Portugal enfrenta risco de escassez de água até 2040, alerta estudo Gulbenkian

Potencial comprometimento da segurança alimentar e autossuficiência alimentar de Portugal, com implicações na criação de riqueza, emprego e acesso a água potável das comunidades locais.
Setenta e um por cento dos agricultores não medem a água que gastam
Revelação central do estudo Gulbenkian sobre a falta de consciência hídrica no setor agrícola português.
Mark

O que torna este estudo diferente de outros alertas sobre água que ouvimos há anos?

Mimi

Este não é apenas um aviso abstrato. Foram dois anos de investigação de campo, entrevistas diretas com agricultores, inquéritos estruturados. Mapearam perfis reais, motivações reais, barreiras reais.

Luke

Mas o horizonte é 2040. Isso é vinte anos. Como é que sabem que vai acontecer?

Mimi

Não é uma previsão do futuro. É uma análise de tendências atuais — consumo de água, disponibilidade de recursos, padrões de chuva — projetada para frente. Se nada mudar, isto é o que acontece.

Mark

E por que é que a agricultura usa 75% da água?

Mimi

Porque Portugal tem regadio intensivo para compensar o calor e a falta de chuva no verão. É necessário para produzir. Mas a maioria dos agricultores não mede o que gasta.

Luke

Setenta e um por cento sem contador — esse número é de quantos agricultores? Qual é a amostra?

Mimi

O estudo não especifica o tamanho exato da amostra no texto publicado. Mas foi feito pelo C-Lab entre 2019 e 2020, com visitas ao terreno e inquéritos.

Mark

E os que já adotaram tecnologia — poupam realmente?

Mimi

Oitenta e um por cento deles afirmam que sim. E não é apenas água — também energia e fertilizantes.

Luke

Afirmam. Mas há medições independentes disso?

Mimi

O estudo não apresenta dados de auditoria externa. É baseado em relatos dos próprios agricultores.

Mark

Então qual é o próximo passo?

Mimi

A Fundação está a desenhar um plano de ação com toda a cadeia — desde o campo até à mesa do consumidor. Identificaram agentes de mudança, consultores, organizações de produtores que podem mobilizar a transição.

Luke

E o consumidor? Quanto é que ele está disposto a pagar por um tomate que foi regado de forma sustentável?

Mimi

Esse é o grande ponto de interrogação. O preço é o primeiro fator de decisão. O "ser local" é o segundo. Mas "local e sustentável" ainda é um conceito que precisa de ser construído.

  • Portugal pode chegar a 2040 sem água suficiente para regar campos ou abastecer comunidades — e o relógio já está a contar.
  • A agricultura consome 75% da água nacional, mas 71% dos agricultores nem sequer medem o que utilizam, construindo a sua atividade sobre uma suposição perigosa de abundância.
  • No Algarve, 71% dos agricultores já sentem que há menos água disponível; no Alentejo, 64% — a escassez não é uma previsão, é uma experiência quotidiana crescente.
  • Apenas 30% dos agricultores adota tecnologias avançadas de gestão hídrica, mas entre quem as usa, 81% confirma poupanças reais — a solução existe, falta escala e vontade coletiva.
  • A Fundação Gulbenkian mobiliza toda a cadeia agroalimentar — do agricultor ao consumidor — para que 'produto local' passe a significar também 'produto sustentável'.

No Dia Mundial da Água de 2021, a Fundação Calouste Gulbenkian apresentou um estudo que coloca Portugal diante de um espelho incómodo: sem mudanças profundas na forma como a água é usada — sobretudo na agricultura, que consome 75% das reservas nacionais —, o país pode não ter água suficiente para necessidades básicas até 2040. Não se trata de uma catástrofe distante, mas de uma trajetória já em curso, silenciosa na sua inércia, visível nos campos do Alentejo e do Algarve onde mais de dois terços dos agricultores já sentem a escassez. A questão que o estudo coloca não é apenas técnica ou política — é civilizacional: como se governa um bem comum quando a sua abundância foi sempre dada como certa?

Portugal tem vinte anos para resolver um problema que ainda não reconhece plenamente como seu. Um estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentado no Dia Mundial da Água em março de 2021, conclui que até 2040 o país pode enfrentar escassez de água para atividades básicas — desde regar campos até encher um copo na cozinha. O aviso é estruturado, baseado em investigação de campo e em números reais.

A agricultura consome 75% de toda a água utilizada em Portugal — acima da média mundial de 69% e muito além dos 24% da União Europeia. O que agrava o problema é a inércia: 71% dos agricultores não têm sequer um contador de água. Sem medição, não há consciência; sem consciência, não há mudança. Oitenta e cinco por cento afirmam não ter qualquer exigência de eficiência por parte dos seus clientes, e apenas 3% incluem sustentabilidade no planeamento a longo prazo.

Há, ainda assim, sinais de transição. Sessenta e cinco por cento dos agricultores já usa sistemas de rega localizada, e entre os que adotaram tecnologias mais avançadas, 81% confirmam poupanças reais de água, energia e fertilizantes. A prova existe — o que falta é escala.

O risco ultrapassa a agricultura. Filipa Saldanha, sub-diretora do Programa Desenvolvimento Sustentável da Fundação Gulbenkian, é explícita: a escassez pode comprometer a autossuficiência alimentar de Portugal, a criação de riqueza e o emprego. No pior dos cenários, as torneiras podem secar. Cinquenta e três por cento dos agricultores já sentem que há menos água disponível — no Algarve, essa percentagem sobe para 71%.

