Desigualdade na Região Metropolitana do Rio iguala-se à do Nordeste

Os 40% mais pobres da Região Metropolitana do Rio têm renda média de apenas R$ 96,8 mensais, vivendo em situação de extrema pobreza agravada pela pandemia.
Os mais pobres recebiam R$ 96,8 mensais enquanto os ricos ganhavam R$ 7.271
A disparidade de renda na Região Metropolitana do Rio em 2021, refletindo a extrema pobreza urbana.
Mark

Por que a Região Metropolitana do Rio chegou a esse patamar de desigualdade tão próximo ao do Nordeste?

Mimi

A economia do Rio é formalmente complexa, mas materialmente precária. A maioria das pessoas trabalha na informalidade — vendendo na rua, prestando serviços sem contrato. Quando a pandemia bateu, essas pessoas perderam tudo de uma vez.

Mark

Mas o Rio não é uma metrópole rica? Como isso é possível?

Mimi

Riqueza concentrada não é o mesmo que economia saudável. Os ricos ganham muito, mas a base da pirâmide trabalha em atividades que não oferecem proteção nem estabilidade. É uma economia que gera muita renda no topo e muito pouco embaixo.

Mark

Qual foi o impacto específico da pandemia nesses números?

Mimi

O salto de 35,6 para 74,6 vezes em um ano mostra que os pobres perderam renda rapidamente. Os ricos mantiveram seus ganhos. Quando você depende de trabalho informal, uma crise sanitária é uma crise econômica imediata.

Mark

Esses R$ 96,8 mensais — como alguém vive com isso em uma metrópole?

Mimi

Não vive bem. É extrema pobreza em um contexto urbano. Você escolhe entre comer ou pagar transporte. A pandemia tornou essa escolha ainda mais impossível.

Mark

O que mudaria esses números?

Mimi

Formalização do trabalho, políticas de renda, investimento em setores que ofereçam empregos de qualidade. Mas isso exige vontade política e recursos. Enquanto isso, a desigualdade segue crescendo.

  • Em apenas um ano, a proporção entre ricos e pobres na região metropolitana do Rio saltou de 35,6 para 74,6 vezes — um abismo que se abriu com velocidade alarmante.
  • Os 40% mais pobres sobrevivem com R$ 96,8 mensais, menos de um quarto do salário mínimo, em uma cidade onde o custo de vida não perdoa.
  • A pandemia não criou a desigualdade, mas a acelerou: trabalhadores informais, sem proteção legal, foram os primeiros a perder renda quando a economia colapsou.
  • O Rio ocupa o segundo lugar no ranking de desigualdade entre metrópoles brasileiras, atrás apenas de João Pessoa — uma posição que não oferece nenhum conforto.
  • Economistas apontam a informalidade crônica como raiz estrutural do problema, e alertam que, sem mudanças profundas, os números tendem a persistir ou piorar.

No primeiro trimestre de 2021, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro revelou uma ferida antiga tornada visível pelos números: a desigualdade de renda local alcançou patamares comparáveis aos do Nordeste, historicamente a região mais desigual do país. Uma pesquisa do Observatório de Metrópoles mostra que os 10% mais ricos ganham 74,6 vezes mais do que os 40% mais pobres — proporção que havia dobrado em apenas doze meses. Por trás dessa estatística, há milhões de pessoas cujo sustento mensal mal ultrapassa R$ 96,8, vivendo em uma metrópole que produz riqueza sem distribuí-la.

A Região Metropolitana do Rio de Janeiro chegou a um ponto difícil de ignorar. Uma pesquisa do Observatório de Metrópoles, em parceria com a PUC-RS e o Observatório da Dívida Social, revelou que a desigualdade de renda na metrópole carioca agora se equipara à do Nordeste — uma das regiões historicamente mais desiguais do Brasil.

No primeiro trimestre de 2021, os 10% mais ricos dos 22 municípios que compõem a região metropolitana ganhavam, em média, R$ 7.271 mensais. Os 40% mais pobres recebiam R$ 96,8 — uma renda 74,6 vezes menor. Doze meses antes, essa proporção era de 35,6 vezes. O salto é vertiginoso e revela não uma explosão de ganhos entre os mais ricos, mas um colapso de renda entre os mais pobres.

O economista Marcelo Ribeiro, da UFRJ e coordenador do estudo, aponta a informalidade como raiz do problema. O Rio possui uma economia complexa e diversificada, mas boa parte dela é precária: camelôs, vendedores ambulantes, trabalhadores sem vínculo formal. Quando a pandemia chegou, essas pessoas foram as primeiras a perder o sustento, porque seus laços com o mercado de trabalho eram frágeis demais para resistir.

