No cruzamento entre regulação, capital estrangeiro e disputas societárias, a Comissão de Valores Mobiliários aprovou por unanimidade uma oferta pública de aquisição da Oncoclínicas — contrariando, pela terceira vez, a orientação de sua própria área técnica. A decisão revela as tensões entre o poder colegiado e o corpo técnico de um regulador, enquanto bilhões de reais e o destino de uma das maiores redes oncológicas do país aguardam julgamento arbitral.
CVM aprova OPA da Oncoclínicas contra parecer técnico e acirra disputa acionária
A Centaurus não era parte pública do fundo, mas já constava como investidora
Por que a área técnica da CVM recomendou contra a oferta se o colegiado votou por unanimidade?
Essa é a questão central. A área técnica analisou os fatos e concluiu que não havia base legal para a oferta. O colegiado, porém, pode ter considerado outros elementos — talvez questões de interpretação sobre quando a Centaurus realmente entrou no capital.
Então a Centaurus estava ou não estava na empresa antes do IPO de 2021?
Esse é o nó. Ela estava, mas de forma oculta, dentro de um fundo cujo gestor era o Goldman Sachs. As regras do mercado permitiam isso. Mas a lei sobre ofertas públicas pode exigir transparência diferente.
E por que o Goldman Sachs precisava sair?
A Volcker Rule, uma lei americana que impede bancos de fazer operações por conta própria por dez anos. O Goldman Sachs entrou em 2015, então precisava sair antes de 2025. Isso criou toda essa engenharia de fundos.
Quem se beneficia com a aprovação da CVM?
A Latache e os acionistas minoritários, que agora podem vender suas ações por um preço muito mais alto — estimado em R$ 16, não nos R$ 1,67 atuais. A Centaurus, que teria de pagar, é quem perde.
Mas a Centaurus já estava lá desde 2018, certo?
Sim, mas invisível. Isso é o que torna tudo tão complicado. Se você estava lá antes do IPO, talvez não precise fazer a oferta. Se você entrou depois, precisa. Ninguém consegue concordar sobre quando exatamente ela entrou.
Der Puls
- A CVM ignorou duas recomendações técnicas de indeferimento e aprovou a OPA por 3 votos a zero, expondo uma fissura rara entre o colegiado e seus próprios especialistas.
- A disputa envolve fundos ligados ao Goldman Sachs, a gestora americana Centaurus Capital e a Latache, com uma rede de tratamento de câncer avaliada em R$ 6 bilhões no centro do conflito.
- O nó jurídico gira em torno de uma cláusula estatutária: quem ultrapassar 15% de participação após o IPO deve fazer oferta pública — e a Centaurus nega ter cruzado esse limiar depois de 2021.
- Antes mesmo do placar ser anunciado, o fundo Josephina 3 abriu arbitragem contra a Latache na B3, sinalizando que a batalha real será travada fora da CVM.
- Com ações a R$ 1,67 e dívidas de R$ 5,1 bilhões em reestruturação, a Oncoclínicas vê o preço da OPA ser estimado no pico pós-IPO — algo em torno de R$ 16 corrigidos —, tornando o desfecho financeiro ainda mais incerto.
No cruzamento entre regulação, capital estrangeiro e disputas societárias, a Comissão de Valores Mobiliários aprovou por unanimidade uma oferta pública de aquisição da Oncoclínicas — contrariando, pela terceira vez, a orientação de sua própria área técnica. A decisão revela as tensões entre o poder colegiado e o corpo técnico de um regulador, enquanto bilhões de reais e o destino de uma das maiores redes oncológicas do país aguardam julgamento arbitral.
A CVM aprovou na semana passada, por unanimidade, a oferta pública de aquisição de ações da Oncoclínicas. Os três membros do colegiado — o presidente Otto Lobo e os diretores João Accioly e Igor Muniz — votaram a favor, mesmo que a área técnica da autarquia tivesse recomendado o indeferimento em duas ocasiões anteriores.
A disputa tem raízes em 2015, quando o Goldman Sachs ingressou no capital da Oncoclínicas por meio do fundo Josephina. Com o tempo, o fundo se desdobrou em novas entidades: em 2018, o Josephina 2 trouxe a gestora americana Centaurus Capital para o quadro societário, mas sem divulgação pública. A saída do Goldman Sachs foi acelerada pela Volcker Rule, legislação americana que impede bancos de manter posições proprietárias por mais de dez anos, levando à criação do Josephina 3 em novembro de 2024 para concentrar a participação da Centaurus.
Em junho deste ano, Bruno Ferrari, fundador e ex-CEO da companhia, pediu à CVM que obrigasse a Centaurus a fazer uma oferta pública. O argumento: a gestora não figurava entre os acionistas relevantes antes do IPO de 2021, o que a enquadraria na cláusula estatutária que exige OPA de quem superar 15% de participação após a abertura de capital. A Centaurus rebate dizendo que já era investidora desde 2018 — amparada por uma regra brasileira que permite que parceiros de fundos não sejam divulgados publicamente, bastando que o gestor — no caso, o Goldman Sachs — seja identificado.
