À beira do Rio Dnipro, em Zaporizhzhia, um jovem paranaense de 26 anos encerrou sua trajetória numa guerra que não era a sua por obrigação, mas que havia escolhido como propósito. Murilo Lopes dos Santos deixou o Brasil em novembro de 2022 em busca de algo que chamava de realização pessoal, e por dois anos lutou ao lado do exército ucraniano contra tropas russas — até que uma bala o alcançou enquanto, segundo sua mãe, tentava salvar um companheiro ferido. Ele é pelo menos o quinto brasileiro a morrer neste conflito, e sua história levanta, uma vez mais, a questão silenciosa sobre o que leva um
Paranaense morre em combate na Ucrânia após dois anos como voluntário
Ele cumpriu sua missão aqui na Terra com muito louvor e honra
Por que um jovem de 26 anos deixaria tudo no Brasil para lutar numa guerra que não é sua?
Murilo descreveu como uma busca por realização pessoal. Ele já tinha servido no Exército Brasileiro, então tinha alguma experiência militar. Mas parece que foi algo mais profundo — ele disse à mãe que não queria mais voltar ao Brasil, que havia escolhido a Ucrânia como seu país.
Mas a gente não sabe exatamente o que o motivava. A mãe relata o que ele disse em mensagens, mas são fragmentos. Ele era reservado, de poucas palavras. Há muito que não sabemos sobre sua decisão.
A mãe disse que ele estava tentando salvar um colega quando morreu. Como ela soube disso?
Um colega estrangeiro que lutava com Murilo entrou em contato com o pai dele por mensagem para informar a morte. Provavelmente esse colega também contou os detalhes sobre o que aconteceu.
Mas isso é um relato de segunda mão. Não temos confirmação independente de como exatamente ele morreu ou se estava realmente tentando salvar alguém. É o que a família acredita que aconteceu.
Ele passou dois anos lá. Isso é muito tempo. Como era a vida dele durante esse período?
Muito isolado, aparentemente. O contato com a mãe era por aplicativo de mensagens e foi ficando cada vez mais escasso. Ele estava na linha de frente, em combate. Mas havia momentos de leveza — ele cantava com outros voluntários brasileiros, cuidava de animais.
Sabemos muito pouco sobre o dia a dia dele. As informações vêm principalmente de fotos e vídeos que ele compartilhava com a mãe. Não temos acesso a diários, a relatos mais detalhados de como era estar lá.
Quantos brasileiros morreram nessa guerra?
Murilo é pelo menos o quinto. Há também paranaenses como Antônio Hashitani, que era estudante de Medicina. E gaúchos como André Luis Hack Bahi e Douglas Rodrigues Búrigo.
A palavra é "pelo menos". Pode haver outros que não foram documentados ou confirmados. E a gente não sabe quantos brasileiros estão lá agora, lutando. Esses números são fragmentários.
A família conseguiu trazer o corpo de volta?
Ainda não. Eles estão enfrentando dificuldades para contatar a embaixada e para organizar o traslado. Existe a possibilidade de que Murilo seja cremado na Ucrânia.
A embaixada disse que está à disposição, mas não fornece informações sobre casos individuais por questões legais. Então a família está navegando isso sozinha, de longe, enquanto enfruta uma guerra.
Le Pouls
- A notícia da morte chegou à família não por canais oficiais, mas por mensagem de um colega estrangeiro de combate — um reflexo da distância e do isolamento que marcaram a vida de Murilo na Ucrânia.
- Murilo havia dito à mãe que não pretendia voltar ao Brasil; havia escolhido a Ucrânia como lar, e foi lá que encontrou seu fim, numa missão à beira do Dnipro.
- A família agora enfrenta o labirinto burocrático de repatriar o corpo, com dificuldades para contatar a embaixada e a possibilidade real de que Murilo seja cremado em solo ucraniano.
- Sua morte eleva para pelo menos cinco o número de brasileiros mortos em combate na Ucrânia, todos voluntários, todos com histórias de partida e silêncio crescente nas conversas com quem ficou.
- A mãe, Rosângela, transformou a dor em palavras públicas nas redes sociais, descrevendo um filho reservado que, mesmo em meio à guerra, buscava alegrar os companheiros e amenizar o peso do que viviam juntos.
À beira do Rio Dnipro, em Zaporizhzhia, um jovem paranaense de 26 anos encerrou sua trajetória numa guerra que não era a sua por obrigação, mas que havia escolhido como propósito. Murilo Lopes dos Santos deixou o Brasil em novembro de 2022 em busca de algo que chamava de realização pessoal, e por dois anos lutou ao lado do exército ucraniano contra tropas russas — até que uma bala o alcançou enquanto, segundo sua mãe, tentava salvar um companheiro ferido. Ele é pelo menos o quinto brasileiro a morrer neste conflito, e sua história levanta, uma vez mais, a questão silenciosa sobre o que leva um ser humano a cruzar oceanos para oferecer a própria vida por uma causa distante.
Murilo Lopes dos Santos tinha 26 anos quando foi atingido à beira do Rio Dnipro, em Zaporizhzhia. A notícia chegou à família por mensagem de um colega estrangeiro de combate, na última sexta-feira. Segundo sua mãe, Rosângela Pavin Santos, ele havia sido baleado enquanto tentava salvar outro combatente gravemente ferido.
