Oito em cada dez brasileiros acreditam que reforma tributária solidária é essencial para desenvolvimento, com apoio crescente a impostos progressivos. População reconhece que machismo, racismo e desigualdade estrutural impedem mobilidade social, mesmo com educação e trabalho.
Pesquisas mostram consciência crescente sobre desigualdade e rejeição ao governo Bolsonaro
A população sabe que é dever constitucional reduzir a desigualdade
Por que essa pesquisa da Oxfam importa agora, em 2021, e não importava antes?
A pandemia tornou visível o que era invisível. Quando as pessoas estão em casa, perdendo renda, vendo vizinhos na miséria, o sistema inteiro fica exposto. A desigualdade deixou de ser abstrata.
Mas oitenta e quatro por cento apoiando impostos sobre os ricos — isso não é sempre o que as pessoas dizem em pesquisa, sem necessariamente votar assim?
É uma pergunta justa. Mas note que esse apoio cresceu de 77% para 84%. E pela primeira vez, 54% aceitam impostos maiores para si mesmos. Isso sugere que a consciência não é apenas retórica — é convicção.
O que mais chama atenção nos dados?
Que sessenta por cento rejeita a ideia de que trabalho e educação sozinhos resolvem. Isso é uma ruptura. Durante décadas, o discurso era: trabalhe, estude, suba. A população agora diz: isso não é suficiente. A estrutura precisa mudar.
E o governo Bolsonaro está fazendo o quê em resposta?
O oposto. Desconstrói políticas de igualdade, nega a ciência, negligencia a saúde pública. A pesquisa XP mostra que a aprovação caiu de 40% para 21%. Há um desalinhamento total entre o que o governo faz e o que a população quer.
Sessenta e quatro por cento estão pouco otimistas sobre mudança. Isso não enfraquece a consciência?
Não. Consciência e otimismo são coisas diferentes. A população sabe o que precisa ser feito. Sabe que é dever constitucional. Mas duvida que aconteça. Isso é realismo, não resignação.
El Pulso
- Oitenta e quatro por cento apoiam aumento de impostos para os ricos
- Cinquenta e quatro por cento, pela primeira vez, aceitam impostos maiores para todos
- Aprovação do governo Bolsonaro caiu de 40% para 21% em avaliação positiva
- Quarenta e seis por cento acreditam que corrupção aumentou muito
- Sessenta por cento rejeitam que trabalho sozinho resolve desigualdade
Oito em cada dez brasileiros acreditam que reforma tributária solidária é essencial para desenvolvimento, com apoio crescente a impostos progressivos. População reconhece que machismo, racismo e desigualdade estrutural impedem mobilidade social, mesmo com educação e trabalho.
Pesquisa Oxfam mostra que 86% dos brasileiros reconhecem que sem redução da desigualdade não há progresso, e 84% apoiam tributação dos ricos. Simultaneamente, aprovação do governo Bolsonaro cai de 40% para 21%.
A pandemia expôs o Brasil que já existia — e agora, pela primeira vez em escala significativa, os brasileiros estão nomeando o que veem. Uma pesquisa da Oxfam divulgada em junho de 2021 capturou um momento de virada na consciência pública: oito em cada dez cidadãos acreditam que o progresso é impossível sem redução da desigualdade. Não é uma posição marginal. É a maioria falando.
Os números revelam uma população que entende a mecânica da injustiça. Oitenta e quatro por cento apoiam o aumento de impostos para os mais ricos — um apoio que cresceu desde 77% em pesquisas anteriores. Cinquenta e quatro por cento, pela primeira vez, aceitam impostos maiores para todos, desde que financiem saúde, educação e habitação. Noventa e quatro por cento querem que os impostos beneficiem os pobres. Esses não são números de uma população resignada. São números de uma população que está conectando os pontos.
O contexto importa. A pesquisa foi realizada enquanto o Brasil contabilizava 450 mil mortes por covid-19 — 3,47 milhões no mundo. O auxílio emergencial de 600 reais, aprovado pelo Congresso apesar da resistência do governo, havia sido suspenso em dezembro de 2020 e restabelecido em março de 2021 com valores menores e insuficientes. A população viu, na prática, o que a distribuição de renda faz: evita miséria, sustenta consumo, impede colapso. E viu também o que sua ausência causa.
Mas a consciência vai além da tributação. A população reconhece que a desigualdade é também questão de gênero e raça. Sessenta e sete por cento acreditam que ser mulher impacta na renda. Cinquenta e oito por cento sabem que ser negro ou negra significa salários menores. Setenta e seis por cento veem a cor da pele pesando na busca por emprego. Oitenta e quatro por cento afirmam que a polícia leva em conta a cor na abordagem e a Justiça, nas sentenças. Sessenta por cento rejeitam a ideia de que trabalho sozinho resolve o abismo social — entendem que mobilidade individual não altera estrutura.
Enquanto isso, a aprovação do governo Bolsonaro despencar. A pesquisa XP, a nona da série, mostrou a avaliação do governo como ruim ou péssimo subindo de 31% para 50%. A aprovação como ótimo ou bom caiu de 40% para 21%. Sessenta por cento acreditam que a economia segue no caminho errado. Quarenta e seis por cento dizem que a corrupção aumentou muito — um contraste brutal com o discurso oficial. Cinquenta e dois por cento temem perder o emprego. A fome e a miséria reapareceram como principais problemas do país, logo após saúde, desemprego e corrupção.
Há um desalinhamento claro entre o que o governo faz e o que a população quer. O governo abraça o neoliberalismo enquanto a maioria demanda um Estado ativo na redução de desigualdades. O governo desconstrói políticas de igualdade de gênero e raça enquanto a população as defende. O governo negligencia a saúde pública — negligência exposta pela CPI da pandemia — enquanto setenta e três por cento defendem a universalidade do SUS.
Há um otimismo limitado nessa consciência crescente. Sessenta e quatro por cento estão pouco otimistas sobre a possibilidade de mudança estrutural nos próximos anos. Quarenta e sete por cento têm expectativa ruim ou péssima para o final do mandato. Mas a consciência está lá. A população sabe o que precisa ser feito. Sabe que é dever constitucional do governo reduzir a desigualdade. E sabe que o governo atual não está fazendo isso — está fazendo o oposto.
Citas Notables
Oito em cada dez brasileiros acreditam que não é possível progresso sem redução das desigualdades— Pesquisa Oxfam
Noventa e quatro por cento querem que os impostos beneficiem os pobres— Pesquisa Oxfam