Apenas 237 de 7.456 transmissões religiosas monitoradas continham propaganda eleitoral explícita nos domingos anteriores ao primeiro turno das eleições. Conteúdo cívico (pregações sobre voto consciente sem indicar candidatos) apareceu cinco vezes mais que propaganda eleitoral, especialmente entre católicos.
Pesquisa refuta mito do 'voto de cajado': propaganda eleitoral em igrejas é rara
A propaganda eleitoral existe, mas numa fatia bem pequena
Então o estudo está dizendo que pastores praticamente não pedem voto nas igrejas? Isso parece contradizer tudo que a gente ouve falar.
Não é bem assim. Eles encontraram propaganda eleitoral em 3,2% dos cultos e missas. Existe, mas é minoritária. O que é surpreendente é a proporção — muito menor do que o imaginário popular sugere.
Mas qual é exatamente a definição de "propaganda eleitoral" que eles usaram? Porque "bênção de um candidato" é bem diferente de "pedido explícito de voto".
Eles definiram como qualquer prática que promova ou ataque uma candidatura, direta ou indiretamente. Então sim, inclui desde o pedido direto até a bênção.
E por que a Assembleia de Deus teve 8,3% enquanto a Igreja Católica teve 0,7%? Isso não sugere que há diferenças reais entre as denominações?
Sim, há diferenças claras. Mas mesmo 8,3% ainda é uma minoria. E o conteúdo cívico — pregações sobre voto consciente sem indicar candidatos — apareceu muito mais, especialmente entre católicos.
Tem um problema aqui: eles monitoraram transmissões de YouTube. Isso significa que estão vendo apenas as igrejas com canal, e provavelmente as maiores. As pequenas congregações podem funcionar diferente.
Verdade. Eles incluíram desde canais com 874 mil seguidores até um com 68 seguidores, mas ainda assim é uma amostra de igrejas que transmitem online.
E quanto àquelas estratégias indiretas que o estudo menciona? Adesivos, bênçãos coletivas, conversas privadas depois do culto?
Essas não entraram na contagem de propaganda eleitoral porque não são públicas ou explícitas. Mas os pesquisadores reconhecem que há circulação política acontecendo fora do púlpito.
Exatamente. O Toniol deixa claro: eles não têm acesso aos grupos de WhatsApp, às conversas na entrada da igreja. Então o estudo mede apenas o que é dito publicamente no culto.
Então o 'voto de cajado' pode estar acontecendo, mas de forma invisível para essa pesquisa?
Pode estar. Mas o que o estudo demonstra é que, pelo menos no que é dito publicamente durante os cultos, o fenômeno é muito menor do que se imagina.
Le Pouls
- Apenas 237 de 7.456 transmissões religiosas continham propaganda eleitoral explícita (3,2%)
- Conteúdo cívico apareceu cinco vezes mais frequentemente que propaganda eleitoral
- Assembleia de Deus teve 8,3% de propaganda eleitoral; Igreja Católica teve 0,7%; igrejas batistas tiveram 1,4%
- Pesquisa monitorou 1.785 templos católicos, 3.596 cultos batistas e 2.075 da Assembleia de Deus em 25 estados
Apenas 237 de 7.456 transmissões religiosas monitoradas continham propaganda eleitoral explícita nos domingos anteriores ao primeiro turno das eleições. Conteúdo cívico (pregações sobre voto consciente sem indicar candidatos) apareceu cinco vezes mais que propaganda eleitoral, especialmente entre católicos.
Estudo de More in Common Brasil e UFRJ analisou 7.456 missas e cultos em 25 estados e encontrou propaganda eleitoral em apenas 3,2% delas, refutando o mito popular do 'voto de cajado'.
O mito do 'voto de cajado' — aquela ideia de que pastores e padres usam o púlpito para pressionar fiéis a votar em candidatos específicos — persiste no imaginário político brasileiro como uma verdade estabelecida. Mas uma pesquisa conduzida pela More in Common Brasil em parceria com o Passagens, grupo de pesquisa da UFRJ, encontrou algo bem diferente: a propaganda eleitoral explícita nas igrejas é rara, muito mais rara do que se costuma supor.
