Cabrita Reis celebrou entrada na sétima década cercado pela montagem de sua mostra 'Com o Coração Livre de Cuidados', que inclui obra monumental de alumínio instalada até madrugada. Série 'Ecce Homo' reinterpreta passagem bíblica clássica da arte europeia, com artista pintando a si mesmo como Cristo em diálogo irreverente com mestres como Dürer e Caravaggio.
Pedro Cabrita Reis dialoga com mestres ocidentais em mostra no Maat de Lisboa
Estás livre do problema da fé
Por que você acha que ele escolheu celebrar o aniversário dentro do museu, durante a montagem, em vez de fazer uma festa?
Acho que para Cabrita Reis a obra é a celebração. Estar cercado pelos operários, vendo a "3=1" sendo erguida até as três da manhã — isso é mais verdadeiro para ele do que qualquer coisa convencional. A exposição é o evento.
Mas a gente não sabe se foi escolha dele ou se apenas coincidiu. O texto diz que ele "passou a virada" lá, mas não deixa claro se foi planejado assim.
Verdade. O que sabemos é que aconteceu, e que ele estava lá com bolo enquanto os guindastes trabalhavam.
E essa série "Ridi Pagliaccio" — ele está rindo de si mesmo, mas de forma bem infantil, com pompons e chapéus pontiagudos. Isso é realmente liberdade ou é uma pose?
Ele diz explicitamente que rir de si mesmo é uma habilidade que liberta. Não é pose — é prática. É o oposto de levar a si mesmo a sério.
Mas "Ecce Homo" é diferente. Lá ele se pinta como Cristo. Isso não é rir de si mesmo — é fazer uma afirmação bastante séria sobre sua própria importância.
Ou é o mesmo gesto levado a um extremo. Se você pode rir de si mesmo como palhaço, por que não como Cristo? É a mesma liberdade, só que com mais peso.
Ele diz que um Caravaggio agora é "um bocado de madeira podre". Isso soa como desrespeito aos mestres, não?
Ele está sendo literal — o material físico se degrada. Mas a frase é provocadora. Ele está dizendo que não tem medo de tocar nesses artistas porque eles não são sagrados para ele.
É uma forma de igualar o jogo. Se Caravaggio é só matéria, então Cabrita Reis também é só matéria. Ninguém tem privilégio.
E essa ideia de que criar arte é um ato de fé, mas sem precisar acreditar em nada — como isso funciona?
Ele está separando fé religiosa de fé na própria força criativa. Você não precisa de Deus para ter fé no que você faz.
Mas ele também diz que o catolicismo é "parte incontornável do cânone". Então ele está imerso nisso, mesmo que não seja devoto. Não é tão simples quanto parece.
Le Pouls
- Pedro Cabrita Reis completou 70 anos na noite de inauguração de sua exposição no Maat de Lisboa
- Série "Ecce Homo" reinterpreta a passagem bíblica clássica, com o artista pintando a si mesmo como Cristo
- Nascido em Lisboa em 1956, representou Portugal na Bienal de Veneza em 2003
- Obra monumental "3=1" foi montada até as três da manhã com auxílio de guindastes
Cabrita Reis celebrou entrada na sétima década cercado pela montagem de sua mostra 'Com o Coração Livre de Cuidados', que inclui obra monumental de alumínio instalada até madrugada. Série 'Ecce Homo' reinterpreta passagem bíblica clássica da arte europeia, com artista pintando a si mesmo como Cristo em diálogo irreverente com mestres como Dürer e Caravaggio.
O artista português Pedro Cabrita Reis inaugurou exposição no Maat de Lisboa na noite de seu aniversário de 70 anos, dialogando com clássicos ocidentais através de autorretratos e reinterpretações de obras canônicas.
Pedro Cabrita Reis completou 70 anos dentro do Maat — Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa — cercado por operários que ainda montavam sua nova exposição. A data coincidiu com a inauguração de "Com o Coração Livre de Cuidados", e o artista português passou a virada da madrugada vendo guindastes erguendo "3=1", uma obra monumental feita de barras de alumínio empilhadas em duas estruturas que quase se tocam num ângulo reto, com apenas uma pintura branca na superfície externa. A montagem se estendeu até as três da manhã — e houve bolo para marcar o momento.
