Pescadores denunciam prejuízos e poluição após dragagem do Porto do Recife; MPF investiga

Aproximadamente 1,2 mil pescadores profissionais têm sua renda comprometida pela redução significativa na captura de peixes e crustáceos causada pelas obras de dragagem.
Os covos voltam cheios de lixo em vez de crustáceos
Sandra Lima descreve como a dragagem afeta a captura diária dos pescadores da Bacia do Pina.
Mark

O que exatamente os pescadores estão dizendo que mudou depois que a dragagem começou?

Mimi

Eles relatam mais lixo e plástico no mar, e uma queda significativa na captura. Sandra Lima deu um exemplo: pescadores que pegavam 30 quilos de lagosta agora pegam dez, porque os covos voltam cheios de lixo.

Luke

Mas isso é correlação, não causalidade confirmada. O Porto diz que é turbidez sazonal. Temos dados que isolem o efeito da dragagem?

Mimi

Não ainda. É por isso que o MPF está investigando. Eles querem os relatórios de acompanhamento para verificar se as obras estão dentro das normas.

Mark

E quanto ao material que está sendo despejado? Onde exatamente vai?

Mimi

O Porto diz que vai para áreas autorizadas a seis milhas de distância, com mais de sete quilômetros quadrados. Mas os pescadores dizem que esse material está chegando nas áreas onde eles pescam.

Luke

Seis milhas é uma distância considerável. Como o material chegaria lá? O professor Banja mencionou o vento como fator.

Mimi

Sim. Ele explicou que a dragagem pode trazer plástico de volta à coluna de água, e o vento pode transportá-lo. Não é que a dragagem crie o lixo, mas ela o mobiliza.

Mark

Então qual é o próximo passo? Como o MPF vai resolver isso?

Mimi

Eles estão em diálogo com as três partes — pescadores, Porto e empresa de dragagem. Se chegarem a um acordo, pode haver compensação financeira. Se não, a Justiça decide.

Luke

E quanto tempo isso leva? Os pescadores estão perdendo renda agora.

Mimi

Não há prazo definido. O procurador disse que o objetivo é resolver por diálogo, mas a via judicial está aberta se necessário.

  • Pescadores da Colônia Z-1 do Pina relatam queda de até 67% na captura de peixes e crustáceos desde o início da dragagem, com armadilhas retornando repletas de lixo plástico em vez de frutos do mar.
  • O Porto do Recife rejeita qualquer responsabilidade, atribuindo a queda na pesca à turbidez sazonal e afirmando que os sedimentos são depositados em áreas autorizadas, a seis milhas da costa.
  • Um pesquisador da UFPE oferece uma explicação intermediária: a dragagem não cria o lixo, mas pode remobilizar material plástico acumulado no fundo, espalhando-o por outras áreas conforme o vento.
  • O Ministério Público Federal abriu investigação, solicitou documentos ao porto e estabeleceu um canal de diálogo entre pescadores, administração portuária e empresa terceirizada.
  • A compensação financeira aos pescadores está sendo estudada pelo MPF, com a possibilidade de acionar a Justiça caso as negociações não avancem — nenhum acordo foi firmado até o momento.

Na Bacia do Pina, onde rios e oceano se encontram há séculos, cerca de 1,2 mil pescadores profissionais veem seu sustento ameaçado desde o início das obras de dragagem do Porto do Recife, em junho de 2026. O conflito entre o desenvolvimento portuário — um investimento de 92 milhões de reais para modernizar a infraestrutura de exportação — e a sobrevivência de uma comunidade pesqueira revela a tensão permanente entre progresso econômico e justiça ambiental. O Ministério Público Federal investiga os fatos e busca, pelo diálogo, uma resposta que reconheça o que os números já mostram: covos que voltam cheios de lixo onde antes havia lagosta.

A Bacia do Pina, estuário onde quatro rios encontram o Atlântico entre a Zona Sul e o Centro do Recife, é o território de trabalho de cerca de 1,2 mil pescadores profissionais da Colônia Z-1. Desde o final de junho de 2026, quando começaram as obras de dragagem do Porto do Recife, esses trabalhadores relatam uma queda acentuada na captura de peixes e crustáceos — e apontam o aumento visível de lixo e plástico no mar como sinal do problema.

Sandra Lima, presidente da colônia, descreve o impacto de forma concreta: pescadores que antes traziam 30 quilos de lagosta agora retornam com dez, porque os covos chegam cheios de resíduos. O Porto do Recife, que investiu 92 milhões de reais no projeto para aprofundar seus canais de 10 para 12 metros, nega qualquer relação entre a dragagem e os danos relatados. O coordenador de Projetos Alexandre Costa atribui a queda na pesca à turbidez sazonal da água e garante que os sedimentos são depositados apenas em áreas autorizadas, a seis milhas da costa.

