo lugar mundial em rankings de qualidade, apenas atrás de Itália.

O estudo identifica quatro oportunidades de investimento prioritárias: saúde, indústria farmacêutica e biotecnologia; centros de competência de empresas multinacionais; digital e cloud industry; e defesa e drones. Na farmacêutica, Portugal exporta cerca de 5 mil milhões de euros anuais. Multinacionais como BNP Paribas estabeleceram centros de competência em serviços de elevado valor acrescentado, empregando 10 mil pessoas em Portugal nos últimos sete anos. A indústria de defesa beneficiará de investimentos europeus crescentes em autonomia estratégica, enquanto a metalomecânica portuguesa possui qualificação elevada para fornecimento de componentes.

Filipe Santos reconhece riscos geopolíticos, nomeadamente as políticas tarifárias da administração Trump e possível escalada de conflitos. Contudo, argumenta que o mercado americano representa apenas 7% das exportações portuguesas, pelo que o impacto de tarifas seria inferior a 1% do PIB. Paradoxalmente, cenários de maior tensão geopolítica poderiam beneficiar Portugal: como o local mais seguro da Europa, longe de conflitos, e ponte para América e África, o país está posicionado para atrair investimento defensivo europeu. O Governo mantém uma política contra-cíclica de poupança e excedentes orçamentais — situação rara na Europa, com apenas três países em posição similar. O sistema bancário é sólido, com rácios de capital acima de 20%, e a poupança nacional atingiu a média europeia, canalizável para investimento através de mercados de capitais em expansão. Todas estas condições estruturais, conclui o estudo, permitem ciclos de investimento produtivo e criação de riqueza sustentada.

A nossa análise conclui que cada milhão de euros investidos em I&D em Portugal gera, em média, 8 postos de trabalho qualificados, através dos efeitos diretos e indiretos na economia
— Filipe Santos, Dean da Católica-Lisbon
Portugal pode crescer de forma consistente e consolidada, acima de 3% nos próximos anos, se aumentarmos o investimento e a intensidade do investimento
— Filipe Santos, Dean da Católica-Lisbon
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