Pioneira da literatura lésbica, Cassandra Rios terá obra reeditada após décadas de esquecimento

Cassandra Rios enfrentou censura sistemática (36 romances censurados), condenação por atentado ao pudor aos 20 anos, exclusão de movimentos literários, e morreu aos 69 anos em dificuldades financeiras após vender pertences para pagar tratamento de câncer.
Fui posta de lado. Eu, a escritora mais censurada do Brasil
Cassandra Rios sobre sua exclusão de manifesto de escritores em 1977, durante a ditadura militar.
Mark

Por que Cassandra Rios desapareceu tão completamente se vendeu um milhão de exemplares?

Mimi

A censura a marcou profundamente, mas não foi só isso. Havia um estigma duplo: era mulher, era popular, e escrevia sobre sexo lésbico. Depois da ditadura, mesmo com a redemocratização, ela não conseguiu retomar o mercado. Morreu pobre, vendendo seus pertences.

Mark

Ela era aberta sobre sua sexualidade?

Mimi

Sim, de forma notável para a época. Frequentava restaurantes com mulheres, levava namoradas para casa. Mas havia um tabu em ser visto com ela — até atrizes que atuaram em adaptações de seus livros sentiam isso.

Mark

O que a tornava tão perigosa para a ditadura?

Mimi

Ela não apenas escrevia sobre homossexualidade — ela a normalizava. Retratava mulheres como seres desejantes, não objetos. Escreveu sobre uma lésbica internada num manicômio que insistia não estar doente. Isso era revolucionário.

Mark

E a exclusão do manifesto de 1977?

Mimi

Foi uma traição. Lygia Fagundes Telles liderou um movimento contra a censura, Rios assinou, mas seus colegas removeram seu nome. A escritora mais censurada do Brasil foi silenciada por outros escritores.

Mark

O que muda agora com a reedição?

Mimi

A Relicário quer fazer uma reinserção crítica, com contexto histórico. Num momento em que tentam criminalizar a Parada LGBT, trazer Rios de volta é um gesto de resistência. Ela foi censurada lá, mas aqui não será.

  • Primeira escritora brasileira a vender mais de 1 milhão de exemplares, a partir de 1948
  • 36 romances censurados durante a ditadura militar
  • Condenada por atentado ao pudor aos 20 anos, em 1952
  • Morreu aos 69 anos em 2002, em dificuldades financeiras

Cassandra Rios foi pioneira ao colocar relações homossexuais femininas sob holofote na literatura brasileira, vendendo milhões de exemplares desde 1948. A autora sofreu 36 censuras durante a ditadura militar e foi excluída de manifesto de escritores, permanecendo marginalizada mesmo após democratização.

Editora Relicário firma contrato para reeditar obras de Cassandra Rios, primeira escritora brasileira a vender mais de 1 milhão de exemplares, que caiu no esquecimento após sua morte em 2002.

A primeira escritora brasileira a vender mais de um milhão de exemplares desapareceu das prateleiras. Cassandra Rios, autora de romances eróticos com protagonistas lésbicas, caiu no esquecimento após sua morte em 2002 — e agora a editora Relicário quer reverter esse apagamento.

A editora assinou contrato com o espólio da autora para reeditar sua obra. Os primeiros títulos a retornar ao mercado serão "Um Escorpião na Balança", de 1965, e "A Santa Vaca", de 1984, ambos ainda sem data de lançamento confirmada. Até recentemente, os livros de Rios circulavam apenas em sebos, com preços que chegavam a três dígitos. Desde 2002, as reedições foram raras: a Brasiliense relançou três títulos em 2005, todos esgotados, e o grupo Azul Editorial reeditou "Eu Sou uma Lésbica" há dez anos, também já fora de circulação.

