No primeiro trimestre de 2021, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro revelou uma ferida antiga tornada visível pelos números: a desigualdade de renda local alcançou patamares comparáveis aos do Nordeste, historicamente a região mais desigual do país. Uma pesquisa do Observatório de Metrópoles mostra que os 10% mais ricos ganham 74,6 vezes mais do que os 40% mais pobres — proporção que havia dobrado em apenas doze meses. Por trás dessa estatística, há milhões de pessoas cujo sustento mensal mal ultrapassa R$ 96,8, vivendo em uma metrópole que produz riqueza sem distribuí-la.
Desigualdade na Região Metropolitana do Rio iguala-se à do Nordeste
Os mais pobres recebiam R$ 96,8 mensais enquanto os ricos ganhavam R$ 7.271
Por que a Região Metropolitana do Rio chegou a esse patamar de desigualdade tão próximo ao do Nordeste?
A economia do Rio é formalmente complexa, mas materialmente precária. A maioria das pessoas trabalha na informalidade — vendendo na rua, prestando serviços sem contrato. Quando a pandemia bateu, essas pessoas perderam tudo de uma vez.
Mas o Rio não é uma metrópole rica? Como isso é possível?
Riqueza concentrada não é o mesmo que economia saudável. Os ricos ganham muito, mas a base da pirâmide trabalha em atividades que não oferecem proteção nem estabilidade. É uma economia que gera muita renda no topo e muito pouco embaixo.
Qual foi o impacto específico da pandemia nesses números?
O salto de 35,6 para 74,6 vezes em um ano mostra que os pobres perderam renda rapidamente. Os ricos mantiveram seus ganhos. Quando você depende de trabalho informal, uma crise sanitária é uma crise econômica imediata.
Esses R$ 96,8 mensais — como alguém vive com isso em uma metrópole?
Não vive bem. É extrema pobreza em um contexto urbano. Você escolhe entre comer ou pagar transporte. A pandemia tornou essa escolha ainda mais impossível.
O que mudaria esses números?
Formalização do trabalho, políticas de renda, investimento em setores que ofereçam empregos de qualidade. Mas isso exige vontade política e recursos. Enquanto isso, a desigualdade segue crescendo.
El Pulso
- Em apenas um ano, a proporção entre ricos e pobres na região metropolitana do Rio saltou de 35,6 para 74,6 vezes — um abismo que se abriu com velocidade alarmante.
- Os 40% mais pobres sobrevivem com R$ 96,8 mensais, menos de um quarto do salário mínimo, em uma cidade onde o custo de vida não perdoa.
- A pandemia não criou a desigualdade, mas a acelerou: trabalhadores informais, sem proteção legal, foram os primeiros a perder renda quando a economia colapsou.
- O Rio ocupa o segundo lugar no ranking de desigualdade entre metrópoles brasileiras, atrás apenas de João Pessoa — uma posição que não oferece nenhum conforto.
- Economistas apontam a informalidade crônica como raiz estrutural do problema, e alertam que, sem mudanças profundas, os números tendem a persistir ou piorar.
No primeiro trimestre de 2021, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro revelou uma ferida antiga tornada visível pelos números: a desigualdade de renda local alcançou patamares comparáveis aos do Nordeste, historicamente a região mais desigual do país. Uma pesquisa do Observatório de Metrópoles mostra que os 10% mais ricos ganham 74,6 vezes mais do que os 40% mais pobres — proporção que havia dobrado em apenas doze meses. Por trás dessa estatística, há milhões de pessoas cujo sustento mensal mal ultrapassa R$ 96,8, vivendo em uma metrópole que produz riqueza sem distribuí-la.
A Região Metropolitana do Rio de Janeiro chegou a um ponto difícil de ignorar. Uma pesquisa do Observatório de Metrópoles, em parceria com a PUC-RS e o Observatório da Dívida Social, revelou que a desigualdade de renda na metrópole carioca agora se equipara à do Nordeste — uma das regiões historicamente mais desiguais do Brasil.
No primeiro trimestre de 2021, os 10% mais ricos dos 22 municípios que compõem a região metropolitana ganhavam, em média, R$ 7.271 mensais. Os 40% mais pobres recebiam R$ 96,8 — uma renda 74,6 vezes menor. Doze meses antes, essa proporção era de 35,6 vezes. O salto é vertiginoso e revela não uma explosão de ganhos entre os mais ricos, mas um colapso de renda entre os mais pobres.
O economista Marcelo Ribeiro, da UFRJ e coordenador do estudo, aponta a informalidade como raiz do problema. O Rio possui uma economia complexa e diversificada, mas boa parte dela é precária: camelôs, vendedores ambulantes, trabalhadores sem vínculo formal. Quando a pandemia chegou, essas pessoas foram as primeiras a perder o sustento, porque seus laços com o mercado de trabalho eram frágeis demais para resistir.
