PF e CGU identificaram movimentação financeira atípica em empresas do clã Brandão com contratos públicos somando cerca de R$ 100 milhões entre 2015 e 2024. Investigação aponta crimes tributários, lavagem de dinheiro, licitações dirigidas e corrupção passiva, com empresas funcionando como intermediárias para desvio de recursos.
PF pede afastamento de governador do Maranhão em investigação de desvio de recursos
Empresas do grupo movimentavam recursos incompatíveis com ganhos declarados
Por que a Polícia Federal pediu especificamente o afastamento do governador? Não era suficiente investigar?
A PF argumentou que era a única forma de interromper as práticas ilícitas. Se o governador permanecia no cargo, ele teria acesso a recursos e poder para continuar o esquema ou obstruir a investigação.
Mas isso é especulação. O pedido foi feito, rejeitado duas vezes, e não sabemos os motivos da rejeição porque as decisões estão em segredo de Justiça.
Então qual é a evidência concreta de que Brandão estava pessoalmente envolvido?
A investigação aponta que empresas do grupo dele receberam contratos públicos e movimentaram dinheiro de forma incompatível com seus ganhos declarados. Algumas eram registradas em nomes de terceiros mas pertenciam ao grupo.
Certo, mas a investigação não é condenação. E a defesa dele diz que não teve acesso aos relatórios. Não sabemos que acusações específicas pesam sobre o governador pessoalmente versus sobre empresas ou parentes.
Quanto dinheiro estamos falando?
Cerca de cem milhões de reais em contratos entre 2015 e 2024. Uma empresa recebeu 77,5 milhões em sete anos.
Esse é o valor dos contratos, não necessariamente o valor desviado. Importante não confundir.
E por que o caso foi para o Supremo?
Porque havia suspeita de interferência política no tribunal anterior. Um senador estava atuando junto a um ministro para influenciar as investigações.
Suspeita, sim. Mas o fato é que agora está no Supremo e o ministro Flávio Dino já tomou decisões que afetaram os Brandão. Ainda assim, não respondeu aos pedidos de afastamento.
Isso significa que ele discorda?
Não sabemos. Ele simplesmente não se manifestou. E isso é o ponto: há meses pedidos estão pendentes sem resposta.
The Pulse
- PF pediu afastamento de Carlos Brandão duas vezes, em 2025 e 2026, sem sucesso
- 237 contratos entre empresas do grupo e órgãos públicos somaram cerca de R$ 100 milhões entre 2015 e 2024
- Empresa Vigas recebeu R$ 77,5 milhões da prefeitura e governo estadual entre 2017 e julho de 2023
- Investigação aponta crimes tributários, lavagem de dinheiro, licitações dirigidas e corrupção passiva
- Inquéritos foram transferidos do STJ para o STF sob relatoria do ministro Flávio Dino
PF e CGU identificaram movimentação financeira atípica em empresas do clã Brandão com contratos públicos somando cerca de R$ 100 milhões entre 2015 e 2024. Investigação aponta crimes tributários, lavagem de dinheiro, licitações dirigidas e corrupção passiva, com empresas funcionando como intermediárias para desvio de recursos.
A Polícia Federal solicitou duas vezes, sem sucesso, o afastamento do governador Carlos Brandão em investigação sobre esquema de desvio de recursos públicos no Maranhão envolvendo empresas do grupo familiar.
A Polícia Federal bateu à porta da Justiça duas vezes pedindo o afastamento do governador Carlos Brandão, do Maranhão, e ambas as vezes saiu de mãos vazias. Os pedidos, feitos em 2025 e novamente em 2026, buscavam tirar do cargo o político do MDB enquanto investigações avançavam sobre um suposto esquema de desvio de recursos públicos que teria movimentado cerca de cem milhões de reais através de empresas ligadas ao seu grupo familiar.
