Polícia prende líder de esquema de anabolizantes falsificados com ramificações no Brasil e Paraguai

Consumidores relataram reações adversas graves, incluindo falta de ar noturna; risco de morte por erro de dosagem em produtos com clembuterol não informado aos usuários.
Clembuterol cê não usa miligrama não, você usa micrograma. Senão tu mata um!
Advertência de Carlos Henrique sobre a dosagem extremamente perigosa de substância usada em produtos para emagrecimento fabricados no laboratório clandestino.
Mark

Como um laboratório em um apartamento consegue produzir anabolizantes em escala comercial?

Mimi

Não é questão de conseguir bem. É questão de fazer de qualquer jeito. Fogão, panela, béquer — o que você vê em uma cozinha. Quando sai errado, eles abrem os vidros de novo e reprocessam. Não há controle de qualidade, não há esterilização, nada.

Mark

E como isso chega aos consumidores sem ninguém notar?

Mimi

As redes sociais fazem o trabalho pesado. Uma influenciadora fitness posta um vídeo mostrando seu corpo, diz que toma o produto, e as pessoas compram. Ninguém questiona. A embalagem parece profissional, o rótulo é em inglês. Parece legítimo.

Mark

Qual é o risco real para quem consome?

Mimi

Depende do que está dentro. Se a dosagem de clembuterol estiver errada, a pessoa pode acordar de madrugada sem conseguir respirar. Se estiver muito errada, pode morrer. O próprio fabricante não sabe exatamente o que fez — ele está improvisando.

Mark

Por que o Paraguai era tão importante para essa operação?

Mimi

Porque é a fronteira. A matéria-prima vem de lá, entra em peças de moto para não ser reconhecida, chega a Foz do Iguaçu e se distribui para o Brasil inteiro. É logística simples, mas eficaz.

Mark

E o dinheiro? Trinta e dois milhões bloqueados parece muito.

Mimi

É muito mesmo. E o delegado diz que é só o começo. Um restaurante a vinte e cinco quilômetros de Brasília, vendas de dez a quinze mil reais por dia — o dinheiro circula rápido. Eles usam o restaurante para limpar a origem.

Mark

Qual é a diferença legal entre isso e tráfico de drogas comum?

Mimi

Falsificação de medicamento é crime hediondo. Pena maior que tráfico. Porque você não está apenas vendendo uma substância ilegal — você está vendendo algo que parece legítimo, que as pessoas confiam, que pode matar.

  • Laboratórios montados em apartamentos comuns fabricavam anabolizantes em panelas domésticas, com matéria-prima contrabandeada dentro de peças de moto vindas do Paraguai.
  • Influenciadores fitness promoviam os produtos nas redes sociais sem revelar que continham substâncias perigosas como clembuterol, capaz de matar em dosagem errada.
  • Consumidores relataram acordar no meio da noite sem conseguir respirar — efeito colateral de substâncias não declaradas nos rótulos dos produtos adquiridos.
  • A polícia bloqueou R$ 32 milhões em bens e prendeu o líder da rede no Paraguai, mas o delegado responsável acredita que o valor real movimentado seja muito maior.
  • Os acusados enfrentam penas que podem ultrapassar 40 anos, pois a falsificação de medicamentos é crime hediondo com punição mais severa que o tráfico de drogas.

Em um cruzamento entre a cultura fitness, a fronteira porosa com o Paraguai e a promessa fácil de lucro, uma rede clandestina de anabolizantes falsificados cresceu silenciosamente até abastecer múltiplas regiões do Brasil. A operação policial que a desmantelou revelou não apenas laboratórios improvisados com fogão e panela, mas também o custo humano invisível pago por consumidores que ignoravam o que ingeriam. A prisão do líder Roberto Carlos Pereira de Carvalho, conhecido como Jiraya, em Ciudad del Este, marca o fim de um esquema que movimentava até R$ 15 mil por dia — e que, segundo especialistas, pode ter custado vidas.

Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o 'Jiraya', foi preso em Ciudad del Este, na fronteira paraguaia, acusado de liderar uma rede de produção e venda de anabolizantes falsificados que abastecia Brasília, João Pessoa, São Paulo e outras regiões do Brasil. A investigação começou em fevereiro de 2025, quando policiais encontraram um laboratório improvisado em um apartamento de Taguatinga e apreenderam o celular de Carlos Henrique Rodrigues de Abreu. Os áudios recuperados eram reveladores: Carlos descrevia como preparava os produtos em fogão e panela, reutilizando material quando o resultado saía errado, e ele mesmo reconhecia o perigo — 'pode contaminar o produto'.

A matéria-prima chegava clandestinamente do Paraguai embalada dentro de peças de moto, era reembalada em Foz do Iguaçu e distribuída pelo país. Seis pessoas foram presas na cidade fronteiriça, incluindo a gerente da loja fornecedora dos insumos. No Brasil, a divulgação era feita por influenciadores fitness nas redes sociais: Ana Luiza promovia os produtos em vídeos associando os resultados físicos às substâncias vendidas, enquanto seu companheiro Alam Manoel Lima afirmava faturar R$ 80 mil por mês com um único item, 'sem nem trabalhar'. O casal também mantinha um restaurante suspeito de ser usado para lavar o dinheiro, cuja estrutura de motoboys servia ainda para distribuir os produtos ilegais.

