Pesquisa militar dos EUA virou base para cães-robôs chineses de bilhões

Não existe um caminho viável sem eles
Kenneally sobre a necessidade de trabalhar com aliados para reduzir dependência da cadeia de suprimentos chinesa.
Mark

Por que a pesquisa militar americana financiada abertamente acabou beneficiando tanto a China?

Mimi

Porque a China tinha algo que os EUA não tinham no momento: uma estratégia industrial coordenada, subsídios estatais massivos e uma cadeia de suprimentos integrada. A pesquisa foi publicada abertamente — isso é normal na academia — mas transformar conhecimento em produtos de massa é outra história completamente diferente.

Mark

Então o problema não é roubo de tecnologia, é falta de escala?

Mimi

Exatamente. A Unitree não fez nada ilegal. Ela leu as dissertações, entendeu o design, e depois fez o que nenhuma empresa americana conseguiu fazer: fabricar 18 mil robôs em um ano. Os americanos têm inovação, mas não têm a infraestrutura industrial para transformar inovação em volume.

Mark

E por que os EUA não conseguem fazer isso?

Mimi

Porque os investidores americanos preferem startups de software com retorno rápido. Robótica é pesado, exige fábricas, cadeias de suprimentos, margens pequenas no começo. A China aceitou operar com prejuízo durante anos para ganhar escala. Os EUA não faz isso.

Mark

As restrições comerciais que os EUA impôs agora vão resolver o problema?

Mimi

Não. Especialistas concordam que barreiras sozinhas não constroem uma indústria. Você precisa de capital, infraestrutura, mão de obra qualificada e fornecedores confiáveis. Os EUA ainda depende da China para ímãs e componentes críticos. Nem a Ghost Robotics conseguiu se descolar completamente.

Mark

Então qual é a saída?

Mimi

Trabalhar com aliados — Coreia do Sul, Taiwan, países que têm capacidade produtiva. E criar incentivos reais para que empresas americanas invistam em manufatura em larga escala. Mas isso exige paciência e capital de longo prazo, coisas que o mercado americano não oferece naturalmente.

Mark

Isso significa que a China vai dominar robótica para sempre?

Mimi

Não necessariamente. Mas significa que os EUA perdeu uma oportunidade. Financiou a pesquisa, publicou os resultados, e depois não conseguiu transformar isso em vantagem competitiva. Agora está tentando bloquear a concorrência em vez de construir sua própria capacidade.

  • Unitree vendeu 18 mil robôs quadrúpedes em 2024; modelo Go2 custa US$ 1.600
  • Mini Cheetah do MIT e série Go da Unitree têm dimensões praticamente idênticas
  • Nenhuma empresa americana consegue produção em larga escala de robôs quadrúpedes similar
  • Unitree avaliada em cerca de US$ 9 bilhões antes de estreia na bolsa de Xangai
  • EUA financiou pesquisa de robótica entre 2010 e 2020 através da Aliança de Tecnologia Colaborativa em Robótica

Unitree vendeu 18 mil robôs quadrúpedes em 2024, modelo Go2 custa US$ 1.600, enquanto nenhuma empresa americana consegue produção em larga escala similar. Pesquisas financiadas pelo Exército dos EUA foram publicadas abertamente; Mini Cheetah do MIT serviu de base para série Go da Unitree com dimensões praticamente idênticas.

Empresa chinesa Unitree Robotics baseou design de cães-robôs em tecnologias desenvolvidas com financiamento militar dos EUA, conquistando mercado global enquanto empresas americanas enfrentam dificuldades em escala comercial.

A Unitree Robotics, uma das maiores fabricantes de robôs do mundo, construiu seus cães-robôs mais populares sobre alicerces financiados pelos militares americanos. O modelo Go2, lançado em 2023 e vendido por cerca de US$ 1.600, ajudou a empresa chinesa a conquistar rapidamente o mercado global de robôs quadrúpedes — e a impulsionar sua avaliação para cerca de US$ 9 bilhões antes de sua estreia na bolsa de Xangai. Segundo um ex-integrante da área de tecnologia de defesa americana e três pesquisadores envolvidos no projeto, a Unitree baseou o design de seus robôs em tecnologias desenvolvidas com financiamento do Laboratório de Pesquisa do Exército dos EUA e de outros programas militares americanos.

O caminho dessa tecnologia do laboratório para o mercado começou uma década antes. Entre 2010 e 2020, o Exército dos EUA financiou a Aliança de Tecnologia Colaborativa em Robótica, reunindo pesquisadores do governo, universidades como MIT e Universidade da Pensilvânia, e empresas como Boston Dynamics. Em 2016, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, entre eles Gavin Kenneally, substituíram pesados sistemas centrais de engrenagens por motores instalados diretamente nas pernas dos robôs — uma mudança que aumentou a capacidade das máquinas de perceber e reagir ao terreno. Três anos depois, o laboratório do MIT apresentou o Mini Cheetah, que incorporava características desenvolvidas na Pensilvânia e se destacava pela maior resistência e pela capacidade de executar cambalhotas para trás.

