A festa anual em Romaria atrai centenas de milhares de visitantes, gerando impacto econômico significativo mas também desafios estruturais e sociais para a pequena cidade. O estudo articula teorias de administração para identificar deficiências em infraestrutura, saneamento, participação comunitária e risco à identidade cultural da celebração religiosa.
Pesquisa de doutorado propõe modelo sustentável para gestão da Festa de Romaria
A comercialização excessiva pode apagar as características espirituais
Por que uma festa religiosa precisa de um modelo de sustentabilidade tão específico? Não bastaria aplicar as teorias de gestão de eventos que já existem?
Porque as teorias convencionais tratam a festa como um produto a ser consumido. Elas medem sucesso em números: quantos visitantes, quanto dinheiro circulou, quantos hotéis lotaram. Mas em Romaria, a festa não é só um evento econômico — é um ato de fé que existe há cento e cinquenta e seis anos. Se você aplica apenas as ferramentas de gestão turística, você mata aquilo que torna a festa viva.
E essa quarta dimensão, a sustentabilidade simbólico-religiosa, como funciona na prática?
É reconhecer que existem valores que não aparecem em uma planilha. A autenticidade dos rituais, o significado espiritual das caminhadas de penitência, a forma como a comunidade se relaciona com o sagrado. Se a comercialização cresce demais, essas coisas desaparecem. A pesquisa quer medir isso, entender quando o crescimento começa a ameaçar a identidade da festa.
Você mencionou os stakeholders invisíveis — as pessoas com hanseníase que acampam nos arredores. Por que eles foram esquecidos até agora?
Porque ninguém os perguntou. Os gestores ouvem os comerciantes, a Igreja, os romeiros que vêm de longe. Mas quem está à margem — literalmente acampado fora da cidade — não tem voz nas decisões. Essas pessoas têm suas próprias práticas religiosas, suas necessidades, sua relação com a festa. Incluí-los não é caridade, é reconhecer que eles também são parte do fenômeno.
O que você espera que mude quando essa pesquisa terminar?
Que Romaria tenha ferramentas para crescer sem se destruir. Um aplicativo que ajude a planejar, indicadores que mostrem se a festa está saudável ou se está perdendo sua essência. Mas mais que isso: que gestores públicos e líderes religiosos entendam que governança colaborativa não é opcional. Você precisa sentar junto — Igreja, Estado, comunidade, comerciantes — e decidir juntos o que a festa será nos próximos cento e cinquenta e seis anos.
Il Polso
- Romaria tem pouco mais de 3 mil habitantes e recebe centenas de milhares de visitantes em agosto
- A Festa de Nossa Senhora da Abadia ocorre há 156 anos
- Pesquisa inclui 30 entrevistas em profundidade e 500 questionários
- Modelo propõe quatro pilares de sustentabilidade: econômica, social, ambiental e simbólico-religiosa
A festa anual em Romaria atrai centenas de milhares de visitantes, gerando impacto econômico significativo mas também desafios estruturais e sociais para a pequena cidade. O estudo articula teorias de administração para identificar deficiências em infraestrutura, saneamento, participação comunitária e risco à identidade cultural da celebração religiosa.
Pesquisadora da UFU desenvolve modelo de governança colaborativa para a Festa de Nossa Senhora da Abadia em Romaria, propondo quatro pilares de sustentabilidade incluindo dimensão simbólico-religiosa.
Cada agosto, uma pequena cidade no interior de Minas Gerais vira outra. Romaria, com pouco mais de três mil habitantes, recebe centenas de milhares de pessoas vindas de várias partes do Brasil para a Festa de Nossa Senhora da Abadia. O fenômeno é tão significativo que chamou a atenção da ciência. Na Universidade Federal de Uberlândia, a pesquisadora Mayara Abadia Delfino dos Anjos — nascida e moradora de Romaria — transformou essa transformação anual em tema de tese de doutorado.
