Pesquisa mapeia barreiras estruturais que determinam escolhas alimentares de famílias brasileiras

Crianças em famílias de baixa renda apresentam consumo inadequado de frutas e verduras frescas, enquanto ultraprocessados aparecem em todas as faixas de renda.
Comer bem não é vontade, é estrutura
O estudo mostra que renda, tempo e organização familiar determinam escolhas alimentares mais que conhecimento nutricional.
Mark

Por que essa pesquisa insiste que conhecimento não é suficiente? As pessoas não sabem que frutas são saudáveis?

Mimi

Sabem, sim. Mas saber não alimenta ninguém quando você tem vinte reais para a semana e precisa que aquele dinheiro renda saciedade para toda a família. O conhecimento é uma coisa; as condições materiais são outra completamente diferente.

Mark

Então o problema é só dinheiro?

Mimi

Não é só. É dinheiro, tempo, energia mental. Uma mãe que trabalha o dia inteiro, volta para casa e precisa cozinhar — ela não está apenas gastando dinheiro, está gastando tempo que não tem e força que já se foi. Ultraprocessado é rápido, pronto, previsível. Comida de verdade exige planejamento.

Mark

A rotulagem frontal não ajuda em nada?

Mimi

Ajuda, mas de forma limitada. As pessoas veem o aviso, reconhecem que aquilo tem muito açúcar. Mas aí veem "natural" ou "fit" na embalagem e aquilo muda a conversa na cabeça delas. É como se a promessa superasse o aviso.

Mark

E as crianças? Elas estão comendo pior que antes?

Mimi

Não sabemos se é pior que antes — esse estudo não compara com o passado. Mas sabemos que em famílias pobres, menos de metade das crianças come fruta fresca todo dia. E ultraprocessado aparece em todas as rendas, em todas as casas. A escola é o lugar onde isso poderia mudar, se a alimentação escolar funcionasse de verdade.

Mark

Então o que muda?

Mimi

Muda quando você torna comer bem tão fácil e acessível quanto comer mal. Quando a fruta custa menos que o biscoito. Quando cozinhar é viável, não um luxo. Quando a escola alimenta direito. Quando o trabalho permite tempo para preparar comida. Essas são as mudanças que importam.

  • Pesquisa com 140+ adultos em 5 capitais entre agosto e dezembro de 2025
  • 45% das crianças em lares com até um salário-mínimo consomem frutas frescas diariamente
  • Custo total inclui preço, tempo e esforço mental, concentrado principalmente em mulheres
  • Ultraprocessados aparecem em todas as faixas de renda

Custo total (preço, tempo, esforço mental) e percepção de baixa saciedade em alimentos saudáveis são principais barreiras para famílias brasileiras adotarem dietas mais nutritivas. Famílias de renda baixa priorizam preço e saciedade; apenas 45% de crianças em lares com até um salário-mínimo consomem frutas frescas diariamente.

Pesquisa do Pensi identifica que fatores estruturais como renda, tempo e organização familiar determinam escolhas alimentares mais que conhecimento nutricional, com impacto especial na alimentação infantil.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil (Pensi), vinculado à Fundação José Luiz Setúbal, mapeou o que realmente determina o que as famílias brasileiras colocam na mesa. O estudo não partiu de uma pergunta simples — saber sobre nutrição deveria ser suficiente para comer bem, certo? — mas de uma constatação incômoda: não é. Entre agosto e dezembro de 2025, pesquisadores reuniram mais de 140 adultos responsáveis pelas compras domésticas em cinco capitais — Belém, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre e São Paulo — divididos por faixa de renda. O trabalho combinou questionários sobre hábitos alimentares, simulações de compra com orçamentos limitados, exercícios de leitura de rótulos e testes de mensagens sobre comida saudável. Não era um estudo para gerar números que pudessem ser extrapolados para o país inteiro, mas para ouvir as pessoas de verdade, entender os obstáculos que enfrentam no dia a dia.

O que emergiu foram seis padrões claros. O primeiro deles toca em algo que raramente aparece nas campanhas de saúde: o custo total da alimentação não é apenas o preço na gôndola. É também o tempo gasto planejando, comprando e cozinhando — trabalho que recai desproporcionalmente sobre as mulheres — e o desgaste mental de tomar essas decisões repetidamente, dia após dia. O segundo padrão revelou que alimentos considerados saudáveis deixam as pessoas com fome mais rápido do que opções ultraprocessadas, tornando-os menos atraentes quando o orçamento é apertado. O terceiro mostrou como as famílias se viram: compram no desconto, congelam, porcionam, tentam esticar o dinheiro ao máximo.

Mas as diferenças por renda contam histórias distintas. Famílias com mais recursos leem rótulos com frequência, mas também usam mais serviços de entrega. Famílias de renda intermediária fazem substituições de produtos, tentando encontrar o meio termo. Famílias mais pobres fazem escolhas simples: preço e saciedade. Ponto. Quando se olha para as crianças, a disparidade fica ainda mais visível. Em domicílios com renda de até um salário-mínimo, apenas 45% das crianças comem frutas frescas todos os dias. Verduras e legumes chegam a apenas 27%. Guloseimas e ultraprocessados, porém, aparecem em todas as faixas de renda — nenhuma família está imune.

Os pesquisadores também observaram como as pessoas lidam com a rotulagem frontal de advertência, aqueles símbolos que indicam alimentos com muito sódio, açúcar ou gordura. As pessoas reconhecem os avisos, mas eles têm pouca força quando a embalagem estampa palavras como "fit" ou "natural". É como se a promessa de algo bom superasse o aviso de algo ruim. A alimentação escolar emergiu como um fator crucial: quando funciona bem, compensa as lacunas da dieta em casa; quando é insuficiente, reforça o consumo de ultraprocessados entre as crianças.

O estudo conclui algo que deveria ser óbvio, mas raramente é tratado como prioridade nas políticas públicas: comer bem não é uma questão de vontade ou conhecimento. É uma questão de estrutura. Renda, tempo disponível, organização da rotina familiar — essas são as forças que realmente moldam o que vai para o prato. Os pesquisadores propõem seis caminhos: reduzir o custo social da alimentação através de agricultura familiar e feiras; associar mensagens de saúde a sabor e saciedade; fortalecer a alimentação escolar e regulamentar cantinas; melhorar e simplificar a rotulagem nutricional; apoiar quem cozinha, inclusive nos ambientes de trabalho; e integrar políticas de saúde, produção local e sustentabilidade. O que fica claro é que políticas públicas precisam atuar sobre o ambiente alimentar — o custo, o acesso, a oferta — e não apenas esperar que informação mude comportamentos. A mudança virá quando as condições estruturais permitirem que comer bem seja tão fácil quanto comer mal.

A alimentação saudável não depende apenas de decisões individuais informadas, mas de condições estruturais como renda, tempo disponível e organização da rotina familiar
— Pesquisadores do Pensi
Políticas voltadas à promoção da alimentação saudável precisam atuar sobre o ambiente alimentar — custo, tempo, acesso e oferta — e não apenas sobre a informação disponível aos consumidores
— Conclusão do estudo
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