Nascida Odete Rios em 1932, a paulistana publicou seu primeiro livro aos 16 anos sob o pseudônimo que a tornaria famosa. Nenhuma editora quis o manuscrito. Rios trabalhou num escritório de advocacia para juntar dinheiro e publicar por conta própria. Sua mãe, desgostosa com a filha que deveria casar e ter filhos, ofereceu pagar pela impressão — com uma condição: não leria o livro. "A Volúpia do Pecado" chegou às livrarias em 1948 com uma capa dramática: sobre o fundo cinzento de uma cabeça masculina, uma mulher loira em vestido branco agarra o quadril de outra, de cabelos negros e pérolas no pescoço. O conteúdo correspondia à promessa da capa. O romance narra o envolvimento amoroso de duas adolescentes vizinhas, com dezenas de páginas de descrições sexuais explícitas. O sucesso foi estrondoso — criou demanda suficiente para que Rios vivesse de sua escrita, algo raro para qualquer escritor da época.

Mas o sucesso de vendas não a protegeu. Em 1952, aos 20 anos, foi condenada por atentado ao pudor após a publicação de "Eudemônia", ainda durante o governo Getúlio Vargas. A ditadura militar que começou em 1964 voltaria a persegui-la com força. Ao todo, 36 de seus romances foram censurados. Em 1977, quando a escritora Lygia Fagundes Telles liderou um manifesto de autores contra a repressão, Rios assinou — mas seus colegas removeram seu nome do documento. "Fui posta de lado. Eu, a escritora mais censurada do Brasil", disse ela numa entrevista a Jô Soares em 1990, no SBT. Segundo Joice Nunes, que coordenará a edição crítica, essa exclusão foi um ato de injustiça e silenciamento deliberado.

O que tornava Rios tão perigosa aos olhos da censura? Segundo Maíra Nassif, fundadora da Relicário, a autora não apenas colocou as relações homossexuais sob holofote inédito na literatura brasileira — ela retratava a mulher como ser desejante, não apenas como objeto de desejo. Rios foi vanguarda na despatologização da homossexualidade, escrevendo sobre mulheres lésbicas décadas antes de a Organização Mundial da Saúde remover a homossexualidade de sua lista de doenças. Em "Eudemônia", retrata uma mulher lésbica internada num manicômio por sua orientação sexual, que insiste não estar doente. Rios também escreveu o primeiro final feliz numa relação entre mulheres na literatura brasileira.

Em sua vida pessoal, era reservada mas nunca escondeu sua sexualidade. Frequentava restaurantes com mulheres e levava namoradas para sua casa no centro de São Paulo. Havia, porém, um tabu em ser visto com ela — a atriz Nicole Puzzi, que atuou em adaptações cinematográficas de seus livros, lembrou que "ela sofreu as consequências de escrever um livro sobre sexo". Havia ainda o estigma de ser vista como autora popularesca. "Junta-se a isso o texto de alta voltagem erótica e já estigmatizado pela censura. Ele chegou em sua época duplamente estigmatizado", explica Nassif.

O fim de Rios foi trágico. Sofreu as consequências do estigma imposto pela ditadura e, mesmo após a democratização, nunca retomou o sucesso comercial que marcou sua carreira. Morreu aos 69 anos, vítima de câncer no útero, após vender carros e pertences e pedir dinheiro a amigos para pagar contas hospitalares. A Relicário planeja uma "reinserção crítica", com prefácios de convidados e paratextos que contextualizem a obra e a autora. Para Nunes, há justiça nessa reedição num momento em que movimentos tentam criminalizar a Parada LGBT em São Paulo. "O lema 'pátria, família e liberdade' daquela época voltou com força. É um gesto grandioso de resistência essa autora voltar nesse momento. Ela foi censurada lá, mas aqui ela não vai ser."

Ela não apenas colocou as relações homossexuais sob holofote inédito na literatura brasileira — ela retratava a mulher como ser desejante, não apenas como objeto de desejo
— Maíra Nassif, fundadora da editora Relicário
Ela foi censurada lá, mas aqui ela não vai ser
— Joice Nunes, coordenadora editorial da reedição
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