Às vésperas de um encontro com Donald Trump, Lula enfrentava uma tensão silenciosa que transcendia a agenda econômica: a pressão americana para que o Brasil classificasse o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo resistia, invocando soberania e diferenças jurídicas, mas sabia que a recusa carregava um custo político interno — Flávio Bolsonaro já a transformara em bandeira eleitoral. Era o eterno dilema das nações que buscam parceria sem abrir mão de autonomia, num mundo em que as categorias do mais forte tendem a redefinir a realidade do mais fraco.
PCC e CV: o risco eleitoral que Lula enfrenta em encontro com Trump
Terrorismo virou uma ferramenta de ingerência global
Por que o Brasil se recusa tão categoricamente a classificar essas facções como terroristas? Parece uma concessão simples para melhorar a relação com os Estados Unidos.
Porque muda fundamentalmente o que você pode fazer contra eles. Terrorismo abre a porta para intervenção americana direta em solo brasileiro — bombardeios, invasões, operações militares — sem processo legal. O governo viu isso acontecer na Venezuela.
Mas a Venezuela é um caso extremo. Há precedentes de designação terrorista que não levaram a invasão?
Claro, muitos. Mas o ponto é que a designação dá aos EUA a ferramenta legal para intervir se quiserem. E com Trump, a incerteza é maior.
E quanto ao argumento de Bolsonaro? Ele diz que isso melhoraria a segurança pública brasileira.
Ele está usando a questão eleitoralmente. A segurança pública melhoraria com cooperação, investigações conjuntas, compartilhamento de inteligência — tudo que o governo já está oferecendo. A designação terrorista não resolve crime organizado, apenas muda a categoria legal.
Mas quanto à afirmação de que a cooperação é "antiga e muito boa"? Isso vem de uma fonte do Itamaraty, não de confirmação independente. Como sabemos que é realmente tão sólida?
Boa pergunta. O que sabemos é que em abril os dois governos assinaram um acordo específico sobre tráfico de drogas e armas. Isso é concreto. Mas se a cooperação fosse tão forte, por que os EUA ainda estão pressionando pela designação?
Então o governo está tentando oferecer cooperação para evitar a designação?
Exatamente. É uma estratégia de substituição — "não precisam classificar como terrorista, vamos trabalhar juntos como crime organizado". O problema é que Bolsonaro está dizendo que isso é fraqueza.
Uma coisa que não fica clara: qual é realmente o poder de Bolsonaro nessa conversa? Ele é senador, não presidente. Por que Trump ouviria mais ele do que Lula?
Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado, é quem tem o canal direto com Trump. Ele mora nos EUA desde 2025 e tem interlocução com membros do governo Trump. Flávio está usando a questão para se posicionar como alternativa mais forte.
E as implicações econômicas que Casarões menciona? Empresas sendo proibidas de operar nos EUA?
Se uma empresa brasileira tiver qualquer ligação indireta com PCC ou CV — e em um país onde essas facções operam em muitos setores — poderia ser barrada. É um risco real para o comércio bilateral.
Mas isso é especulação sobre o que poderia acontecer. Há exemplos de empresas brasileiras sendo barradas por essa razão?
Não há exemplos mencionados na reportagem. É um cenário que especialistas apontam como possível, não confirmado.
Il Polso
- Washington pressionava Brasília a declarar PCC e CV como grupos terroristas, ameaçando transformar uma questão de segurança pública em crise diplomática às vésperas da reunião Lula-Trump.
- O Palácio do Planalto temia que a classificação abrisse precedente para interferência americana em solo brasileiro — o exemplo da Venezuela, invadida após acusações não comprovadas, pairava como sombra sobre as negociações.
- Flávio Bolsonaro aproveitou a resistência do governo para acusá-lo de cumplicidade com o crime organizado, prometendo em palanques que, se eleito, assinaria a classificação terrorista imediatamente.
- Analistas alertavam que o tema poderia contaminar o eleitor de centro ainda indeciso, mesmo sem aparecer diretamente no debate eleitoral — chegaria 'por vias tortas', nas palavras do professor Guilherme Casarões.
- A estratégia do governo era oferecer cooperação robusta — acordos sobre tráfico, fluxo financeiro e crime transnacional — como substituto à designação terrorista, tentando satisfazer Washington sem ceder soberania.
- A reunião de quinta-feira tornava-se, assim, um teste de equilíbrio: manter boa imagem junto aos Estados Unidos sem entregar a Bolsonaro a narrativa de fraqueza que ele tanto buscava.
