Petróleo dispara e Tesouro Direto registra recordes em taxas de inflação; prefixados chegam a 12,20%

O mercado precifica cada movimento, cada declaração, cada possibilidade.
Enquanto a guerra na Ucrânia redefine os preços globais de commodities, investidores brasileiros enfrentam taxas recordes nos títulos públicos.
Mark

Por que o preço do petróleo em um fim de semana distante afeta tanto o que um brasileiro pode ganhar comprando um título público?

Mimi

Porque o petróleo é inflação. Quando sobe, tudo fica mais caro — combustível, transporte, alimentos. O mercado sabe disso e já começa a cobrar mais juros dos títulos para compensar a erosão do poder de compra que vem aí.

Luke

Mas espera — a inflação oficial projetada subiu de 5,60% para 5,65%. Isso é uma mudança pequena. Os juros dos prefixados subiram para 12,20%. Quanto dessa alta é realmente sobre inflação e quanto é especulação sobre o que o Banco Central vai fazer?

Mimi

Ótima pergunta. O Focus mostra que os economistas também subiram a aposta para a Selic em 2023 — de 8% para 8,25%. Então não é só inflação, é a expectativa de que o BC vai apertar mais a política monetária.

Mark

E o governo? Ele está tentando evitar que a Petrobras aumente os preços dos combustíveis?

Mimi

Sim. Bolsonaro é candidato à reeleição e sabe que gasolina cara custa votos. Por isso o Senado vota projetos de lei para conter os preços — mudanças no ICMS, fundos com receitas do pré-sal, coisas assim.

Luke

Mas a Petrobras já pediu aprovação para aumentar. Então há uma tensão real entre o que o mercado quer — preços que reflitam custos globais — e o que a política quer.

Mimi

Exatamente. E enquanto isso, o investidor que compra Tesouro Direto está apostando que essa tensão vai manter a inflação alta e os juros altos por mais tempo.

Mark

Então quem se beneficia com essas taxas recordes nos títulos?

Mimi

Quem compra agora. Se você tranca 12,20% ao ano em um prefixado, você ganhou. Mas se você já tinha títulos com taxas menores, o valor deles caiu — porque os novos títulos oferecem mais.

Luke

E há uma questão que o relatório não responde: quanto dessa alta de inflação é permanente e quanto é temporária? Se for só o choque do petróleo e depois normalizar, os juros caem e quem comprou agora perde.

Mimi

Verdade. O Focus é um retrato de um momento. A China ofereceu mediação, mas a guerra continua. Ninguém sabe como isso termina.

  • O petróleo Brent e o WTI ultrapassaram US$ 120 o barril após declarações de Blinken e Pelosi sobre um possível embargo americano ao petróleo russo, sacudindo mercados em todo o mundo.
  • A guerra na Ucrânia intensificava-se no terreno, com a Rússia cercando Kiev e descumprindo acordos sobre corredores humanitários, enquanto negociações para um cessar-fogo não avançavam.
  • No Brasil, a expectativa de inflação para 2022 subiu para 5,65% no Relatório Focus — oitava revisão consecutiva para cima —, e a projeção para a Selic ao fim de 2023 saltou de 8% para 8,25%.
  • Títulos do Tesouro Direto bateram recordes históricos: o IPCA+ 2026 chegou a 5,70% de retorno real e o Prefixado 2025 atingiu 12,20% ao ano, refletindo a precificação de juros altos por período prolongado.
  • No campo político, o Senado preparava votação de projetos para conter a alta dos combustíveis, enquanto executivos da Petrobras buscavam aval para reajustar preços nas refinarias, pressionando o governo Bolsonaro às vésperas do ano eleitoral.

Em meio à guerra na Ucrânia e às ameaças de embargo ocidental ao petróleo russo, os mercados globais viveram, na manhã de 7 de março de 2022, um daqueles momentos em que a geopolítica se traduz imediatamente em números. O Brasil, importador de petróleo e trigo, sentiu o peso dessa transformação: a inflação projetada subiu pela oitava semana consecutiva e os títulos do Tesouro Direto registraram taxas reais históricas, sinalizando que o custo do dinheiro — e da vida — seguiria elevado por um longo horizonte.

Na manhã de 7 de março de 2022, os mercados globais acordaram sob pressão. O petróleo Brent disparou para US$ 124,59 e o WTI para US$ 121,07 o barril, impulsionados por discussões em Washington e Bruxelas sobre um possível embargo americano ao petróleo russo. O secretário de Estado Antony Blinken confirmou que os aliados ocidentais avaliavam proibir importações de energia russa; Nancy Pelosi sinalizou que o Congresso americano explorava "legislação forte" para isolar Moscou. No terreno, a Rússia intensificava os ataques, cercando Kiev diante de feroz resistência ucraniana, enquanto a China oferecia mediação sem abandonar sua posição ambígua ao lado de Moscou.

No Brasil, o impacto foi imediato e mensurável. O Relatório Focus do Banco Central, divulgado naquele mesmo dia, elevou a projeção de inflação para 2022 de 5,60% para 5,65% — oitava semana consecutiva de revisão para cima —, pressionado pela alta do petróleo e do trigo. A mediana dos economistas também recalibrou a Selic esperada ao fim de 2023 para 8,25%, acima dos 8% projetados na semana anterior.