O Rio não lidera esse ranking deprimente — João Pessoa, na Paraíba, apresenta proporção ainda maior, de 99,9 vezes. Mas ocupar o segundo lugar nessa competição pela desigualdade é um sinal de que a estrutura econômica da metrópole carioca reproduz pobreza em escala. Os dados, extraídos da PNAD Contínua do IBGE, não são projeções: refletem a realidade vivida por milhões de pessoas. E a estrutura que os gerou — a informalidade crônica e os vínculos frágeis — permanece intacta.

A Região Metropolitana do Rio de Janeiro chegou a um ponto de ruptura. Os números, extraídos de uma pesquisa do Observatório de Metrópoles em parceria com a PUC do Rio Grande do Sul e o Observatório da Dívida Social, revelam uma realidade que poucos queriam encarar: a desigualdade de renda na metrópole carioca agora se equipara à do Nordeste, uma das regiões mais desiguais do país.

No primeiro trimestre de 2021, os 10% mais ricos da região metropolitana — que abrange 22 municípios, incluindo a capital e os da Baixada — auferiam uma renda média per capita 74,6 vezes superior à dos 40% mais pobres. Doze meses antes, essa proporção era de 35,6 vezes. O salto é vertiginoso. Enquanto os mais abastados ganhavam em média R$ 7.271, aqueles que viviam na base da pirâmide social recebiam R$ 96,8 mensais — uma quantia que mal alcançava um quarto do salário mínimo da época. Para colocar em perspectiva: esses R$ 96,8 precisavam cobrir alimentação, transporte, moradia e tudo mais que uma pessoa necessita para sobreviver em uma metrópole.

O Rio não ocupa o topo desse ranking deprimente. Apenas João Pessoa, na Paraíba, apresenta números ainda piores: lá, a renda dos 10% mais ricos é 99,9 vezes maior que a dos mais pobres. Mas estar em segundo lugar nessa competição pela desigualdade não é motivo para alívio. É um sinal de que a estrutura econômica da região metropolitana carioca — apesar de sua sofisticação relativa e complexidade — produz e reproduz pobreza em escala industrial.

Marcelo Ribeiro, economista e professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, um dos coordenadores do estudo, aponta a raiz do problema: informalidade. O Rio de Janeiro, segundo ele, carrega um paradoxo. Possui uma economia complexa, diversificada, mas boa parte dessa atividade econômica é precária. Camelôs, vendedores ambulantes, trabalhos sem vínculo formal — essas são as ocupações que definem o mercado de trabalho para milhões de pessoas. Quando a pandemia chegou, essas pessoas foram as primeiras a perder renda, porque seus vínculos com o mercado de trabalho eram frágeis demais para resistir.

A pandemia de Covid-19 não criou essa desigualdade, mas a acelerou. O aumento observado entre 2020 e 2021 não veio de uma explosão de ganhos entre os ricos — veio do colapso de renda entre os pobres. Pessoas que já viviam à margem perderam ainda mais. Aqueles que dependiam de trabalho informal, sem proteção legal, sem direitos trabalhistas, foram os primeiros a sofrer quando a economia se contraiu.

Os dados vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, realizada pelo IBGE, o que lhes confere solidez metodológica. Não são estimativas ou projeções. São números que refletem a realidade vivida por milhões de pessoas na região metropolitana do Rio. E essa realidade é a de uma metrópole que, apesar de sua importância econômica e cultural, não consegue oferecer oportunidades básicas de renda para a maioria de sua população.

O que vem a seguir é incerto. A pesquisa documenta um momento — o primeiro trimestre de 2021 — quando a pandemia ainda estava em seu auge no Brasil. Mas a estrutura que produziu esses números, a informalidade crônica e os vínculos frágeis no mercado de trabalho, permanece. Sem mudanças estruturais na economia do Rio, sem políticas que fortaleçam o trabalho formal e ampliem oportunidades para os mais pobres, esses números tendem a persistir ou piorar.

O Rio de Janeiro está com o patamar de desigualdade semelhante ao do Nordeste, principalmente ao de João Pessoa e Recife, apesar de sua maior complexidade econômica
— Marcelo Ribeiro, economista e professor da UFRJ
Durante a pandemia, o aumento da desigualdade do Rio se dá principalmente pelo fato de as pessoas de baixa renda terem perdido muito rendimento, porque estão com vínculos muito frágeis no mercado de trabalho
— Marcelo Ribeiro, economista e professor da UFRJ
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