61 concelhos portugueses (cerca de 20% do total) não possuem jornalismo local, forçando populações a depender de meios informais e televisão. Regiões distantes de centros urbanos com menor atividade económica são mais afetadas; crises económicas e mudanças no mercado digital aceleraram o fenómeno.
Portugal tem 61 concelhos sem jornais e rádios; deserto de notícias vai agravar-se
Vai agravar-se, não é pode, vai
Como é que se chega a uma situação em que um quinto do país não tem jornalismo local?
É uma combinação de fatores. As regiões mais afastadas dos centros urbanos têm menos atividade económica, populações mais pequenas, e não conseguem sustentar um jornal ou uma rádio. Ao mesmo tempo, a Internet e as plataformas digitais capturaram a publicidade que financiava estes meios.
Mas o estudo mede o quê exatamente? Concelhos sem jornais ou rádios com sede física naquele concelho, certo? Isso não significa que as pessoas não tenham acesso a notícias de outras formas.
Verdade, mas a questão é que não há jornalismo profissional local. As pessoas dependem de televisão nacional ou de meios informais — Facebook, WhatsApp. Não há ninguém a verificar factos sobre o que acontece na sua comunidade.
E qual é o impacto real disto? Porque é que importa?
Ramos diz que é um terreno fértil para a desinformação. Sem jornalismo profissional, não há quem questione o poder local, quem conte as histórias que importam àquelas pessoas. E há um estudo a vir que pode mostrar correlação entre falta de jornalismo local e abstenção eleitoral.
Espera, esse estudo ainda não foi feito. Ramos vai divulgá-lo em outubro. Portanto, a correlação é uma hipótese, não um facto confirmado.
Correto. Mas a intuição é que comunidades sem informação local podem estar menos engajadas civicamente.
E o Governo está a fazer algo?
Não. Palmeiro diz que o Governo não tem uma entidade que sinta a falta deste estudo, e que a última vez que mandou fazer um estudo sobre políticas de media foi entre 2011 e 2013. Agora, o Obercom é a única entidade em que participa, mas tem um orçamento muito limitado.
Portanto, há um problema identificado, há investigação a mostrar a dimensão dele, mas não há resposta política. Ainda.
Exatamente. E Palmeiro é claro: a situação vai piorar. Há pressão nos custos de papel, de impressão. Nos Açores, há papel apenas para poucas semanas.
Le Pouls
- 61 concelhos portugueses (19,8% do total) sem jornais ou rádios locais com sede
- Trás-os-Montes e Alentejo são as regiões mais afetadas; Portalegre particularmente atingido
- Apenas dois concelhos do litoral (ambos no Algarve) estão no deserto de notícias
- Último estudo do Estado sobre políticas de media foi feito entre 2011 e 2013
61 concelhos portugueses (cerca de 20% do total) não possuem jornalismo local, forçando populações a depender de meios informais e televisão. Regiões distantes de centros urbanos com menor atividade económica são mais afetadas; crises económicas e mudanças no mercado digital aceleraram o fenómeno.
Estudo 'Deserto de Notícias' revela que 19,8% dos concelhos portugueses carecem de jornais e rádios com sede, concentrando-se em Trás-os-Montes e Alentejo. Líderes da imprensa alertam para agravamento da situação.
Sessenta e um concelhos portugueses não têm jornais nem rádios locais com sede. Isto representa cerca de um quinto do país — 19,8% dos 308 concelhos existentes, segundo dados de 2021. O investigador Giovanni Ramos, que trabalha na Labcom da Universidade da Beira Interior, chamou a isto um "deserto de notícias", um conceito que começou nos Estados Unidos e foi depois aplicado ao Brasil antes de chegar a Portugal. O estudo procurou identificar as comunidades onde a população, se quer saber o que acontece na sua cidade, não encontra um jornal ou uma estação de rádio local que o conte. Tem de procurar noutro lado — televisão nacional, grupos de Facebook, WhatsApp, meios informais que não são jornalismo profissional.
O fenómeno concentra-se em duas regiões: Trás-os-Montes e Alentejo. Portalegre é particularmente afetado. Apenas dois concelhos do litoral, ambos no Algarve, estão nesta situação. Distritos como Porto, Viana do Castelo e Aveiro não têm concelhos no deserto de notícias. Braga, Lisboa e Setúbal têm apenas um cada. O padrão é claro: as zonas mais distantes dos grandes centros urbanos, com menor atividade económica e populações mais pequenas, são as que ficam sem estrutura de imprensa local. Estas vilas não conseguem manter um jornal ou um modelo comercial viável. Ramos explica que o problema está ligado às crises económicas do século XXI e às transformações internas do jornalismo — a mudança de mercado, o papel da Internet, e plataformas como Google e Facebook que capturam a publicidade que antes financiava os jornais locais.
O resultado é um vazio informativo que deixa comunidades inteiras dependentes de televisão para notícias do país e do mundo, e de meios informais para o que acontece à sua volta. Isto, diz Ramos, é "um terreno extremamente fértil para a desinformação". Não há jornalismo profissional a verificar factos, a questionar poder local, a contar histórias que importam àquelas pessoas. O investigador, que está a fazer doutoramento em comunicação, vai divulgar em outubro um novo estudo que cruza os dados dos concelhos no deserto de notícias com a abstenção nas últimas eleições legislativas e autárquicas, para saber se há correlação entre falta de jornalismo local e desengajamento cívico.
João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, é claro sobre o que vem a seguir: "Vai agravar-se, não é pode, vai". Aponta o aumento do preço do papel, os custos de impressão crescentes, a falta de papel. Nos Açores, há indicação de que há papel apenas para poucas semanas. Palmeiro defende que o Governo "não pode deixar de olhar" para isto, mas lamenta que não tenha na sua estrutura nenhuma entidade que sinta a falta deste estudo ou que tenha capacidade para encomendar investigações sobre políticas públicas para os media. A última vez que o Estado mandou fazer um estudo deste tipo foi entre 2011 e 2013. Agora, o Governo diz que precisa de estudos para justificar políticas públicas e gastos, mas a única entidade em que participa para fazer estes trabalhos é o Obercom, que tem um orçamento "limitadíssimo" e muitos pedidos de outras áreas.
Ramos é explícito sobre o que é necessário: não basta manter os meios de comunicação que existem. É preciso "uma política pública específica para se criar jornais", uma política para criar meios de comunicação novos onde já não há nenhuns. A Associação Portuguesa de Imprensa apoiou o estudo porque reconheceu que o conceito de deserto de notícias tem sido utilizado pelo Google e pelo Facebook para desenvolver políticas de apoio à imprensa regional e local. Mas em Portugal, essa resposta ainda não existe. O que existe é um vazio que cresce, comunidades que ficam sem voz profissional, e um Governo que ainda não olha para o problema com a urgência que merecia.
Citations marquantes
São regiões que não possuem noticiário local, são comunidades que se a população quer saber o que acontece na sua cidade, na sua comunidade, precisa de procurar meios informais porque não há um jornalismo para atender isso.— Giovanni Ramos, investigador da Labcom/UBI
Essas vilas não conseguem manter uma estrutura de um jornal ou um modelo comercial a funcionar, são comunidades que acabam sendo abandonadas, porque ficam sem essa informação local de imprensa e rádio, tornando-se um terreno extremamente fértil para a desinformação.— Giovanni Ramos