Tudo começou com um relatório do Coaf, o órgão que monitora operações financeiras atípicas. Detectou movimentação suspeita principalmente em Colinas, reduto político dos Brandão no interior do Maranhão. A Procuradoria-Geral da República pediu à Polícia Federal que investigasse, e o Superior Tribunal de Justiça autorizou em 2024. O motivo: entre os investigados estavam o próprio governador e seu sobrinho Daniel Brandão, que presidia o Tribunal de Contas do Estado. A Controladoria-Geral da República entrou na investigação ao lado da PF.
O que os investigadores encontraram foi um padrão. Empresas do grupo Brandão—Coagri, Gás do Sertão, Disvali, Vigas Engenharia e EMA—recebiam contratos de órgãos públicos, mas sua movimentação financeira não correspondia ao que declaravam ganhar. Algumas funcionavam como laranjas, registradas em nomes de terceiros mas pertencendo de fato ao grupo, servindo como intermediárias para repassar dinheiro público entre empresas e para cobrir despesas pessoais da família. Entre 2015 e 2024, essas empresas firmaram 237 contratos com a Prefeitura de Colinas e o Governo do Maranhão. A Controladoria identificou fortes indícios de que as licitações eram montadas para favorecer esses negócios.
Os números revelam a escala da operação. A empresa Vigas, entre 2017 e julho de 2023, recebeu 77,5 milhões de reais da prefeitura e do governo estadual, dos quais 36,7 milhões foram repassados a outras empresas do grupo. A Coagri, que declarava ganhar 363 mil reais em 2019, saltou para 26,2 milhões em 2023—uma explosão de receita que a PF diz estar muito aquém do que realmente movimentava. A investigação aponta crimes tributários, lavagem de dinheiro, licitações dirigidas, corrupção passiva e organização criminosa.
Em julho de 2025, a Polícia Federal pediu ao Superior Tribunal de Justiça que afastasse Brandão do cargo até o fim da investigação, argumentando ser a única forma de interromper as práticas ilícitas. Pediu também mandados de busca e apreensão nas secretarias estaduais de Infraestrutura e Administração. A Procuradoria-Geral deu parecer favorável às buscas, mas o tribunal não respondeu. Meses depois, em maio de 2025, a PF ampliou o pedido para incluir a filha do governador, Lethicia, e solicitou o sequestro de bens de ambos e de holdings que teriam sido criadas para esconder a expansão patrimonial da família. Novamente, silêncio da Justiça.
O caso ganhou complexidade quando os inquéritos foram transferidos do Superior Tribunal de Justiça para o Supremo Tribunal Federal. A mudança ocorreu após suspeitas de que o senador Weverton Rocha atuava junto a um ministro do STJ para interferir nas investigações. O ministro Flávio Dino passou a relatar os casos. Ele já tomou decisões que afetaram os Brandão—afastou o sobrinho Daniel da presidência do Tribunal de Contas e determinou prisão domiciliar de um aliado do grupo acusado de coagir testemunhas. Mas sobre o afastamento do próprio governador e os mandados de busca, Dino ainda não se manifestou.
A defesa de Brandão diz que não teve acesso aos relatórios da investigação, que seguem em segredo de Justiça, e nega qualquer crime. O governador questiona o foro dos inquéritos e pede que voltem ao Superior Tribunal de Justiça. Diz que tenta há mais de um ano acessar os elementos das investigações sem sucesso. A Procuradoria-Geral, por sua vez, emitiu novo parecer defendendo que os casos retornem ao tribunal anterior. Enquanto isso, a investigação permanece em andamento no Supremo, com os pedidos de afastamento e buscas ainda sem resposta.
Notable Quotes
A defesa rechaça qualquer tentativa de atribuir ao governador Carlos Brandão a prática de crimes ou de associá-lo, sem demonstração individualizada de sua conduta, às imputações questionadas.— Defesa do governador Carlos Brandão
Como única forma de interromper as práticas ilícitas descritas— Justificativa da PF para o pedido de afastamento do governador