Natural de Castro, no Paraná, Murilo havia servido 18 meses no Exército Brasileiro antes de deixar o país em novembro de 2022. Desembarcou em Cracóvia, cruzou a fronteira ucraniana de ônibus e passou cerca de um mês em Ternopil antes de se integrar às forças ucranianas. Por dois anos, permaneceu na linha de frente. Em suas mensagens para a mãe, deixava claro que havia escolhido a Ucrânia como seu país — que não pretendia voltar. O último contato aconteceu em 2 de julho, antes de uma nova missão.
Rosângela descreveu o filho como reservado e de poucas palavras, mas que sabia tornar a guerra mais suportável para os companheiros. Nas redes sociais, ela publicou fotos dele com gatos que amava e um vídeo em que ele e outros voluntários brasileiros cantavam uma música de Chitãozinho e Xororó. "Você cumpriu sua missão aqui na Terra e com muito louvor e honra", escreveu.
Agora, a família enfrenta a difícil tarefa de repatriar o corpo, com obstáculos para contatar a embaixada e a possibilidade de cremação na Ucrânia. O Ministério das Relações Exteriores afirmou estar disponível para assistência consular, mas não forneceu detalhes sobre o caso.
Murilo é pelo menos o quinto brasileiro morto em combate neste conflito. Antes dele, morreram André Luis Hack Bahi, Douglas Rodrigues Búrigo e Antônio Hashitani, entre outros — todos voluntários, todos com famílias que receberam a notícia de longe, por aplicativo, sem poder estar presentes.
Murilo Lopes dos Santos tinha 26 anos quando uma bala o atingiu à beira do Rio Dnipro, na cidade de Zaporizhzhia, na Ucrânia. A notícia chegou a sua família por um aplicativo de mensagens — um colega estrangeiro que lutava ao seu lado contatou o pai do brasileiro na última sexta-feira para informar que ele havia morrido em combate contra tropas russas. Segundo a mãe, Rosângela Pavin Santos, Murilo estava tentando salvar outro combatente que havia ficado gravemente ferido quando foi atingido.
O jovem de Castro, no Paraná, havia deixado o Brasil em novembro de 2022 em busca do que descreveu como uma "realização pessoal". Antes disso, havia servido ao Exército Brasileiro por 18 meses, deixando a corporação quando seu tempo de serviço militar terminou. Ele desembarcou em Cracóvia, na Polônia, pegou um ônibus até a divisa ucraniana e passou cerca de um mês na cidade de Ternopil antes de se integrar às forças ucranianas. Durante dois anos, permaneceu ao lado do exército ucraniano na linha de frente.
Em suas conversas com a mãe através de aplicativos de mensagens, Murilo deixava claro que não pretendia voltar a morar no Brasil. Havia escolhido a Ucrânia como seu país para viver. Rosângela descreve o filho como um homem reservado, de poucas palavras. O contato entre eles foi se tornando cada vez mais escasso conforme o tempo passava. O último diálogo aconteceu na terça-feira, 2 de julho, antes de Murilo partir para uma nova missão.
Nas redes sociais, Rosângela compartilhou sua dor e sua visão do filho. "Meu menino, nunca pensei que você sairia nas páginas de notícias dessa forma, mas Deus tem um propósito na vida de cada um de nós e você cumpriu sua missão aqui na Terra e com muito louvor e honra", escreveu. Em outra postagem, ela recordou que Murilo "com tantas atrocidades e tristezas de uma guerra, buscava sempre um jeito de descontrair e alegrar seus companheiros tornando o que estavam vivendo algo mais leve e suportável pra todos". Ela publicou fotos dele com dois gatos — animais que ele amava — e um vídeo em que ele e outros voluntários brasileiros na Ucrânia cantavam "Sinônimos", de Chitãozinho e Xororó.
A família agora enfrenta a tarefa prática de trazer o corpo de volta ao Brasil, uma gestão complicada pelas dificuldades em contatar a embaixada durante o fim de semana. Existe a possibilidade de que Murilo seja cremado na Ucrânia. O Ministério das Relações Exteriores, por meio da Embaixada do Brasil em Kiev, afirmou estar "à disposição para prestar assistência consular aos familiares do brasileiro", mas citou questões legais para não fornecer informações sobre casos individuais.
Murilo é o segundo paranaense morto em combate nesta guerra. Sua morte marca pelo menos a quinta morte confirmada de um brasileiro no conflito que dura mais de dois anos. Embora o Brasil não tenha enviado tropas oficialmente, cidadãos brasileiros viajaram para o Leste Europeu para participar dos combates, muitos deles pela Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia, um grupo paramilitar de estrangeiros organizado pelo governo ucraniano. Antônio Hashitani, 25 anos, natural de Curitiba e estudante de Medicina, foi morto em Bakhmut em agosto de 2023. André Luis Hack Bahi, 44 anos, de Porto Alegre, morreu em 4 de junho de 2022 ao tentar resgatar outros dois combatentes sob fogo cruzado, deixando sete filhos. Douglas Rodrigues Búrigo, 40 anos, de São José dos Ausentes, morreu em julho de 2022 durante um ataque aéreo em Kharkiv, após apenas dois meses na Ucrânia. A lista continua, e com ela, as famílias que recebem notícias de morte através de aplicativos de mensagens, de longe, sem poder estar presentes.
Citations marquantes
Com tantas atrocidades e tristezas de uma guerra, buscava sempre um jeito de descontrair e alegrar seus companheiros— Rosângela Pavin Santos, mãe de Murilo, em postagem nas redes sociais