Essas mudanças nas expectativas se traduziram em recordes históricos no Tesouro Direto. O Tesouro IPCA+ 2026 avançou para 5,70% de retorno real, e os papéis com vencimento em 2040 e 2055 chegaram a 5,86%. Mais expressivo ainda foi o movimento dos prefixados: o Tesouro Prefixado 2025 atingiu 12,20% ao ano — maior patamar já registrado —, enquanto o papel de 2033 subia para 12,02%, avançando 18 pontos-base em relação à sessão anterior.

No plano político doméstico, a pressão sobre os combustíveis ganhava urgência. Executivos da Petrobras buscavam aprovação para reajustar preços nas refinarias, e o Senado se preparava para votar dois projetos alternativos para conter a disparada da gasolina e do diesel. O governo Bolsonaro, atento ao calendário eleitoral, explorava mudanças no ICMS, criação de fundos com dividendos da estatal e revisão da política de precificação. O mundo aguardava os desdobramentos da guerra — e os mercados precificavam cada declaração, cada possibilidade, em tempo real.

Na manhã de segunda-feira, 7 de março de 2022, os mercados globais acordaram sob pressão. O petróleo Brent e WTI disparavam para US$ 124,59 e US$ 121,07 o barril, respectivamente, impulsionados por discussões nos bastidores de Washington e Bruxelas sobre um possível embargo americano ao petróleo russo. A movimentação não era apenas um fenômeno das commodities — ela reverberava em cada canto do sistema financeiro, do mercado de ações europeu ao Tesouro Direto brasileiro.

O gatilho era geopolítico. Antony Blinken, secretário de Estado americano, havia declarado que os EUA e seus aliados consideravam proibir importações de petróleo e gás natural da Rússia em resposta à invasão da Ucrânia. Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados, reforçou a mensagem em carta aos colegas democratas, sinalizando que o Congresso explorava "legislação forte" para isolar ainda mais Moscou da economia global. Enquanto isso, Wang Yi, ministro das Relações Exteriores chinês, oferecia mediação internacional, mas a realidade no terreno era outra: a Rússia intensificava ataques, cercando Kiev e outras grandes cidades diante de feroz resistência ucraniana.

No Brasil, o impacto era imediato e mensurável. Com o petróleo e outras commodities essenciais — como o trigo — em trajetória ascendente, economistas e analistas reforçavam suas projeções de inflação. O Relatório Focus do Banco Central, divulgado naquele mesmo dia, elevava a expectativa de inflação oficial para 2022 de 5,60% para 5,65%, marcando a oitava semana consecutiva de revisão para cima. A mediana dos economistas consultados também recalibrou suas apostas para a taxa básica de juros: esperavam agora que a Selic encerrasse 2023 em 8,25%, acima dos 8% projetados sete dias antes.

Essas mudanças nas expectativas se traduziam em movimento concreto nos preços dos títulos públicos. No Tesouro Direto, papéis indexados à inflação registravam recordes históricos de juros reais. O Tesouro IPCA+ 2026 avançava de 5,61% para 5,70% em retorno real. Os papéis com vencimento em 2040 e 2055 ofereciam 5,86%, superando os 5,77% e 5,76% vistos na sexta anterior. Mas o movimento mais expressivo vinha dos prefixados. O Tesouro Prefixado 2025 alcançava 12,20% ao ano — o maior patamar registrado até então — enquanto o papel com vencimento em 2033 subia para 12,02%, avançando 18 pontos-base em relação à sessão anterior.

Essas taxas refletiam uma realidade econômica cada vez mais desafiadora. O mercado precificava não apenas a inflação presente, mas a possibilidade de que o Banco Central precisasse manter a Selic elevada por um período prolongado. A guerra na Ucrânia havia transformado o cenário de commodities globais, e o Brasil, importador líquido de petróleo e trigo, sentia o peso dessa transformação em tempo real.

Na esfera política doméstica, a pressão sobre os combustíveis ganhava urgência. Fontes ouvidas pela Reuters indicavam que executivos da Petrobras buscariam aprovação do governo para elevar preços nas refinarias. Simultaneamente, o Senado Federal se preparava para votar, na quarta-feira, dois projetos de lei alternativos para conter a disparada dos preços da gasolina e do diesel nas bombas. O governo Bolsonaro, atento aos efeitos eleitorais de uma inflação de combustíveis, explorava mudanças no cálculo do ICMS, criação de fundos com dividendos da estatal e revisão da precificação. Havia também a questão do Refis — um programa de refinanciamento de dívidas tributárias para micro e pequenas empresas, com débitos acumulados de R$ 20 bilhões, que o Congresso analisaria em breve após o presidente vetar a proposta inicial.

O cenário internacional permanecia em aberto. Rússia e Ucrânia deveriam retornar à mesa de negociações naquele mesmo dia para uma terceira rodada, mas sem esperança realista de cessar-fogo. Putin havia descumprido acordos anteriores sobre corredores humanitários. A China, por sua vez, mantinha sua posição ambígua — Wang Yi reafirmava que a amizade sino-russa era "sólida como rocha", enquanto oferecia mediação internacional. O mundo aguardava, e os mercados precificavam cada movimento, cada declaração, cada possibilidade.

Os EUA e seus aliados estão considerando proibir as importações russas de petróleo e gás natural em resposta ao ataque do país à Ucrânia.
— Antony Blinken, secretário de Estado americano
Precisamos prevenir uma crise humanitária em larga escala.
— Wang Yi, ministro das Relações Exteriores da China
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