Ben Katz, que trabalhava no Laboratório de Robótica Biomimética do MIT, afirmou que as dimensões da popular série Go da Unitree eram praticamente idênticas às do Mini Cheetah. Poucos meses após publicar sua dissertação sobre os atuadores do Mini Cheetah, Katz já encontrou cópias dos componentes sendo vendidas por fabricantes chineses. A Unitree havia sido fundada em 2013 por Wang Xingxing, então com 26 anos. Em sua dissertação de mestrado de 2016, Wang citou pesquisas do MIT, incluindo versões anteriores do projeto Cheetah. João Ramos, que pesquisava no laboratório do MIT na mesma época que Katz, afirmou que a Unitree reproduziu elementos do formato, da estrutura e do projeto do Mini Cheetah — mas reconheceu o mérito da empresa por ter realizado um trabalho sólido de engenharia para transformar a tecnologia em um produto fabricado em larga escala.

O que torna essa história significativa não é apenas a transferência de tecnologia, mas o que ela revela sobre a capacidade industrial dos dois países. A Unitree vendeu mais de 5.500 robôs humanoides e 18 mil robôs quadrúpedes no ano passado. Nenhuma empresa dos Estados Unidos conseguiu produzir robôs desse tipo em larga escala, incluindo a Tesla, que há anos apresenta protótipos de seu robô humanoide Optimus. A Boston Dynamics, fabricante do robô Spot, afirmou recentemente em audiência no Congresso que os preços praticados por empresas chinesas podem expulsar concorrentes americanos do mercado. Kenneally transformou parte desses avanços em produtos comerciais por meio da Ghost Robotics, empresa que fornece robôs para forças especiais dos Estados Unidos — mas sua operação continua menor e mais cara que a da Unitree.

A rapidez com que fabricantes chineses conseguem reproduzir e adaptar novas tecnologias está ligada ao domínio do país no refino de minerais críticos usados em ímãs para robótica, além da concentração de fornecedores de motores, engrenagens e atuadores na região de Hangzhou, onde fica a sede da Unitree. Apoiadas por subsídios estatais, polos industriais especializados e maior disposição para operar com margens reduzidas ou prejuízos prolongados, empresas chinesas ampliaram sua participação em mercados como os de painéis solares, drones, veículos elétricos e comunicações quânticas. Em 2015, o presidente chinês Xi Jinping lançou um plano de dez anos para transformar a China em líder em setores como energia verde, veículos elétricos e robótica. Desde então, o país tem direcionado grandes volumes de capital para a manufatura avançada.

Os pesquisadores ouvidos pela Reuters afirmaram que a Unitree não agiu de forma inadequada ao utilizar pesquisas financiadas pelo Exército dos EUA. Os resultados do programa foram publicados abertamente para estimular avanços na área — uma prática comum no meio acadêmico. A porta-voz do Laboratório de Pesquisa do Exército, Amanda Ligon, afirmou que a pesquisa fortaleceu o setor de robótica dos Estados Unidos como um todo. Nenhum dos pesquisadores entrevistados defendeu que pesquisas financiadas pelo governo fossem mantidas em segredo. Em vez disso, eles argumentaram que os formuladores de políticas públicas deveriam criar condições para que empresas americanas transformem rapidamente esses avanços em produtos competitivos.

Por ora, as autoridades americanas têm recorrido principalmente a restrições comerciais. Em julho, a Comissão Federal de Comunicações proibiu a importação de futuros modelos de robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior, incluindo os da Unitree. Em junho, o Pentágono incluiu a Unitree em uma lista de empresas ligadas ao setor militar chinês. A China respondeu com ameaças de retaliação, acusando os Estados Unidos de abuso de poder administrativo. A maioria dos especialistas apoiou as restrições, mas afirmou que essa política, sozinha, não é suficiente. Vijay Kumar, reitor da Faculdade de Engenharia da Universidade da Pensilvânia, afirmou que os EUA continuam se destacando em inovação e desenvolvimento de software, mas precisam de capital, infraestrutura industrial, mão de obra qualificada e cadeias de suprimentos robustas para transformar essas inovações em produção em larga escala. Reyk Knuhtsen, analista de robótica da SemiAnalysis, classificou a dificuldade dos Estados Unidos em transformar pesquisas nacionais em produtos comerciais como uma "oportunidade perdida".

O desafio é estrutural. Kenneally afirmou que a única forma de reduzir a dependência da cadeia de suprimentos chinesa é ampliar o fornecimento por países aliados que possuam capacidade produtiva inexistente hoje nos Estados Unidos. Em 2024, a sul-coreana LIG Defense & Aerospace adquiriu 60% da Ghost Robotics por US$ 240 milhões. Segundo Kenneally, a empresa também avalia a possibilidade de produzir equipamentos em Taiwan. "Precisamos trabalhar em estreita colaboração com nossos aliados", afirmou. "Não existe um caminho viável sem eles." O que começou como pesquisa militar aberta transformou-se em uma disputa muito maior — não apenas entre empresas americanas e chinesas de robótica, mas entre uma estratégia industrial coordenada pelo governo chinês e a capacidade fragmentada do setor privado americano.

A implementação prática e a transformação dessa tecnologia em um produto comercial foram mérito deles
— João Ramos, pesquisador do MIT
Esta não é apenas uma disputa entre empresas americanas e chinesas de robótica. É uma disputa entre empresas privadas dos Estados Unidos e uma estratégia industrial coordenada pelo governo chinês
— Gavin Kenneally, fundador da Ghost Robotics
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