Os pesquisadores monitoraram 7.456 missas e cultos ao longo de dois domingos que antecederam o primeiro turno das eleições, cobrindo 25 estados mais o Distrito Federal. O levantamento incluiu 1.785 templos católicos, 3.596 cultos batistas e 2.075 da Assembleia de Deus — denominações evangélicas com presença pulverizada pelo país, onde cada congregação local pode funcionar com autonomia considerável. O resultado foi claro: apenas 237 transmissões, o equivalente a 3,2% do total, continham o que os pesquisadores definiram como propaganda eleitoral — qualquer prática que promova ou ataque uma candidatura, seja um pedido explícito de voto ou uma bênção direcionada a um campo político.
Para colocar esse número em perspectiva, conteúdo cívico apareceu cinco vezes mais frequentemente. Essas eram pregações contra a polarização, estímulos ao voto consciente e reflexões sobre responsabilidade eleitoral, sem indicar candidatos específicos ou preferências ideológicas. Uma igreja batista em Niterói, por exemplo, teve um pastor que pregou sobre "voto com responsabilidade" e alertou contra brigas entre vizinhos e parentes por causa de eleição — lembrando que após o pleito, todos continuariam sentados nos mesmos bancos da igreja. Em São José dos Campos, uma missa sugeriu escolher candidatos que respeitassem a vida e o meio ambiente, mas ressalvou que os partidos passam e a comunidade permanece.
Quando a propaganda eleitoral ocorria, havia padrões claros. A Igreja Católica apresentou o índice mais baixo, com apenas 0,7% das missas monitoradas contendo mensagens políticas. Entre os batistas, o número subiu para 1,4%. Nas Assembleias de Deus, porém, chegou a 8,3% — ainda assim uma minoria, mas proporcionalmente maior. Mesmo quando pastores pentecostais faziam menção política, frequentemente usavam estratégias indiretas. Um pastor em Valparaíso de Goiás disse que não podia pedir voto, "mas posso te orientar", e ofereceu adesivos para carros aos interessados que o procurassem após o culto. Em Balneário Camboriú, outro pastor falou em votar em "cristãos que defendem a família" e ofereceu "dicas" para "votar certinho".
Há casos mais diretos, é verdade. O pastor André Fernandes recebeu Flávio Bolsonaro em sua igreja, a Celeiro, na véspera do 7 de Setembro, e afirmou que sua opção pessoal era o candidato do PL. Um pastor em Paulo Ramos, no Maranhão, incentivou orações para três candidatos específicos — uma deputada federal e dois estaduais — até que um fiel o advertiu que preferia sair se aquilo continuasse. A resposta foi simples: "Saia." Um padre em Goiás propagou uma fake news sobre Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida, enquadrando-a como tática de governos esquerdistas.
Mas esses exemplos, segundo os pesquisadores, são exceções. Pablo Ortellado, professor da USP e diretor-executivo da More in Common, aponta que existe distorção sobre o alcance real do fenômeno. Há, segundo ele, "muito preconceito do mundo letrado, que ou é católico ou sem religião, em relação aos evangélicos, tratados como um grupo sem instrução que é manipulado pelas suas lideranças". É verdade que igrejas pentecostais pedem "mais voto, e de uma maneira descarada", mas isso não significa que o fenômeno seja tão generalizado quanto o senso comum sugere.
O antropólogo Rodrigo Toniol, da UFRJ, lembra que há outras formas de circulação política além do púlpito — conversas na entrada e saída da igreja, grupos de WhatsApp, encontros privados. Os próprios líderes parecem reconhecer um limite para o que pode ser dito publicamente, daí sugerirem que as pessoas os procurem depois. Toniol também identifica uma dimensão teológica importante: mesmo em celebrações politizadas, a ação eleitoral é frequentemente relativizada pela afirmação de que o resultado das urnas não ocupa o lugar da soberania divina. A política é absorvida por uma gramática religiosa que simultaneamente exige participação do fiel e limita sua importância última. A eleição importa, mas Deus é mais.
Citations marquantes
Existe muito preconceito do mundo letrado, que ou é católico ou sem religião, em relação aos evangélicos, tratados como um grupo sem instrução que é manipulado pelas suas lideranças— Pablo Ortellado, professor da USP e diretor-executivo da More in Common Brasil
A política é absorvida por uma gramática religiosa que simultaneamente exige participação do fiel e limita sua importância última— Rodrigo Toniol, antropólogo da UFRJ