Às vésperas de um encontro com Donald Trump, Lula enfrentava uma tensão silenciosa que transcendia a agenda econômica: a pressão americana para que o Brasil classificasse o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo resistia, invocando soberania e diferenças jurídicas, mas sabia que a recusa carregava um custo político interno — Flávio Bolsonaro já a transformara em bandeira eleitoral. Era o eterno dilema das nações que buscam parceria sem abrir mão de autonomia, num mundo em que as categorias do mais forte tendem a redefinir a realidade do mais fraco.
Lula chegava ao encontro com Trump carregando mais do que uma pauta econômica. Por trás das discussões sobre Pix, minerais críticos e tarifas, havia uma questão que ameaçava envenenar toda a viagem: a pressão americana para que o Brasil classificasse o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O Palácio do Planalto se recusava — e a recusa tinha camadas.
A primeira era jurídica. A Lei Antiterrorismo brasileira define o crime pelo móvel político ou ideológico, não econômico. O governo argumentava que as facções operam por lucro, não por ideologia. A segunda camada era geopolítica: Brasília observava o que acontecera com a Venezuela após acusações americanas sobre tráfico de drogas — bombardeios, invasão, prisão do presidente. Classificar facções como terroristas poderia abrir a mesma porta em território nacional.
Mas havia ainda uma terceira camada, talvez a mais urgente: a eleitoral. Flávio Bolsonaro havia transformado a resistência do governo em bandeira de campanha, acusando Lula de fraqueza diante do crime organizado. Em evento na Paraíba, prometeu que, se eleito, assinaria a classificação terrorista sem hesitar. O professor Guilherme Casarões, da Florida International University, alertou que o tema poderia atingir o eleitor de centro por 'vias tortas', mesmo sem dominar o debate público.
Para contornar o impasse, o governo apostava na cooperação. Em abril, Brasil e Estados Unidos anunciaram acordo entre a Receita Federal e autoridades americanas de fronteira para combater tráfico de drogas e armas. Alckmin confirmou que Lula levaria a Washington uma proposta ampliada de cooperação contra o crime transnacional — controle financeiro, investigações conjuntas, tudo que não implicasse a designação terrorista.
Uma fonte do Itamaraty minimizava os riscos, chamando a pressão de 'balão de ensaio' inflado pela mesma rede que havia tentado, sem sucesso, usar tarifas comerciais para pressionar o Brasil sobre a condenação de Jair Bolsonaro pelo STF. Mas o dilema permanecia real: como manter uma relação sólida com Washington sem entregar a Bolsonaro a narrativa de cumplicidade com criminosos que ele tanto buscava construir.
Luiz Inácio Lula da Silva se preparava para um encontro com Donald Trump na quinta-feira, 7 de abril, com esperanças de demonstrar ao mundo que mantinha uma relação sólida com o presidente americano. Para seus aliados, a reunião era uma chance de neutralizar a narrativa de que apenas Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro, possuía conexões genuínas com a Casa Branca. O governo brasileiro planejava discutir temas econômicos — Pix, minerais críticos, tarifas comerciais — e cooperações no combate ao crime organizado. Mas por trás dessa agenda diplomática convencional pairava uma questão que ameaçava minar a viagem inteira.
Os Estados Unidos pressionavam o Brasil para classificar duas das maiores facções criminosas do país — o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — como grupos terroristas. O Palácio do Planalto se recusava. A resistência não era apenas uma questão de princípio jurídico ou soberania nacional, embora fossem ambos argumentos reais. Era também, e talvez principalmente, um problema eleitoral. Flávio Bolsonaro havia abraçado a posição americana como bandeira de campanha, acusando o governo Lula de fraqueza diante do crime organizado. Em um evento de pré-campanha na Paraíba em 22 de abril, ele declarou: "Se eu fosse o presidente da República, facções já teriam sido declaradas terroristas e o Brasil estaria assinando o acordo de cooperação para prender esses marginais e libertar o povo". A mensagem era clara — Lula era mole, Bolsonaro seria duro.