A resposta da Fundação passa por envolver toda a cadeia agroalimentar, da produção ao consumidor final, promovendo tecnologia AgriTech e tornando visível a diferença entre o que é apenas local e o que é local e sustentável. No mesmo dia do lançamento do estudo, foi iniciada uma maratona online de soluções tecnológicas para desafios ambientais. Portugal tem vinte anos. A mudança tem de começar agora.

Portugal tem vinte anos para resolver um problema que ainda não reconhece plenamente como seu. Um estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentado no Dia Mundial da Água em março de 2021, conclui que até 2040 o país pode enfrentar escassez de água para atividades básicas — desde regar campos até encher um copo na cozinha. Não é uma previsão distante ou especulativa. É um aviso estruturado, baseado em investigação de campo, em números reais, em conversas com agricultores que já sentem a pressão.

Filipa Saldanha, sub-diretora do Programa Desenvolvimento Sustentável da Fundação Gulbenkian, é clara no diagnóstico: é urgente antecipar o risco de gerir pouca água face às necessidades do país. O estudo, desenvolvido pelo C-Lab entre 2019 e 2020, mapeou como a água flui através da economia portuguesa e onde ela desaparece. A resposta é simples e assustadora. A agricultura consome 75% de toda a água utilizada em Portugal — um número que ultrapassa a média mundial de 69% e contrasta dramaticamente com os 24% da União Europeia. Espanha e Grécia, países mediterrânicos com climas semelhantes, chegam a números parecidos, mas Portugal não tem o luxo de comparações reconfortantes. Cada região do país depende de bacias hidrográficas onde agricultura, indústria e cidades competem pelas mesmas reservas finitas.

O que torna o problema mais urgente é a inércia. Setenta e um por cento dos agricultores portugueses não têm sequer um contador de água. A água vem de furos, charcas e poços privados, custando pouco e representando uma fração negligenciável das despesas agrícolas. Sem medição, não há consciência. Sem consciência, não há mudança. Oitenta e cinco por cento dos agricultores afirmam não ter de cumprir qualquer exigência de poupança ou eficiência junto dos seus clientes. Apenas três por cento incluem cenários de longo prazo e sustentabilidade no planeamento da sua atividade. São números que revelam uma estrutura inteira construída sobre a suposição de abundância.

Mas há sinais de transição. Sessenta e cinco por cento dos agricultores já utiliza sistemas de rega localizada — a tecnologia gota-a-gota que reduz o desperdício. Trinta por cento usa sondas de apoio à rega. Vinte e três por cento tem estações meteorológicas. Trinta e sete por cento utiliza programas de controlo de rega. São minorias, mas são maiores do que eram. E entre os agricultores que adotaram estas tecnologias, oitenta e um por cento não têm dúvidas de que poupam água — e também energia e fertilizantes. A prova existe. O que falta é escala.

O estudo identificou diferentes perfis de agricultores, cada um com motivações distintas e necessidades de capacitação diferentes. Não existe um formato único que sirva todos. Mas existe um caminho. Passa por agentes de mudança — organizações de produtores, consultores técnicos, empresas do setor agroalimentar — que desempenham um papel fundamental na sensibilização e motivação. Passa também por tecnologia AgriTech mais sofisticada, ainda embrionária no setor agrícola português. A integração tecnológica exige apoio e demonstração em contexto de proximidade.

O risco não é apenas agrícola. Saldanha é explícita: a falta de água pode comprometer a saúde, a capacidade de produção de bens e serviços essenciais, incluindo alimentos. Num cenário de escassez, a produção agrícola nacional ficaria desde logo comprometida, assim como o grau de autossuficiência alimentar de Portugal. Isto teria implicações na criação de riqueza e geração de emprego. No pior dos cenários, as torneiras podem secar. Cinquenta e três por cento dos agricultores portugueses já sentem que há menos água disponível. No Alentejo, essa percentagem sobe para 64%. No Algarve, para 71%.

A Fundação Gulbenkian está agora a desenhar uma atuação que abranja toda a cadeia de valor agroalimentar: agricultores, indústria alimentar, grande distribuição e consumidor. O trabalho foi feito em proximidade com trinta stakeholders da cadeia de valor, que ajudaram a identificar as áreas com necessidades mais prementes. A sensibilização tem de chegar também ao cidadão comum. No estudo, o "ser local" é o segundo fator de valorização mais referido na decisão de compra de frutas e legumes — o primeiro é o preço. Se se aprecia o produto local, importa ajudar a distinguir o que é apenas local e o que é local e sustentável. Para isso é preciso contar as histórias dos agricultores portugueses que regam apenas na quantidade estritamente necessária.

No dia 22 de março de 2021, a Fundação lançou um vídeo com imagens e depoimentos recolhidos durante a investigação e uma edição do projeto Hack for Good @Home — uma maratona online de desenvolvimento de soluções tecnológicas para problemas ambientais. O objetivo é claro: incentivar o uso da tecnologia para endereçar os desafios identificados. Portugal tem vinte anos. A mudança tem de começar agora.

É urgente antecipar o risco de ter de gerir pouca água face às necessidades do país
— Filipa Saldanha, sub-diretora do Programa Desenvolvimento Sustentável da Fundação Calouste Gulbenkian
A transformação do setor tem de chegar a todos, com o apoio de organizações de produtores, consultores especializados ou empresas do setor agroalimentar
— Conclusão do estudo Gulbenkian
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