A exposição ocupa a sala principal do museu, um espaço oval com uma rampa que desce encaracolada pelas paredes, criando níveis e mudanças de perspectiva. No início desse percurso está "Ridi Pagliaccio", uma série de colagens de 2015 que funcionam como autorretratos do próprio Cabrita Reis. Ele mistura fotografias suas com rabiscos infantis — linhas tortas que desenham estampas quadriculadas em roupas imaginadas, chapéus pontiagudos sobre sua cabeça careca, pompons nas pontas dos sapatos. O título vem da ópera de 1892, aquela que trata do palhaço que ri por fora enquanto sofre por dentro. Para Cabrita Reis, rir de si mesmo é uma habilidade fundamental que artistas devem cultivar. "Quando temos a possibilidade de rir sobre nós próprios, temos uma liberdade absoluta", diz ele.
Mas é em "Ecce Homo", série do ano anterior, que o diálogo com o cânone ocidental se torna mais direto e provocador. As telas explodem em cores fortes — vermelhos abafados, amarelo-mostarda com tons de ocre, verdes profundos, laranja vivo misturado a chumbo. Sem o título, as figuras seriam quase abstratas, vagas. Mas "Ecce Homo" evoca aquele momento bíblico em que Pôncio Pilatos apresenta Jesus coroado de espinhos a uma multidão furiosa. A cena é clássica na história da arte europeia: Albrecht Dürer a pintou no século 15, Caravaggio no século 17, e Elías García Martínez criou um afresco que ganhou notoriedade em 2012 por causa de uma restauração desastrosa. A forma que emerge das telas de Cabrita Reis é reconhecível — um homem careca, de barriga proeminente. Ele próprio. Como Dürer antes dele, Cabrita Reis se pintou como Cristo.
Nascido em Lisboa em 1956, Cabrita Reis se formou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e se tornou um dos principais artistas contemporâneos portugueses. Sua trajetória começou cedo: primeira exposição individual aos 25 anos, em 1981. Desde então, participou de duas edições da Bienal de São Paulo nos anos 1990 e representou Portugal na Bienal de Veneza em 2003. Sua obra é marcada pelo uso de materiais cotidianos ligados à construção civil — frequentemente materiais de descarte. Os títulos sugerem que a religião perpassa tudo, mas Cabrita Reis nega ser devoto. O catolicismo, para ele, é simplesmente parte incontornável do cânone cultural que herdou.
Sobre sua relação com os mestres ocidentais, ele é claro e sem reverência: "Não quero saber por quem, quando e como são feitos [esses quadros]. São nada mais do que matéria para mim, tal como tijolos, pedras ou lixo. Um Caravaggio é agora um bocado de madeira podre. Um Velázquez é agora um tijolo". Essa atitude — de tocar, mexer, transformar — nasce do que ele chama de "ausência do medo ou receio em mexer e tocar nesses artistas". Ele vê a si mesmo como parte de um "melting pot em permanente transformação" que enriquece sua memória de um tempo que não viveu, mas que conhece culturalmente.
Para Cabrita Reis, a criação artística é em si um grande ato de fé — não fé religiosa, mas fé na força daquilo que se faz. "É a função da absoluta inteligência e da revelação da força daquilo que se faz. É uma coisa que tu trazes dentro de ti e se revela naquilo que fazes. Não tens que acreditar em nada para fazer o que fazes. Estás livre do problema da fé." Essa liberdade — de rir de si mesmo, de tocar nos mestres, de transformar materiais descartados em arte — é o que move sua prática. A exposição no Maat, inaugurada na noite de seu aniversário, é uma declaração dessa liberdade em ação.
Citations marquantes
Quando temos a possibilidade de rir sobre nós próprios, temos uma liberdade absoluta— Pedro Cabrita Reis
Um Caravaggio é agora um bocado de madeira podre. Um Velázquez é agora um tijolo— Pedro Cabrita Reis