Antes mesmo da votação, o Josephina 3 abriu arbitragem contra a Latache, atual sócia majoritária, na câmara da B3. Após o resultado, o fundo divulgou nota reiterando discordância e afirmando que o Tribunal Arbitral tem jurisdição exclusiva sobre a disputa entre sócios.
A Oncoclínicas atravessa recuperação extrajudicial de cerca de R$ 5,1 bilhões em dívidas, com ações negociadas a R$ 1,67. O preço da OPA, porém, seria calculado com base no auge pós-IPO — estimado em torno de R$ 16 corrigidos pela inflação. A CVM não definiu valores, e o desfecho financeiro e societário da disputa agora depende do julgamento arbitral na bolsa brasileira.
A Comissão de Valores Mobiliários aprovou na terça-feira passada, por unanimidade, uma oferta pública de aquisição de ações da Oncoclínicas, a rede de tratamento de câncer avaliada inicialmente em R$ 6 bilhões. Os três membros do colegiado votaram a favor — Otto Lobo, presidente, e os diretores João Accioly e Igor Muniz — mas a decisão contradisse recomendações técnicas da própria autarquia, que havia se posicionado contra a oferta em duas ocasiões anteriores.
O caso emerge de uma disputa acionária complexa que envolve fundos ligados ao Goldman Sachs e a gestora americana Centaurus Capital. Tudo começou em 2015, quando o Goldman Sachs entrou no capital da Oncoclínicas através de um fundo chamado Josephina, criado especificamente para esse investimento. Ao longo dos anos, esse fundo se dividiu em três entidades. Em 2018, surgiu o Josephina 2, e com ele a Centaurus Capital passou a integrar o capital da companhia, mas de forma discreta, sem divulgação pública.
A situação se complicou quando o Goldman Sachs precisou reduzir sua participação antes de 2025, obrigado pela Volcker Rule, legislação americana que impede entidades bancárias de realizar operações de negociação por conta própria durante dez anos. A partir de novembro de 2024, foi criado o fundo Josephina 3 para concentrar a participação da Centaurus que estava no Josephina 2, diluindo assim a exposição do Goldman Sachs.
Em junho deste ano, Bruno Ferrari, fundador e ex-CEO da Oncoclínicas, apresentou à CVM o pedido de oferta pública. O argumento era que a Centaurus não constava entre os acionistas relevantes antes da abertura de capital da companhia na Bolsa, ocorrida em 2021. Isso significaria que a Centaurus teria de pagar pelas ações dos minoritários, elevando consideravelmente seu desembolso. Pessoas envolvidas no processo, porém, argumentam que a Centaurus já era investidora na empresa desde antes, mas não publicamente. Uma regra do mercado brasileiro permite que gestores de fundos não informem todos os parceiros de investimento, exigindo apenas que o gestor do fundo seja público — no caso, o Goldman Sachs.
A questão central é a cláusula de proteção no estatuto da Oncoclínicas que determina: qualquer investidor que atinja participação superior a 15% após o IPO deve fazer uma oferta pública para oferecer aos demais acionistas a opção de vender suas ações. Isso beneficiaria acionistas que desejam sair por um preço maior, como a Latache, sócia majoritária atual, e investidores minoritários. A Centaurus, contudo, argumenta que já estava presente desde 2018.
Antes mesmo do resultado da votação do colegiado, o fundo Josephina 3 entrou com um pedido de arbitragem contra a gestora Latache na câmara de arbitragem da B3, no último sábado. Em nota divulgada na noite da terça-feira, o Josephina 3 expressou discordância com a decisão da CVM, lembrando que a área técnica havia recomendado duas vezes o indeferimento da oferta pública. O fundo afirmou que o Tribunal Arbitral da Câmara de Arbitragem do Mercado é o órgão com jurisdição exclusiva para resolver essa disputa comercial entre sócios.
A Oncoclínicas, atualmente em recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de R$ 5,1 bilhões em dívidas, tem suas ações negociadas a R$ 1,67. A conta para a oferta pública, porém, estimaria o preço delas em seu auge, logo após o IPO, o que o mercado estima em torno de R$ 16, corrigidos pela inflação. A decisão da CVM, contudo, não trouxe definição sobre valores. O caso agora se desenrola na câmara de arbitragem da bolsa brasileira, onde a disputa entre os sócios será finalmente julgada.
Bemerkenswerte Zitate
O Tribunal Arbitral da Câmara de Arbitragem do Mercado é o órgão que detém jurisdição exclusiva para resolver esta disputa comercial entre sócios— Fundo Josephina 3