Anjos estuda no Programa de Pós-Graduação em Administração da Faculdade de Gestão e Negócios, sob orientação do professor José Eduardo Ferreira Lopes. Seu trabalho propõe um modelo de governança colaborativa para festas religiosas de grande porte, mas com uma inovação: além das três dimensões tradicionais de sustentabilidade — econômica, social e ambiental — ela acrescenta uma quarta: a sustentabilidade simbólico-religiosa. A pesquisa busca ouvir todos os atores envolvidos no evento: romeiros, moradores, comerciantes, gestores públicos e até grupos historicamente invisibilizados, como pessoas em situação de rua e o acampamento de pessoas com hanseníase que se instala nos arredores da cidade.
Para isso, Anjos está conduzindo trinta entrevistas em profundidade e aplicando quinhentos questionários. O trabalho já foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFU, e qualquer pessoa que tenha participado da festa em qualquer ano pode responder ao formulário online até quinze de agosto. Os dados coletados revelarão padrões de percepção entre os diferentes grupos que vivem ou visitam Romaria durante o evento.
A festa em louvor a Nossa Senhora da Abadia ocorre há cento e cinquenta e seis anos. É reconhecida como patrimônio cultural imaterial pelo município e tem relevante interesse cultural para o Estado de Minas Gerais, conforme Lei Estadual nº 22.898/2018. Durante todo o mês que antecede a procissão e coroação de Nossa Senhora, em quinze de agosto, celebrações acontecem no Santuário Basílica, na praça e em outros espaços. Milhares de romeiros caminham a pé desde cidades como Uberlândia e Uberaba até Romaria, em sinal de penitência e pagamento de promessas. Centenas de barraquinhas comercializam itens religiosos, alimentos, roupas, eletrônicos e artesanatos. Não são apenas a Igreja e moradores que lucram: comerciantes de outros estados vão para Romaria na época da festa. Os moradores alugam calçadas, casas e até banheiros para os visitantes. A renda arrecadada durante esse mês movimenta a economia do município no restante do ano.
Mas o crescimento massivo traz problemas estruturais que demandam soluções inovadoras. A infraestrutura urbana de Romaria não comporta o volume de visitantes. Não há banheiros públicos suficientes — moradores precisam alugar os seus próprios. O saneamento básico é inadequado. As rodovias de acesso, como a BR-365 e a MG-190, sofrem impacto significativo com o fluxo intenso de romeiros a pé e de veículos. Após o encerramento da festa, grandes volumes de lixo espalham-se pelas ruas, superando a capacidade operacional de limpeza do município. Há também um desequilíbrio financeiro: o gasto da Prefeitura para realizar o evento é maior do que o arrecadado com as taxas dos comerciantes ambulantes.
Além dos desafios práticos, existe um paradoxo mais profundo. O crescimento da festa ameaça sua própria essência. A pressão turística e a comercialização excessiva podem apagar as características espirituais e culturais, comprometendo a autenticidade dos rituais seculares. Anjos identifica que os modelos comuns de gestão turística falham porque omitem os valores sagrados e as dinâmicas comunitárias específicas do contexto religioso. Falta governança colaborativa — espaços formais onde a Igreja, o Estado e a comunidade tomem decisões juntas. Pequenos comerciantes e moradores têm pouca participação no planejamento. Os stakeholders invisíveis — pessoas doentes, em situação de rua — sequer são ouvidos.
Em resposta a esses problemas, Anjos propõe a criação de um produto técnico: um site ou aplicativo que ofereça ferramentas práticas de governança e indicadores de sustentabilidade. Esse instrumento auxiliaria gestores públicos e líderes religiosos na tomada de decisão, equilibrando o crescimento econômico com a preservação da identidade cultural e espiritual da festa. Os resultados da pesquisa serão divulgados na tese, a ser defendida em dois mil e vinte e sete, e também no portal Comunica UFU. O trabalho promete subsidiar não apenas Romaria, mas qualquer gestor público ou líder religioso que enfrente o desafio de manter viva uma celebração de grande porte sem perder sua alma.
Citazioni salienti
Os modelos comuns de gestão turística falham por omitirem os valores sagrados e as dinâmicas comunitárias específicas do contexto religioso— Mayara Abadia Delfino dos Anjos, pesquisadora