Entre os itens fabricados havia clembuterol, substância perigosíssima em dosagem errada — e que não era informada aos consumidores. Um dos sócios relatou que uma cliente acordou de madrugada ofegante, precisando ir à janela para respirar. O presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia alertou que esse tipo de medicação aumenta em três a cinco vezes o risco de morte por doenças cardiovasculares. O delegado Rodrigo Carbone bloqueou R$ 32 milhões em bens — valor que acredita ser apenas uma fração do total movimentado. Os acusados respondem por tráfico, organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsificação de produto medicinal, com penas que podem somar mais de 40 anos.

Roberto Carlos Pereira de Carvalho, conhecido como Jiraya, foi preso pela polícia do Paraguai em Ciudad del Este, na fronteira com Foz do Iguaçu, acusado de liderar uma operação sofisticada de produção e distribuição de anabolizantes falsificados que abastecia diferentes regiões do Brasil. A investigação, que se estendeu por meses, revelou uma rede complexa com laboratórios clandestinos em Brasília, João Pessoa e São Paulo, onde os produtos eram fabricados em condições precárias e depois comercializados pela internet, em lojas de suplementos e clínicas de estética.

O ponto de partida da investigação foi a apreensão de um celular em fevereiro de 2025, em um apartamento de Taguatinga, no Distrito Federal. No local, os policiais encontraram um laboratório improvisado e prenderam Carlos Henrique Rodrigues de Abreu. Os áudios recuperados do aparelho revelaram detalhes perturbadores sobre como os produtos eram fabricados. Em conversas interceptadas, Carlos descrevia um processo rudimentar: anabolizantes eram preparados com fogão e panela, e quando o resultado não saía como esperado, o material era reaproveitado. Em um dos áudios, ele relata ter aberto vinte vidros para dissolver novamente a substância em um béquer. Ele próprio alertava para os riscos: "Cozinhar esses trem não dá, véi, porque você pode ser contaminado por química. Perigoso! E pode contaminar o produto."

A matéria-prima utilizada na produção chegava ao Brasil de forma clandestina pela fronteira com o Paraguai. De acordo com as investigações, uma loja em Ciudad del Este fornecia os insumos, que eram transportados de forma criativa: embalados dentro de peças de moto para passar despercebidos. Depois, em Foz do Iguaçu, os produtos eram reembalados e enviados para diferentes regiões do país. Seis pessoas foram presas em Foz do Iguaçu, incluindo a gerente da loja apontada como fornecedora dos materiais. O proprietário é considerado foragido.

Os números revelam a escala da operação. Em uma conversa interceptada, um dos sócios de Jiraya afirmava que Roberto vendia produtos diariamente, com vendas chegando a dez ou quinze mil reais por dia, e mesmo nos dias de menor movimento ficavam entre quatro e cinco mil reais. O delegado Rodrigo Carbone conseguiu bloquear trinta e dois milhões de reais em bens, embora acredite que o valor real seja muito maior. A divulgação nas redes sociais era fundamental para ampliar as vendas. Ana Luiza, apontada como uma influenciadora fitness ligada ao esquema, promovia os itens em vídeos publicados na internet, associando os resultados físicos mostrados às substâncias comercializadas. Alam Manoel Lima, seu companheiro, afirmava em um áudio que vendia oitenta mil reais por mês apenas com um dos produtos, "sem nem trabalhar, acordando 2 horas da tarde".

Além dos anabolizantes, o esquema também produzia produtos para emagrecimento, incluindo clembuterol, uma substância extremamente perigosa quando mal dosificada. Carlos Henrique alertava em conversas que "clembuterol cê não usa miligrama não, você usa micrograma. Senão tu mata um!" A polícia afirma que a presença dessa substância não era informada aos consumidores. Um dos sócios relatou que clientes passaram mal depois de consumir os produtos, com um caso em que uma cliente acordou de madrugada ofegante, com falta de ar, precisando ir à janela para respirar.

A investigação também apurou a movimentação financeira do grupo. Alam Manoel e Ana Luiza tinham um restaurante a vinte e cinco quilômetros do centro de Brasília, suspeita-se que fosse usado para ocultar a origem do dinheiro obtido com as vendas. A estrutura de entregas do restaurante também era usada para distribuir os produtos ilegais pelo Distrito Federal por meio de motoboys. A Justiça bloqueou cinco milhões de reais em bens do casal e seis milhões no caso de Roberto Carlos Pereira de Carvalho.

Os riscos para os consumidores são elevados. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Neuton Dornelas, um dos grandes problemas é não saber exatamente o que está dentro do produto. Essas medicações aumentam em três a cinco vezes a morte por doenças cardiovasculares, e erros na dosagem podem ter consequências fatais. Os acusados vão responder por tráfico de drogas, organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsificação de produto medicinal. Somadas, as penas podem ultrapassar quarenta anos de prisão. Segundo o delegado Carbone, a falsificação de anabolizantes é considerada crime hediondo, com pena maior inclusive que o tráfico de drogas.

A gente conseguiu, com o Poder Judiciário, o bloqueio de 32 milhões a princípio. Mas a gente sabe que é muito maior, porque o grupo é muito grande.
— Delegado Rodrigo Carbone
Um dos grandes problemas dessa insegurança de quem vai usar uma medicação como essa é não saber exatamente o que tem ali dentro.
— Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
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