O professor Múcio Banja, da UFPE, oferece uma leitura mais matizada: os rios são os principais vetores de lixo até a região costeira, mas a dragagem pode remobilizar material plástico que estava depositado no fundo, devolvendo-o à coluna d'água e permitindo que o vento o transporte para outras áreas. O processo não gera o lixo — mas o move.

Após receber a denúncia dos pescadores, o Ministério Público Federal abriu um procedimento investigativo e solicitou documentos ao porto, incluindo contratos e relatórios de monitoramento. O procurador Antônio Nilo Rayol construiu um canal de diálogo entre as partes e estuda a possibilidade de pedir judicialmente uma compensação financeira aos pescadores, caso os danos sejam comprovados. Nenhum acordo foi fechado ainda. Se o diálogo não avançar, a Justiça poderá ser o próximo passo.

A Bacia do Pina, onde os rios Tejipió, Jordão, Jiquiá e um braço do Capibaribe encontram o Oceano Atlântico, é um estuário que funciona como espelho d'água entre a Zona Sul e o Centro do Recife. É também o lugar onde cerca de 1,2 mil pescadores profissionais da Colônia Z-1 do Pina tiram seu sustento. Desde o final de junho, quando começaram as obras de dragagem do Porto do Recife, esses trabalhadores relatam uma queda acentuada na quantidade de peixes e crustáceos capturados.

Os pescadores denunciam que o aumento de lixo e plástico no mar coincide com o início das operações de dragagem. Segundo Sandra Lima, presidente da colônia, o material retirado do fundo do mar está sendo transportado para áreas de pesca em alto-mar, a aproximadamente seis milhas da costa, prejudicando significativamente a captura. Ela oferece um exemplo concreto: pescadores que costumavam capturar 30 quilos de lagosta agora conseguem apenas dez, porque os covos — armadilhas para peixes — retornam cheios de lixo em vez de crustáceos. O impacto é direto e mensurável na renda das famílias.

O Porto do Recife investiu 92 milhões de reais no projeto, que visa aumentar a profundidade dos canais interno e externo de 10 para 12 metros, permitindo a atracação de navios maiores e ampliando a capacidade de exportação. A administração portuária nega qualquer relação entre a dragagem e os problemas relatados pelos pescadores. Segundo Alexandre Costa, coordenador de Projetos do terminal, as embarcações são monitoradas e só despejam sedimentos em locais autorizados pela Agência Estadual de Meio Ambiente e pela Capitania dos Portos — áreas situadas a seis milhas de distância, com mais de sete quilômetros quadrados. Costa atribui a queda na pesca à turbidez sazonal da água nesta época do ano, não às operações portuárias.

Múcio Banja, professor da Universidade Federal de Pernambuco que estuda há 20 anos os impactos ambientais no litoral pernambucano, oferece uma perspectiva intermediária. Ele reconhece que os rios são os principais responsáveis pelo transporte de resíduos até a região costeira — as pessoas depositam lixo ao longo dos cursos d'água, e esse material acaba se depositando no fundo de áreas portuárias e estuarinas. Mas a dragagem, explica, pode "redisponibilizar" material plástico que estava no fundo, trazendo-o de volta à coluna de água, onde pode ser transportado para outras áreas dependendo da direção do vento. O processo não cria o lixo, mas o mobiliza.

O Ministério Público Federal abriu um procedimento investigativo após receber a denúncia dos pescadores. O órgão solicitou documentos ao Porto do Recife, incluindo o contrato com a empresa responsável pela dragagem e relatórios de acompanhamento dos serviços, para verificar se as obras estão sendo realizadas conforme as normas ambientais. O procurador Antônio Nilo Rayol iniciou um canal de diálogo com os pescadores, depois ampliou as conversas para incluir representantes do Porto e da empresa terceirizada responsável pela dragagem, buscando harmonizar interesses que estão em conflito.

O MPF estuda a possibilidade de solicitar judicialmente uma compensação financeira para os pescadores, caso seja comprovado que a atividade foi prejudicada pela dragagem. A lógica é que os danos econômicos — o período em que o pescador deixou de exercer sua profissão e de obter sua renda — constituem um direito indenizável, independentemente de a situação ter passado. Uma das possibilidades em discussão é o ressarcimento através de um seguro. Rayol deixa claro que nenhum acordo foi firmado ainda. Se as negociações não avançarem, os pagamentos poderão ser determinados pela Justiça. Por enquanto, o objetivo do Ministério Público é resolver a questão através do diálogo entre as partes — mas a porta para a via judicial permanece aberta.

A dragagem está afetando 100% os pescadores tanto do estuário como de alto mar e costeiro, porque a draga está levando o lixo para fora, a mais ou menos seis milhas, e está vindo dentro dos covos
— Sandra Lima, presidente da Colônia de Pescadores Z-1 do Pina
Com atividades de dragagem, a gente vai terminar 'redisponibilizando' muito material plástico para a camada de água e o transporte desse material pode ser trazido de volta à costa a partir da direção do vento
— Múcio Banja, professor da Universidade Federal de Pernambuco
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