O temor do governo tinha fundamento histórico. Brasília observava o que havia acontecido com a Venezuela. Quando os Estados Unidos acusaram embarcações venezuelanas de transportar drogas — acusação nunca comprovada — bombardeou-as. Depois vieram mais ataques. Em janeiro, o governo americano invadiu a Venezuela e prendeu o presidente Nicolás Maduro. Para o Planalto, classificar facções brasileiras como terroristas abriria a porta para interferências semelhantes em território nacional. Guilherme Casarões, professor de relações internacionais na Florida International University, confirmou à BBC News Brasil que este era o ponto de maior vulnerabilidade para Lula na relação com Washington. O risco, explicou Casarões, era que a campanha de Bolsonaro usasse a resistência brasileira para acusar a gestão petista de cumplicidade com criminosos. "Mesmo que a relação com os Estados Unidos não esteja diretamente implicada no debate eleitoral, ela vai chegar por vias tortas, e isso pode ter um efeito na percepção do eleitor mais ao centro, que ainda não se decidiu por Lula ou Flávio Bolsonaro", disse o professor.
O governo brasileiro tentava contornar o problema através da cooperação. Em dezembro, Lula havia abordado o tema em uma ligação oficial com Trump. Em 10 de abril, os dois governos anunciaram um acordo entre a Receita Federal brasileira e as autoridades de proteção à fronteira americana para intensificar o combate ao tráfico de drogas e armas. O vice-presidente Geraldo Alckmin reafirmou o compromisso em entrevista à Globonews na terça-feira, 5 de maio, dizendo que Lula levaria novamente a proposta de um acordo para combater organizações criminosas transnacionais. O foco era o controle do fluxo financeiro, investigações conjuntas, tudo que envolvesse crime transnacional — combustível, droga, arma. A estratégia era clara: oferecer cooperação robusta para evitar a designação terrorista.
Mas por que o Brasil se recusava tão firmemente? A Lei Antiterrorismo brasileira (Lei 13.260/2016) define terrorismo como atos cometidos com a finalidade de provocar terror social, baseados em xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião. O governo argumentava que PCC e CV operavam por motivações econômicas, não políticas. Mário Sarrubo, então secretário nacional de Justiça, havia dito à Reuters em maio de 2025 que o Brasil rejeitou um pedido americano sobre o assunto: "Não temos organizações terroristas aqui. Temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade". Casarões aprofundava a análise: classificar facções como terroristas poderia ter implicações econômicas devastadoras. Qualquer empresa que tivesse, em algum ponto de sua cadeia produtiva, ligações indiretas com CV ou PCC poderia ser proibida de operar nos Estados Unidos ou vender para lá. Além disso, ele observava que terrorismo havia se tornado, especialmente após 11 de setembro de 2001, uma categoria que permitia aos Estados Unidos uma ingerência global praticamente ilimitada.
O Departamento de Estado americano havia deixado claro sua posição em março, declarando que via PCC e CV como ameaças de alcance regional. Mas uma fonte do Itamaraty minimizou os riscos, dizendo à BBC que a cooperação entre os países na área de segurança pública era "antiga e muito boa" e que a discussão sobre classificação seria apenas um "balão de ensaio" inflado pela "mesma turma do tarifaço" — referência à tarifa de 50% que os Estados Unidos haviam imposto a produtos brasileiros no ano anterior. Essa medida havia sido promovida por Eduardo Bolsonaro, ex-deputado que mora nos Estados Unidos desde 2025 e mantém interlocução com membros do governo Trump, em uma tentativa de pressionar contra a condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal. A estratégia não havia funcionado.
Agora, com o encontro de Lula e Trump marcado, o governo brasileiro precisava equilibrar duas necessidades contraditórias: manter uma boa relação com Washington, crucial para seus interesses econômicos e de segurança, enquanto defendia sua soberania nacional e evitava que Bolsonaro transformasse a questão em munição eleitoral. Casarões resumiu o dilema: "Acho que vai ser algo muito calculado daqui para frente, para que a reação seja uma defesa da soberania nacional, por óbvio, mas que não atrapalhe a relação bilateral como um todo, num momento em que, para o Lula, manter uma boa imagem junto aos Estados Unidos é crucial também". A reunião de quinta-feira testaria se o governo conseguiria navegar essa corda bamba.
Citazioni salienti
Se eu fosse o presidente da República, facções já teriam sido declaradas terroristas e o Brasil estaria assinando o acordo de cooperação para prender esses marginais e libertar o povo— Flávio Bolsonaro, em evento de pré-campanha na Paraíba, 22 de abril
Não temos organizações terroristas aqui. Temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade— Mário Sarrubo, então secretário nacional de Justiça, à Reuters em maio de 2025