O Rio não lidera esse ranking deprimente — João Pessoa, na Paraíba, apresenta proporção ainda maior, de 99,9 vezes. Mas ocupar o segundo lugar nessa competição pela desigualdade é um sinal de que a estrutura econômica da metrópole carioca reproduz pobreza em escala. Os dados, extraídos da PNAD Contínua do IBGE, não são projeções: refletem a realidade vivida por milhões de pessoas. E a estrutura que os gerou — a informalidade crônica e os vínculos frágeis — permanece intacta.
A Região Metropolitana do Rio de Janeiro chegou a um ponto de ruptura. Os números, extraídos de uma pesquisa do Observatório de Metrópoles em parceria com a PUC do Rio Grande do Sul e o Observatório da Dívida Social, revelam uma realidade que poucos queriam encarar: a desigualdade de renda na metrópole carioca agora se equipara à do Nordeste, uma das regiões mais desiguais do país.
No primeiro trimestre de 2021, os 10% mais ricos da região metropolitana — que abrange 22 municípios, incluindo a capital e os da Baixada — auferiam uma renda média per capita 74,6 vezes superior à dos 40% mais pobres. Doze meses antes, essa proporção era de 35,6 vezes. O salto é vertiginoso. Enquanto os mais abastados ganhavam em média R$ 7.271, aqueles que viviam na base da pirâmide social recebiam R$ 96,8 mensais — uma quantia que mal alcançava um quarto do salário mínimo da época. Para colocar em perspectiva: esses R$ 96,8 precisavam cobrir alimentação, transporte, moradia e tudo mais que uma pessoa necessita para sobreviver em uma metrópole.
O Rio não ocupa o topo desse ranking deprimente. Apenas João Pessoa, na Paraíba, apresenta números ainda piores: lá, a renda dos 10% mais ricos é 99,9 vezes maior que a dos mais pobres. Mas estar em segundo lugar nessa competição pela desigualdade não é motivo para alívio. É um sinal de que a estrutura econômica da região metropolitana carioca — apesar de sua sofisticação relativa e complexidade — produz e reproduz pobreza em escala industrial.
Marcelo Ribeiro, economista e professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, um dos coordenadores do estudo, aponta a raiz do problema: informalidade. O Rio de Janeiro, segundo ele, carrega um paradoxo. Possui uma economia complexa, diversificada, mas boa parte dessa atividade econômica é precária. Camelôs, vendedores ambulantes, trabalhos sem vínculo formal — essas são as ocupações que definem o mercado de trabalho para milhões de pessoas. Quando a pandemia chegou, essas pessoas foram as primeiras a perder renda, porque seus vínculos com o mercado de trabalho eram frágeis demais para resistir.
A pandemia de Covid-19 não criou essa desigualdade, mas a acelerou. O aumento observado entre 2020 e 2021 não veio de uma explosão de ganhos entre os ricos — veio do colapso de renda entre os pobres. Pessoas que já viviam à margem perderam ainda mais. Aqueles que dependiam de trabalho informal, sem proteção legal, sem direitos trabalhistas, foram os primeiros a sofrer quando a economia se contraiu.
Os dados vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, realizada pelo IBGE, o que lhes confere solidez metodológica. Não são estimativas ou projeções. São números que refletem a realidade vivida por milhões de pessoas na região metropolitana do Rio. E essa realidade é a de uma metrópole que, apesar de sua importância econômica e cultural, não consegue oferecer oportunidades básicas de renda para a maioria de sua população.
O que vem a seguir é incerto. A pesquisa documenta um momento — o primeiro trimestre de 2021 — quando a pandemia ainda estava em seu auge no Brasil. Mas a estrutura que produziu esses números, a informalidade crônica e os vínculos frágeis no mercado de trabalho, permanece. Sem mudanças estruturais na economia do Rio, sem políticas que fortaleçam o trabalho formal e ampliem oportunidades para os mais pobres, esses números tendem a persistir ou piorar.
Citas Notables
O Rio de Janeiro está com o patamar de desigualdade semelhante ao do Nordeste, principalmente ao de João Pessoa e Recife, apesar de sua maior complexidade econômica— Marcelo Ribeiro, economista e professor da UFRJ
Durante a pandemia, o aumento da desigualdade do Rio se dá principalmente pelo fato de as pessoas de baixa renda terem perdido muito rendimento, porque estão com vínculos muito frágeis no mercado de trabalho— Marcelo Ribeiro, economista e professor da UFRJ