Um aluno de 14 anos esfaqueou colega de 13 anos após sofrer ofensas em grupo de WhatsApp; vítima passou por cirurgia e permanece internada em UTI. Pais relatam que coordenação da escola foi informada sobre casos de bullying, mas não classificou os episódios como ofensa ou tomou providências adequadas.
Pais denunciam negligência de colégio no combate a bullying após esfaqueamento
Era mais fácil eu tirar minha filha da escola do que ele resolver a situação
Por que a escola não classificou essas situações como bullying quando os pais reclamaram?
Segundo os relatos, a coordenação argumentava que conversas entre alunos não configuravam ofensa. Mas há uma diferença entre uma discussão isolada e um padrão de humilhação sistemática — nomes escritos em banheiros, sons de vômito quando a menina passava, vídeos publicados nas redes sociais. A escola parecia estar usando uma definição muito estreita de bullying.
E por que o coordenador pediu para a mãe não fazer a denúncia à Secretaria de Educação?
Isso sugere que havia interesse em evitar que o caso chegasse a órgãos externos. Se a denúncia fosse formalizada junto à secretaria, haveria investigação, responsabilização. Mantendo tudo interno — ou melhor, desaparecendo com o problema ao sugerir que a mãe retirasse a filha — a escola se protegia.
Você acha que a escola sabia que havia risco de violência?
Os pais do adolescente que esfaqueou o colega dizem que a escola conhecia as situações de bullying que ele sofria. Se isso é verdade, havia sinais. Bullying não é apenas desconfortável — pode levar a consequências graves. A escola tinha informação e não agiu.
Por que os pais só conseguiram resultado após registrar boletim de ocorrência?
Porque formalizou o problema. Enquanto era apenas uma reclamação verbal, a escola podia ignorar. Um boletim de ocorrência cria registro, envolve polícia, abre possibilidade de investigação. De repente, o assunto virou sério demais para ignorar.
Qual é o risco maior aqui — a violência física ou o que vem antes dela?
Os dois estão conectados. A violência física é o ponto de ruptura, o momento em que tudo explode. Mas o que vem antes — a humilhação diária, a sensação de estar sozinho, de que ninguém vai ajudar — isso constrói o terreno onde a violência germina. A escola falhou em ambos os níveis.
Der Puls
- Adolescente de 14 anos esfaqueou colega de 13 anos no Colégio Itamarati em Ribeirão Preto na sexta-feira, 21 de agosto
- Vítima sofreu perfuração no pulmão, foi operada e permanece internada em UTI com quadro estável
- Pais relatam que escola foi informada sobre bullying e cyberbullying, mas não classificou como ofensa nem tomou providências
- Coordenação pediu para mãe não formalizar denúncia junto à Secretaria de Educação
- Ministério Público investiga suspeita de omissão da instituição
Um aluno de 14 anos esfaqueou colega de 13 anos após sofrer ofensas em grupo de WhatsApp; vítima passou por cirurgia e permanece internada em UTI. Pais relatam que coordenação da escola foi informada sobre casos de bullying, mas não classificou os episódios como ofensa ou tomou providências adequadas.
Pais de alunos do Colégio Itamarati em Ribeirão Preto criticam a instituição por negligência no combate ao bullying, após um estudante esfaquear colega. Relatos indicam que a escola ignorou denúncias de assédio moral e cyberbullying.
Na última sexta-feira, um adolescente de 14 anos esfaqueou um colega de 13 anos dentro do Colégio Itamarati, em Ribeirão Preto. O jovem que cometeu o ato disse à polícia que agiu após ser alvo de ofensas em um grupo de WhatsApp. A vítima sofreu uma perfuração no pulmão, foi submetida a cirurgia e permanece internada em unidade de terapia intensiva com quadro estável. Mas o incidente revelou algo que pais de alunos vinham denunciando há tempos: a escola, segundo eles, ignorava sistematicamente casos de bullying e cyberbullying.
Uma mãe, que pediu para não ser identificada, conta que sua filha de 16 anos foi alvo de humilhação constante. Tudo começou em um grupo de WhatsApp que reunia alunos de duas turmas do segundo ano do ensino médio. Ali, colegas a chamavam de "gorda nojenta" e "espinhuda". Quando ela passava pelos corredores, faziam sons de vômito. A situação escalou quando o nome completo da adolescente apareceu escrito em um banheiro da escola, acompanhado da inscrição "gorda nojenta". A mãe procurou a coordenação, mas foi informada que aquilo não configurava ofensa. "O coordenador falou que ela passar pelos colegas e eles fazerem som de vômito e xingar ela de espinhuda não era ofensa", relata.
Desesperada, a mãe registrou um boletim de ocorrência e chamou a Polícia Militar. Quando o policial chegou à escola, o coordenador fez algo que a deixou ainda mais chocada: recomendou que ela retirasse a filha da instituição e pediu que a denúncia não fosse levada à Secretaria de Educação. "Ele falou na frente do policial que era mais fácil eu tirar a minha filha da escola do que ele resolver a situação", conta. Quando o policial a orientava a formalizar a denúncia junto à secretaria de ensino, o coordenador interferiu novamente: "mas já que você vai tirar suas filhas da escola, não tem por que continuar com essa denúncia".
Outra mãe relata caso semelhante com seu filho. O adolescente chegava em casa chorando, alvo de chacotas e ameaças de colegas tanto presencialmente quanto online. Vídeos citando o nome dele eram publicados nas redes sociais. Em um episódio, foi exposto na sala de aula. Ela procurou a escola e os responsáveis pelos agressores, mas nenhuma medida foi tomada. "É muito complicado lidar com esse tipo de criança, porque os pais não fazem nada, a escola não faz nada, e os pais das vítimas ficam em uma situação muito difícil, muito complicada", desabafa. As ofensas só cessaram após o registro formal de um boletim de ocorrência.
Os pais do adolescente que esfaqueou o colega também alegam que a escola tinha conhecimento das situações de bullying que ele sofria, mas não tomou providências. O jovem foi desligado da instituição e responde em liberdade por ato infracional análogo ao crime de tentativa de homicídio. Procurado pelo G1, o Colégio Itamarati não respondeu até o fechamento da reportagem. Em nota anterior, a instituição afirmou que desenvolve ações de prevenção e conscientização sobre bullying e cyberbullying, e argumentou que conversas trocadas entre alunos não configuram a prática de bullying dentro da unidade.
O Ministério Público investiga suspeita de omissão da escola. Enquanto isso, pais que vivenciaram esses episódios deixam um recado para outras famílias: formalizem as denúncias. "Se o seu filho estiver sofrendo bullying, faça boletim de ocorrência, formalize essas reclamações, porque, se algo acontecer, já vai estar tudo registrado", recomenda uma das mães. A negligência institucional em lidar com assédio moral deixou marcas profundas em vários adolescentes e, em um caso extremo, resultou em violência física que quase custou a vida de um menino de 13 anos.
Bemerkenswerte Zitate
O coordenador falou que ela passar pelos colegas e eles fazerem som de vômito e xingar ela de espinhuda não era ofensa— Mãe de aluna vítima de bullying
Se o seu filho estiver sofrendo bullying, faça boletim de ocorrência, formalize essas reclamações, porque, se algo acontecer, já vai estar tudo registrado— Mãe de outro aluno que sofreu assédio